sábado, 6 de junho de 2009

Homem só - Parte II


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O homem de uniforme guardava a entrada do prédio. O chamavam de vigia, porteiro! Mas ele guardava algo muito mais significante do que um portão de um condomínio antigo. O homem de uniforme guardava o arco-íris dentro de um pote de vidro! Era uma missão muito importante, pois ele detinha o dom de conceber quase um milagre, quando as gotículas de chuva estão em suspensão no ar, e o Sol penetra em seus corpos fluidos. Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Essas pontes majestosas de cores e luz, não pertencem ao mundo dos homens. Você as vê claramente em florestas, perto de cachoeiras... Quanto mais submergida está a natureza nas florestas de concreto, que costumam chamar de cidades, centros urbanos e etc e tal, menor o contato dessas pontes com a realidade. O homem esqueceu-se que é tambem natureza. Se considerarmos a natureza como a desordem, e o homem como o seu paradoxo, o caos urbano é uma tentativa da natureza de corromper a ordem, corromper o homem, reclamá-lo para si novamente (a dualidade do gênero humano). E o vigia ali, segurando aquele vistoso pote de vidro. E se ele fosse meu? Teria o arco-íris inteiro só para mim! Deleitaria-me em suas cores sedosas, quase tangíveis, leves, infinitas. Para mim a ordem é um poema parnasiano, e a natureza um devaneio romântico. Prefiro o caos criativo, o impulso. Mas, quando gotículas de chuva estão suspensas no ar e a luz do Sol as atinge, necessariamente temos um arco-íris. Por que as coisas bonitas também tem fórmulas? O vigia roubou o arco-íris para si, para nunca mais vê-los como um simples arranjo de água e luz. Roubou-os para preservar sua beleza inefável. Diante dos meus olhos, eu o deixei com aquele fardo, e homem nenhum teria o direito de abarcá-lo para si. Os vigias são pagos para vigiar, o arco-íris para ser vislumbrado, e eu, para entreter o incolor cotidiano. Nunca recebi um centavo, muito menos o arco-íris!

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I.B.

Um comentário:

Two Wrecked Minds Full of Thoughts disse...

A ordem tende para o caos... ou seria o contrário?
Nota: o vigia usa uniforme. O substrato da natureza seria a ordem? Seríamos nós mesmos, homens, imersos em confusões, seres absolutamente ordeiros? Existiria uma ordem (divina?) em meio a todo esse caos???