quarta-feira, 24 de abril de 2013

Máscaras

Ele peidava bastante. Às vezes era engraçado, outras o fedor superava a graça e muitas outras vezes era simplesmente peido. Um rascunho de bosta, o devir da cagada, o bafo insuportável da verdade que habita as entranhas, da feiura da vida, do enxofre dos infernos, da sopa primordial.

Um dia ela negou a tolerância, a coexistência com o peido alheio. Irritou-lhe as narinas molestadas, o fastio corroeu a sua moral e até mesmo a sua biologia. A podridão pertence aos abutres, aos siris, às baratas, vermes e ratos. À essa corja maldita! e de forma alguma deveria ser disposta aos valores humanos, ao menos nos mais imediatos.

Cheirar o peido do outro é como aspirar o que há de mais podre dentro dele. É quase como um vírus, um parasita, um germe nocivo à saúde... É tão íntimo e palpável, que nos afeta no âmbito abstrato, no campo florido das ideias, de tanto impregnar-nos fisicamente. A coisa transborda e foge para o sonho se estiver dormindo, para o pesadelo se estiver acordado. Não existem barreiras dimensionais.

Suja as vestes, os biscoitos, as trepadas, suja tudo com sua imundície arbitrária.O som do peido é o rufar de tambores que precede a batalha, é a sirene do misterioso e derradeiro ataque das tropas inimigas.  Ninguém sabe de que forma será atingido por mais que ele seja prenunciado.

- Você parece uma bomba de gás - ela disse.

Aquilo pareceu afetá-lo como uma punhalada nas costas, uma confissão de um segredo horripilante, a revelação de uma mentira habilmente escondida por debaixo de seu próprio nariz ou uma acusação contundente e inesperada. Ela não deu muita atenção. Estava muito aborrecida com os peidos para se incomodar com uma reação exagerada por parte dele. Afinal, eram só peidos e nada mais.

Só estava cansada de ter que inalá-los ao menos umas 30 vezes por dia. O amor que sentia por ele, compensava o fedor que muitas vezes se desprendia de seu intestino voluntariamente em seus momentos íntimos e algumas raras vezes, acidentalmente, em locais públicos. Apesar de se questionar sobre a suportabilidade, geralmente sem se levar muito a sério. Mas, ele começou a agir estranhamente desde que ela se manifestou em relação a suas bufas.

Já não a olhava da mesma forma, parecia evitar alguma coisa. Evitava emitir gases de seu ânus na presença dela e muitas vezes ela apenas sentia o horrível cheiro como rastros abandonados no banheiro. Certa vez, até mesmo se pegou sentindo saudades dos velhos e quase ritualísticos peidorreiros cotidianos.

- Por que está assim? Já faz um mês! O que foi que houve? Por que não me olha mais nos olhos?

Ele a encarou com uma expressão melancólica em seu rosto e segurou as suas mãos. Tomou um pouco de ar e parecia que finalmente decidiu falar alguma coisa, mas preferiu não dizer nada trancando-se desesperadamente no banheiro.

- Ei! O que foi que houve? Me diga alguma coisa!

Ele abriu a porta liberando aquele velho e insuportável cheiro de ovo podre e sob aquele cáustico e pantanoso ambiente, ajoelhou-se e retirando a sua camiseta regata, rasgou a própria carne com os seus dedos, revelando uma estrutura metálica ao invés de ossos, de sangue, de alguma coisa orgânica.

- Eu sou uma bomba de gás - disse aos prantos enquanto peidava.

Nenhum comentário: