quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Diário de um jornalista (!?) sóbrio


Dia 29/05/09.


Cheguei em cima da hora como de costume, e dos quatro que já deveriam estar ali, só avistei um deles. Meus camaradas também não eram do tipo pontual. Ficamos sentados em frente à emissora, aguardando a chegada dos outros enquanto vislumbrávamos aquela avenida ensandecida. Carros, motos, bicicletas, carroças, pedestres, em uma densa batalha que inevitavelmente terminaria em um evento potencialmente jornalístico. Tudo isso por uma migalha de segundo em suas correrias cotidianas. Ah, o tempo! Não estaríamos lá para ver. Nossos camaradas começaram a chegar.


Uma integrante do grupo (eram três homens e duas mulheres) havia marcado uma espécie de entrevista com um tal de Cleomar Brandi ou qualquer coisa do gênero (viria a descobrir depois, que é uma figura muito importante no cenário jornalístico aracajuano). Para o nosso infortúnio, ele não havia chegado e nem chegaria. Bom, de qualquer forma, conseguimos acesso ao interior da emissora. Não me lembro bem o que levou o segurança a nos deixar passar, talvez o fato de mencionar o nome do tal Brandi ou até mesmo a despreocupação em deixar cinco meros estudantes terem acesso livre ao recinto. Deveríamos procurar uma mulher que respondia pelo nome de Gabriela.


Encontramos um sujeito que fora um companheiro de umas e outras quando eu era mais novo. Na época em que ter uma banda de rock e uma garrafa de vinho era o suficiente para ser feliz. Coincidentemente, era primo de uma das garotas do grupo. Além de me tragar para tempos quase imemoráveis, não pelo tempo que se passou desde então, mas, pela quantidade de álcool que sublimou essas lembranças, o sujeito nos indicou o prédio da redação onde estaria a tal Gabriela.


Adentrei o prédio acompanhado pelos outros estudantes, e como não havia ninguém, aparentemente, para nos receber, arrisquei chamar alguém de dentro de uma sala de onde podíamos ver o que se passava interiormente, através de um painel transparente. Fomos recebidos por um cara que à primeira vista estava surpreso com nossa aparição repentina. Logo em seguida, a tal Gabriela veio nos receber. Era uma moça jovem e simpática que usava óculos de bordas escuras, bem joviais, e de sotaque paulistano. Daquele tipo de pessoa que estaria em uma reunião de amigos, regada a um bom vinho e música alternativa.


Naturalmente, explicamos a razão de estarmos ali, queríamos saber como funcionava uma redação de jornal de mídia televisiva, e ela era a chefe de redação. À primeira vista, me decepcionei com a ausência daquele caos estereotipado e muito provavelmente realista, típico de redações de jornais. Mas, como ela bem disse, “hoje é sexta feira”. Eu não sabia que notícias tiravam férias. Muito provavelmente os repórteres, pauteiros e todos os organismos que desempenhavam suas funções para a execução daquele jornal, estavam muito ocupados no momento. O que careceu de intensidade, vida, naquele ambiente que ainda assim, exalava um leve odor de informação. Fresca.


Nosso encontro foi fundamental para nos situar na realidade daquela espécie de jornal, que era ainda mais interessante, por ser de uma emissora subsidiada pelo governo, tendo um direcionamento de enfoque mais cultural e informativo do que a maioria das mídias. Já que não depende de insumos publicitários (no quesito venda de produtos). Claro que com suas limitações de verba e seus inúmeros problemas estruturais, que a meu ver, contornam com bastante competência.


Lembro-me muito bem do aviso não tão caloroso acerca do mercado de trabalho para jornalistas em Sergipe. Foi a Gabriela quem nos alertou de que temos um dos piores pisos salariais do país, sem contar que não há muito espaço nesse mesmo cenário amarrotado em (perdoe-me pela expressão) excremento! Mas, já era de se esperar. É que a verdade dói mais quando é dita.


Visitamos até mesmo o setor de documentários, onde havia uma quarentona de ar jovial e cativante que nos deu uma explanação acerca de como funcionava esse departamento. Apesar de tudo, não estávamos satisfeitos com essa nossa primeira visita. A moça salientou que seria muito mais interessante entrarmos em contato com o tal do Cleomar Brandi.


