quarta-feira, 25 de março de 2015

Bicho Papão

Era uma vez...

Cheguei exausto em casa e não tinha nem estímulo para comer o cuzcuz de quatro horas atrás, abandonado no cuzcuzeiro. Um peso morto e insosso sobre o fogão. Me derramei sobre aquela cama larga e vazia e afundei de cara naquele espaço escorregadio até atravessar a sua matéria. Até debaixo da cama, de qualquer cama.

Toda e qualquer cama que existe, debaixo dela, eu sou o seu inquilino. A noite sopra seu hálito quente sobre as paredes dos lares, mas eu permaneço gélido, sobre o piso frio e empoeirado. De vez em quando elas, as crianças, são capazes de escutar o meu sibilo e prontamente se põem a correr para o quarto de seus pais. Algumas delas se cobrem por completo com seus frágeis lençóis e as mais bravas arriscam encarar as profundezas do meu covil. Nada vêem, senão o pó. Mas eu estou lá. Sempre estarei, sempre estive.

O sol aparece. Minha labuta chega ao seu fim. Enfim, eu morro; e, como a fênix, renasço sobre a minha cama. Não é qualquer cama, é uma cama específica. Encostada na parede, grande, vazia, empapada de suor e insônia. Todos se levantam, escuto os passos ressoando pela casa, mas a porta está encravada no chão e eu permaneço deitado sem o ímpeto para me levantar. Quando finalmente eu me ergo de meu leito, eu preciso sair. Até o momento de negligenciar mais um prato de qualquer coisa sobre o fogão.

2 comentários:

Janaina Amarante disse...

Ótimo texto ...meus últimos dias têm sido exatamente assim.

Igor Bacelar disse...

Uma sequência de não-dias.