domingo, 14 de junho de 2009

Dia de Cão

O Sol despontava no horizonte, derramando uma luz fosca sobre o mundo, que, lentamente, começava a despertar. Os minutos se arrastavam preguiçosamente nesse princípio de dia, comprimindo a fatalidade do eterno num breve instante. Dali a pouco o mundo entraria em frenesi, todos vagando de um lado para o outro, louca e desesperadamente em busca de algo – ou alguém... Estariam procurando por si próprios, caçando uma imagem fugidia de um seu próprio reflexo que acabava de dobrar a esquina seguinte?
Nesse instante, porém, uma única alma animava as ruas desertas da cidade sonolenta. Solitária, iniciava sua peregrinação diária - sempre há de existir um novo lugar, novas paragens, onde a vida seja um pouco menos penosa... Pouca, ou nenhuma, questão fazia de não ser notada – não havia ninguém mais ali, e, mesmo que houvesse, a última coisa por que esse alguém se interessaria seria esta pobre e triste alma. Isso me faz pensar na capacidade, particular ao ser humano, de ser indiferente ao outro, ou outros.
Sem remorso revirava o lixo em busca da tradicional refeição matinal. Que tal um belo filet para iniciar o dia? Pena que não há nada para tomar; talvez a fonte já esteja funcionando, haverá água...
O frio da noite havia espantado todo mundo das ruas, sequer os roedores das sarjetas arriscavam por o focinho para fora. Seria companhia, ao menos. Bem, estarei só nessas primeiras horas. E só esteve.
A luz fraca da manhã, projetada sobre a água que vertia da fonte criava a bela imagem de um arco multicor. O nômade, avistando-o, aparentou se interessar. Aparentou apenas... Virou o rosto para o lado oposto. Levantou as narinas e começou a farejar. Havia algo ali próximo. Cheiro de pão, pão fresco, recém saído do forno. Não sei por que ainda sonho com uma bela fatia desse pão. Jamais receberia um pouco daquele muito.
Água, seria muito mais fácil conseguir. Ainda está limpa, devem ter trocado a água ontem mesmo. Pobre coitado, jamais teria imaginado que o homem de uniforme e com um taco de madeira na mão seria cruel a ponto de impedi-lo de beber da água da fonte. Não servem para isso as fontes d'água? Por que me manda embora dessa forma? Foi expulso sob chutes e golpes de taco.
Enquanto se afastava paulatinamente, o senhor guarda gritava já ao longe: "E que você nunca mais volte, seu mendigo miserável e imundo! Nunca mais venha poluir as nossas fontes com a sua sujeira, seu verme! Isso aqui não é lugar para cães rastejadores como você!"
P.M.

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