Dia 01/06/09.


Depois de um suco de goiaba e um pastel de queijo, acompanhado pelo rapaz pontual que bebia apenas um suco de mangaba, vi um carro entrar na emissora, guiado por um senhor grisalho e meio calvo. Estava convicto de que ele seria o nosso próximo entrevistado. Apenas uma das garotas havia aparecido nesse dia. Decidimos entrar o quanto antes.


Estávamos lá aguardando em um sofá da recepção, quando aquele mesmo senhor que vira alguns minutos antes, saía da ilha de redação sentado em uma cadeira de rodas, segurando obstinadamente um celular e portando um maço de cigarros em um de seus bolsos. Ele se dirigiu a nós com um olhar bastante acolhedor, e seu semblante de alguém em seus sessenta e poucos anos, dava lugar ao de um rapaz, que mesmo tendo vivido inúmeras experiências, não deixara o tempo lhe tomar seu entusiasmo. Aquele jovem senhor transpirava um conhecimento que só podia ser obtido através da leitura de uma porção de livros, o que condiz com a forma com que ele nos expôs seu conhecimento acerca do mundo jornalístico. Era tão natural e transparente o seu discurso, que me peguei imaginando que estávamos sentados à mesa de um bar.


Ele é um dos fundadores da emissora no estado, viera da Bahia com esse objetivo e se encantou tanto com essa terra que decidira ficar por aqui, como ele mesmo fez menção. Também é o diretor de jornalismo dessa emissora e produtor de um jornal escrito. Exerce a profissão de jornalista há tanto tempo quanto uma vida e meia minha. Algo tanto engraçado, quanto intimidador de se constatar. Ah, o tempo! Vez ou outra alguém interrompia a nossa descontraída conversa para informá-lo de alguma emergência, ou fato que ocorria, e ele sempre tinha a palavra final. Já pude sentir a partir daí, aquela pressa e ansiedade de um ambiente em que se tratam notícias. Fervendo.


Ele falou algo sobre ser ardiloso na obtenção de entrevistas e de possuir fontes e mais fontes. O sujeito respirava jornalismo, escutem o que digo. Até mesmo uma mesa de bar pode ser um verdadeiro acervo de informação, segundo ele (e fora a impressão primordial de nosso diálogo ali, naquele sofá). E era o que fazíamos ali, sentados em uma espécie de mesa de bar, bebíamos daquela fonte grisalha e calva.


Segundo Brandi, os estagiários que ali ingressavam, são avaliados através de uma simples redação, muitas vezes mal escritas, como ele colocou. Afinal, o instrumento de um jornalista seria o que senão palavras? Disse que os estagiários executam todas as funções possíveis dentro do jornal, e trabalham como verdadeiros jornalistas. Para saber se um soldado está realmente preparado, envie-o para um campo de batalha. “Quem trabalha aqui, está preparado para trabalhar em qualquer lugar”. Isso se verifica tanto em termos de recursos reduzidos, quanto em multidisciplinaridade de cargos. “Pobres estagiários”! Ou seria, ricos estagiários.


A entrevista deu no que tinha de dar. Nosso anfitrião voltara apressadamente para sua labuta diária. Deixara de ser um camarada na mesa do bar, para voltar a ser um atarefado chefe de redações em um piscar de olhos. Não será através dessas poucas “laudas” que exporia todas as impressões que tive acerca desse dia bastante proveitoso, mas uma coisa é certa. Não é só nas ruas que uma migalha de segundo vale muito, os próprios jornais são movidos a esse tique-taque nervoso, purulento, desvairado... Notícias, tempo. “Um dia deveria ter mais de vinte e quatro horas”.


I.B.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

Perfume e Gozo


Não sei se deveria chamar de ingenuidade a incapacidade que uma criança bem novinha tem de distinguir certas coisas tão nítidas para os mais "maduros" - mais vividos ou vivedores talvez sintetizasse a palavra maduro melhor. Quando estão ao telefone falando com algum ente querido, presumem que gesticular um "sim" e um "não" são suficientes para dar a entender quem está do outro lado da linha. Entendo muito bem, deve ser de uma confusão muito grande assimilar que alguém está em algum outro lugar como aquele, real, material e não na própria linha do telefone. Da mesma forma, quando possuem um binóculo e encaram nitidamente uma pessoa que está a metros de distância, deduzem que suas palavras possam ser ouvidas claramente como se aquele indivíduo estivesse ali cara a cara com eles. Até compreendo a dificuldade que deve ser analisar as coisas através dessa perspectiva um tanto curiosa. Compreendo a incompreensão desse neófitos pois, esses se deparam com um mundo moldado por homens, ao contrário de suas naturezas primárias, brutas, selvagens, que antecede o homem por si só. Os pequeninos acabaram de deixar o útero do indizível e ingressaram na maculada morada do essencial dizível. O que se toca, vê, cheira, e obrigatoriamente tem que ser nomeado ou não faz sentido algum. Essa humildade imanente dos bebês é esbofeteada pungentemente.

Um certo príncipe me falou que o essencial é invisível aos olhos e certamente ouso acrescentar que é também inaudível aos ouvidos. A mudez é de sensibilidade muito grande e de difícil acesso. É preciso estar nas entranhas do mundo para deleitar-se em suas vinhas. Arrisco dizer que ela por si só antecede o sonoro. O silêncio é a voz das profundezas, do cerne da vida, da selvageria, do irracional, é o que realmente é por si mesmo e nada pode ousar comunicar-lhe a manifestação. Infelizmente os bebês são infectados no momento em que põe sua cara infeita no mundo, tendem a berrar e expurgar o silêncio ancestral de seus pulmões. Quando fazemos preces a algum Deus, necessariamente obtemos uma resposta muda e muitas vezes esse "nada" é encarado como vazio. O que é vazio senão ausência de alguma coisa? Ausência de voz. O vazio é a ausência de voz de um Deus incerto. E o contrário do vazio? Seria Deus em si mesmo? O silêncio é em si mesmo. O paradoxo entre o todo e o nada é indizível. Sentir é a solução para nós humanos, é a nossa verdade absoluta, mas para isso temos que renunciar a visão, os ouvidos? Renunciar a nossa humanidade?

Estou a sós com uma pessoa muito íntima e trocamos murmúrios quase insonoros, não queremos acordar alguma coisa que está a espreita, alguma coisa de uma virilidade irrecusável. O que dizemos é mera reprodução do que se sente no momento que se sente. Desconhecemos a profanidade das palavras, mas temos consciência de que elas estão logo abaixo do que não conseguimos dizer e apesar disso ás vezes elas soam tão belas. Imaginem o quão belo não deve ser o que não se pôde dizer. Não sei se o que nos preenche naquele momento é o absoluto, ou o absoluto é o que nos provoca essa sensação. O absoluto é o que antecede todas as coisas? Ou que a todas elas se sucede? O sussurro é de uma sensualidade avassaladora, é a tentativa de emudecer e comungar com o primordial infeito, a nossa parcela mutável e ainda assim intocada. Pois, o primordial está em fase de composição, mas também acabou de ser composto. O que antecede é música.

O momento em que duas pessoas se entrelaçam e trocam seus olhares mudos, seus sussurros mudos, seus sabores mudos, seus toques mudos, são passeios sorrateiros na fronteira do que se é. O que não é parece estar entorpecido naquela intermitência que subverte a natureza do que se afastara da natureza . O que seria o gozo então? A ingenuidade da criança que chora quando é concebida pelo ventre materno? O gozo seria a mudez que se pronuncia de forma audível? É o muito que reproduzido é um retrato pouco do que se não manifesta no mundo material. Mas será que nossa couraça apreende tudo quanto nos pode ser remetido? Somos mais que couraça, mas ainda obsoletos em relação ao rufar dos tambores de todas as coisas e não coisas que habitam e inabitam o universo e o desuniverso. Por que o intervalo de todas essas coisas não nos é apresentado. Não são suficientemente opacos para nossos olhos de gente. Existe um silêncio entre dois grãos de areia, um vazio agregante, eu quero estar entre eles, mas querer é pouco demais. Tudo é de uma magnitude ínfima quando se parte do pressuposto de almejar algo. O indizível só acontece uma vez e é destituído de expectativa. E na minha ignorância de algo que vive sem saber que vive o que vive, quero estar entre os grãos, por que foi lá que me disse certa vez que estaria.

_ _ _ _.

Escrito em algum lugar de Junho ou Julho.

Pintura de Mark Ryden.

O mundo perdido de Nog Parte-II

"You can only know yourself when nobody knows you."

Nunca entendi bem essa afirmação, embora foi a primeira coisa a qual pensei antes de lhes contar o que ocorreu. Claro que existem uma série de razões para reprovarmos certos aspectos negativos das relações sociais, eu mesmo tenho muito desse veneno correndo em minhas veias, mas, muito do que sei (ou tudo) foi conquistado através de uma série de trocas sociais. Sei que sou ,pois existe um outro que é. Sei que sou mal, pois existe um indivíduo que não o é. Meras convenções que preenchem o copo vazio que fui. Não! Não fomos vazios. Como pude me esquecer das predisposições? O que seriam elas? Será que existe uma consciência independente? Ou somos um cassino orgânico onde todas as possibilidades do que me é, sejam meras "jogadas probabilísticas"? Adoro como soa essa teoria.

Vou contar-lhes uma pequena história antes de tentar retratar o infortúnio do pobre Nog. Uma simples história, pois as simples histórias nos falam mais. Estão fora de moda, mas, são indiscutivelmente irredutíveis (por serem simples). Não existem arrodeios. Ela é o que é. São um retrato da vida... Não! A vida pode ser apreciada a partir de tantas óticas contraditórias... São os olhos que a complicam. É simples, porém tantos olhos a olham que sua primitividade é despercebida. A vida só é simples quando ninguém percebe-se inserido nela. Histórias simples são como cagar na privada ou cortar o cabelo que está lá por sete anos sobre o seu crânio, simplicidade irredutível. Aposto que arranquei algumas risadas através dessa afirmação minimamente escatológica. É como cagar, pois nascem de um impulso natural do gênero humano: o de contar histórias. Alguém já ouviu falar de Deus? Oh, me crucifiquem. Podem me chamar de cético, mas entrego-lhes de antemão que não o sou.

Já ia me esquecendo da história. Perdoa-me meu caro Nog, eu chegarei lá. Juro que serei lacônico. Aliás, que isso sirva como uma prévia do que contarei em breve. Pois bem, havia esse rapaz que andava pela mata. Estava embrenhado naquela selva inóspita acompanhado por seu pai. Se afastou um momento para aproveitar um pouco das sensações do mundo selvagem a sós, quando achou uma cobra visivelmente destacada sobre a restinga. Esqueci de dizer que o rapaz era sozinho, não era de muitos amigos. Gastava horas e horas conversando com objetos inanimados e animais em sua infância. Aliás, seu camarada preferido nos tempos de esquizofrenia saudável, era um botão de uma camiseta que caíra certa vez. Quão encantador, não é mesmo? Belo espécime!

Conversou horas a fio com a cobra. Estava tão entretido com aquele diálogo...Sentiu simpatia por ela. Eu particularmente discordo quanto a cobra ser o retrato do demônio nos escritos bíblicos. São criaturas magníficas. Sua dança hipnotizante, a sensualidade... Quem disse que isso é sinônimo de malevolência? Seria o bote? O veneno? Homens também o fazem e com primorosidade. A chave da questão deve estar no fato de elas se rastejarem. Preciso ler a bíblia ou reavaliar a questão por um ponto de vista histórico. Talvez houvesse um indície inumerável de vítimas por picadas de cobras no período que compuseram o livro.

Sem mais delongas...

O rapaz estava tão entretido com a conversa, que mal percebeu a imobilidade do réptil. Seu pai o surpreendeu (involuntariamente) naquela clareira e nem percebeu o que se desenrolava. Estava descuidadamente despreocupado, desatento ao que não fosse a vastidão daquela planície. Sequer se deu ao luxo de ouvir o que se passou. O rapaz calou-se imediatamente. Seu pai foi até a cobra e a pegou em suas mãos, "olha, essa acabou de trocar de pele. Um pedaço inofensivo de velhas escamas agora."

I.B. (na ociosidade da noite)

Diário de Nog (páginas perdidas)

Acredito que estão conspirando contra mim. É como se o mundo todo estivesse envolvido em um complô. Mas eu não me recordo de ter feito nada contra ninguém. Não me recordo de ter ameaçado nenhuma instituição... Não posso ser vítima por saber de menos! Apenas vivi. Muito menos do que sempre imaginei que poderia. Só não consigo aceitar que as pessoas a quem eu amo estão relacionadas a uma brincadeira de mal gosto como essa. Nenhum indivíduo merece tal reclusão. Nenhum! Sei que isso não é um sonho, mas é tão surreal o que está acontecendo comigo. Pareço um personagem de um livro, forçado a estar em uma situação extraordinária para que a vida seja avaliada a partir de uma perspectiva singular ou até mesmo óbvia. Seria eu, mero instrumento de iluminação para aqueles que de mim sustentam suas fantasias e convicções? Seria eu um louco a pensar dessa forma? Dada a situação que me encontro... Existem duas saídas possíveis: enlouquecer ou aceitar.

Escrito em alguma tarde brasiliense, entre 20 e 31 de Julho.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O mundo perdido de Nog Parte-I

-Hoje à noite haverá uma festa lá nas docas. Será inesquecível, Nog.
-Podem confirmar minha presença lá.

Meteu a mão em seus bolsos e pôs-se a caminhar chutando as latinhas que haviam espalhadas naquela calçada suburbana. Não havia muito a se dizer sobre aquele dia. Era um dia comum, de pessoas comuns, com uma história comum. Nog já estava habituado a isso. Na verdade, quem não está? Existem dois tipos de pessoas: as que estão e as que não estão. Creio eu, que a segunda categoria é a daqueles poucos, aqueles que pulsam, que sofrem, que vivem. Mas, o restante faz o que então? O restante já cansou disso ou nem teve a sensibilidade para captar a "mundanice" diária. Nog se cansou há muito tempo.

Meteu a chave na fechadura e abriu a porta do seu apartamento. Dividia o seu "lar" com seus pais e irmãos. Quando estavam todos reunidos, aquilo era um verdadeiro caos, um pandemônio. As relações familiares eram sempre acompanhadas de intrigas e discussões, mas apesar de todas as infelicidades, Nog tinha orgulho de dizer que ali era a sua casa, o seu abrigo das tempestades, das intempestividades. O lar é o refúgio do homem, seja ele onde for.

Só precisava comer a refeição que sua mãe havia preparado algumas horas antes e pegar o metrô para seu trabalho improdutivo. Nog fazia alguns bicos para uma empresa pequena de propaganda. Fazia os serviços mais insignificantes que você pode imaginar. Não teve uma educação tão boa, mas não por falta de oportunidade, mas por preguiça. Certa vez, me deparei com um questionamento acerca do espírito humano que era o seguinte, "é medo ou preguiça que inibem o crescimento do gênero humano?'' Não consigo ver de outra forma: Nog é um preguiçoso.

Não quero prolongar demasiadamente nesses pormenores, pois quero apresentar-lhes esse caso insólito. Tudo começou...

I.B. (após um surto epiléptico)

Mãe


Os estilhaços estavam espalhados por todos os lados inclusive nos corpos das pessoas. O fogo se alastrava para todos os lados e se insinuavam para mim. Sentia um cheiro horrível de carne queimada enquanto recobrava meus movimentos. Cheiro de morte. Não sabia ao certo o que havia acontecido, mas podia ver que o vagão onde eu me encontrava fora arremessado a centenas de metros dos trilhos. Não havia muito tempo para que o cheiro de carne queimada fosse a ser o meu próprio, então me levantei.


O choro ecoava por todo o vagão, mas era daquele tipo que não vem de nossas gargantas. Choro das entranhas, choro de dor pungente. Era um bebê. Encontrava-se firmemente seguro contra o peito de sua falecida mãe. A mulher fora atingida por uma placa de metal bem na cabeça e provavelmente sucumbiu tão rápido quanto tudo aconteceu. Foi tudo tão rápido quanto um piscar de olhos e ainda assim abraçou firmemente o seu filho. Éramos os únicos sobreviventes desse acidente.


Foi complicado desvencilhar a criança dos braços enrijecidos da mãe, mas consegui. No momento em que o retirei de seus braços tive a impressão de que ela abriu os seus olhos e os direcionou à mim obstinadamente. Estavam arregalados e pareciam me analisar minuciosamente. Senti um frio desconcertante na espinha, mas me apressei em tirar a mim e o pobre orfão com vida daquela fornalha rubro-cinzenta. Mesmo de costas enquanto me afastava em direção à saída, pude sentir seus olhos me seguindo, sua presença.

Nog abriu os olhos e a luz do dia o cegou. "Mas o que era tudo aquilo?"
I.B.

(essa é a capa de uma edição do famoso livro de Górki)

domingo, 26 de julho de 2009

Diário de bordo III

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Na maioria das vezes que o silêncio acometia aquele carro vermelho na noite fria e monótona, prosseguíamos com o nosso diálogo. Apesar de que ás vezes palavras não fossem pronunciadas, era através da voz de uma "metamorfose ambulante" ou de um "besouro" de Liverpool que adentrávamos em uma conversa inacabável que de vez em quando se exprimia em euforia. O grito do claustro.

Eleanor rigby picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window, wearing the face that she keeps in a jar by the door
Who is it for?

Certa vez, visitamos um poço abastecido por uma queda d'água nas entranhas de uma serra. Era azul. Intrasponivelmente azul e frio, e frio. Dava minhas goladas tímidas do meu vinho vagabundo acompanhado por uma alma no mínimo interessante. Não sabia ela que cada golada três vezes maior do que a dela que eu tragava, era uma necessidade da minha alma. Aquela manhã quente acabou em uma refeição tão quente quanto. "Ai, ai, ai, ai, ai, muchacho!"

All the lonely people
Where do they all come from ?
All the lonely people
Where do they all belong ?

Eu senti uma certa ironia quando as "abóboras amassadas" nos disse que aquele era o melhor dia que eles já viveram. Ainda que fosse apenas a véspera do domingo, ele já se atirava apressadamente sobre nós. E a lua também sorria sarcasticamente, quase podia-se ver seus dentes cerrados. E sentados ao lado do carro vermelho, nos perguntávamos de onde vinham e pertenciam as pessoas solitárias. Minha sede crescia a cada momento. Sede de viver? Eu sei que eu bebia.

Father mckenzie writing the words of a sermon that no one will hear
No one comes near
Look at him working. Darning his socks in the night when there's nobody there
What does he care?

Em meio à multidão, aos baques ensurdecedores de uma trupe desesperada e hilariante que serpenteavam pelos nossos ouvidos, heis que me choco com a improbabilidade. Ficamos o restante do espetáculo ao lado da improbabilidade. Ela vinha de longe, vinha da terra dos mandacarus e me lembrava de que por mais que eu tente, não estarei só. Dividimos um momento mágico que era compartilhado em sorrisos. Nossa euforia foi representada sobre um palco, por indivíduos desconhecidos, em um lugar desconhecido. Um rapaz que dançava beirando um ataque epiléptico, seguido por sujeitos igualmente contagiados por uma única coisa: o grito. "Prazer em conhecer você."

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Quando os "caranguejos de Recife" iniciaram seu manifesto sonoro, me desvencilhei por uns instantes daquelas paredes orgânicas. Despejei meus fluidos em uma privada imunda e por alguma razão, fiquei cansado. Queria dizer algo muito importante a alguém naquele momento, precisava dividir o lapso trêmulo de lembranças ainda vívidas em minha alma. Não tive coragem o suficiente. Pela primeira vez eu reprimi o que havia na beira da garganta e talvez por isso perdi a voz. Fiquei mudo. Adentrei naquela maré contidamente celebrante e regressei aos meus camaradas. Dancei feito um louco e gritei através da carne. A alma vinha curiosa até as beiradas tentar entender o que acontecia, mas permaneceu em silêncio. "Transcendendo a carne. Poderia ser uma brisa a me mandar para a lua."

Eleanor rigby died in the church and was buried along with her name
Nobody came
Father mckenzie wiping the dirt from his hands as he walks from the grave
No one was saved

Era frio. Nog cambaleava sobre aquela calçada, às quatro da manhã. Ninguém mais apareceu...

("...")

I.B. & P.M. (nas entrelinhas)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Diário de bordo II (Flittchen)


Meat! No more than meat, like cattle in the green fields moving straight to death by consummation. They laid on the table waiting for us men to lay our starving hands upon them and fill our mouths with their bodies. Meat! No more than meat!
Remember when you were young, you shone like the sun
Shine on you crazy diamond
Now there's a look in your eyes, like black holes in the sky
Shine on you crazy diamond
You were caught in the cross-fire of childhood and
stardom, blown on the steel breeze
Come on you target for far away laughter, come on you
stranger, you legend, you martyr, and shine!
Round and fat hamburgers they were. It's funny how that misshapen piece of meat reminded me of a once living being screaming to the skies "Moow". Disgracefully, no man is meant to afford such an amount of morbid flesh for his own. And then, Interest and Will detached from each other.
You reached for the secret too soon,
you cried cried for the moon
Shine on you crazy diamond
Threatened by shadows at night, and exposed to the light
Shine on you crazy diamond
Well you wore out your welcome with random precision
Rode on the steel breeze
Come on you raver, you seer of visions, come on you
painter, you piper, you prisoner, and shine!
Although there was Interest (the feeling of wanting to give your attention to something or of wanting to be involved with and to discover more about something) towards the consummation of the meat, there was no Will (the mental power used to control and direct your thoughts and actions, or determination to do something despite any difficulties or opposition). Nonetheless, they were dying in starvation.
Nobody knows where you are, how near or how far
Shine on you crazy diamond
Pile on more layers and I'll be joining you there
Shine on you crazy diamond
For that reason, a mere piece of rotten flesh, in that single point in time, maybe for the first time ever, was more alive than ourselves - beautiful and great living beings.
And we'll bask in the shadow of yesterday's triumph
and sail on the steel breeze
Come on you boy-child, you winner and loser,
Come on you miner for truth and delusion, and shine!
"Moooooww!!!", Nog cried out....

P.I.M.B.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Diário de bordo I (Baby Back Ribs)

Por alguns minutos, um estacionamento escuro e frio se tornou um grande anfiteatro onde um personagem invisível destacava-se de duas mentes um tanto avariadas e atirava-se no ar, deixando seu corpo cair no chão com um ruído abafado. Levantando, percebia, desde já em desespero, que talvez tivesse perdido algo muito importante naquela queda. Procurava nos seus bolsos, em vão... Não, não estava mais ali. Talvez nunca houvesse estado, agora já não tinha tanta certeza... O mundo perdido de Nog. E, por Nog, as duas mentes avariadas agonizavam, imersas em um desespero sem tamanho. Tornaram-se elas mesmas invisíveis e imateriais, tornaram-se elas mesmas...

Quanto tempo temos antes de voltarem
Aquelas ondas
Que vieram como gotas em silêncio
Tão furioso

Ela chegou. Uma aparição, uma imagem, um perfume que impregnou todo o ambiente, preenchendo-o com uma não-matéria de peso incrível, e um sorriso singularmente banal. À primeira vista não me surpreendi com suas palavras regurgitadas e sem densidade, mas aos poucos pude perceber em sua voracidade auto-afirmativa algo que só se podia notar pelas entrelinhas, só não tinha tato para perceber naquele momento, viria a descobrir depois, sentado em uma cadeira de metal gelada, numa cobertura gelada, de um bairro nobre e gelado, olhando para as luzes simétricas de uma cidade gelada antecipadamente projetada. Percebi a beleza da espontaneidade viceral.

Derrubando homens entre outros animais
Devastando a sede desses matagais
Devorando árvores, pensamentos

E era linda. Futilmente graciosa. Estávamos no carro naquela noite fria ouvindo algum disco do Zé Ramalho e eu não havia percebido as entre notas daquela menina que tentava ser mulher, até então.

Seguindo a linha
Do que foi escrito pelo mesmo lábio
Tão furioso
E se teu amigo vento não te procurar
É porque multidões ele foi arrastar

Quatro da manhã, deitados naqueles lençóis acolhedores, nos perguntávamos qual o sentido do amor e confessávamos, em voz baixa, que seríamos eternos amantes. Enquanto isso, Nog...

P.M.I.B.


segunda-feira, 20 de julho de 2009

Acordando

Olhei da janela e percebi que o mundo era tão grande... Quantas pessoas estão a andar naquela feira. Não tenho o direito de me privar do mundo. Liguei o meu elo com o mundo novamente. Bastou um clique. O mundo é meu, o mundo sou eu.

A semente

Desaprendendo (vômito não cativante de palavras)


Se você se entrega inteiramente, entrega o que há de mais belo e sincero em você e não resta dúvidas disso, estará despido em uma noite fria à mercê do que farão com sua carcaça florescente. A ausência de dúvida confunde o indivíduo, ele se habitua com aquilo e quando menos percebe... Pluft! Não há mais nada. Tudo isso por que as pessoas não sabem amar, ou tem medo de amar, ou simplesmente não amam. Tapar buracos existenciais seria mais uma necessidade do que amor sincero. Existem uns que acreditam que amor é necessidade. Esses não sabem amar. Só as crianças sabem o que é amor, por que ainda não se queimaram com ele. Quando ele vem uma vez e lhe é tragado furiosamente, corremos um sério risco de desaprender o que seria isso. Eu soube. Pena que não sou mais uma criança.

O Lírio em pedaços

terça-feira, 14 de julho de 2009

A carta

Certa vez uma carta do futuro depositou-se em meu colo. Sem relutância comecei a ler aquele documento. Desde esse dia nunca mais vivi o presente. Estava perdido em um lugar que jamais existiu... aprisionado no devir.

(...)

I.B.

... SANGUE.

O que escrevo agora, nesse momento, não são palavras, são lágrimas. E para acompanhar esse estridente guincho que escapa da minha caneta esferográfica, chove do lado de fora. Estou sentado em uma cadeira de madeira maciça, na varanda de uma casa de ares idílicos no meio dos campos esverdeados de uma província distante. Posso sentir a umidade e o cheiro bruto e cru da natureza. Ouço os pássaros, tão magníficos quando em sintonia com sua morada natural. Decidi vir a esse lugar para justamente pôr um fim à minha vida miserável. Peguei-a emprestada de um amigo meu, ás vezes me arrependo de profanar esse lugar tão puro e acolhedor com o meu sangue. Mas, o que está em jogo é a minha própria carcaça também. Pois bem, será aqui mesmo. Estou pensando nisso há uma semana e fico aliviado por finalmente ter decidido. Descobri que amo demais a vida e justamente por isso me é impossível viver nessas condições. Sem mais delongas... O que escrevo agora é tingido com o meu sangue.

20/06/09

(...)


E pensar que estava tão ansioso... Não houve resposta ao meu chamado naquela madrugada, só silêncio, silêncio agourento. Uma carapuça estava em minhas mãos. Eu sou o meu próprio algoz. Mas dessa vez nenhuma ordem haverá de ser seguida. O silêncio foi cortado pelo brandir do aço, varou a carne, o couro, o concreto gelado. Varreu a vida que gorgolejava em jatadas de sangue. Sangue escuro, denso. "O sangue nunca mente". Percebi tarde demais que não foram minhas mãos que empunharam aquela lâmina enferrujada. Atrasado para o meu próprio suicídio, eu chorei uma última vez. Roubaram de mim até a última gota de...

(...)

I.B.

Dia 7

(!)
(...)
(...)
(.)
(?)
(!?)
(...)
(!?)
(...)
(!?)
(...)

I.B.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Celular

-O que vai querer garota?

-Me dá esse celular que tira fotos com comando de voz e tem internet embutida, dá para ver vídeos, bluetooth, esguicha água nos outros, do menor tamanho possível, que muda de cor no escuro, que reproduz mensagens programadas, que diz oi para mulheres loiras e tem cheiro de mangue. Ah, e que atira aqueles laserzinhos engraçadinhos que dizem que apaga poste!

-Pra que serve um celular mesmo?

-Hã?

-Desculpe, o dinheiro é seu. Não pretendia me intrometer.

-Não entendi a sua pergunta anterior.

E os celulares continuam se reproduzindo como coelhos, e estará nas mãos daqueles que os obtiver, tempo o suficiente para que se finalize o ato coital entre dois preás. A tecnologia é o coelho moderno.

E você... já comprou o seu remédio? Cogitou alguma vez que você é um indivíduo hipocondríaco? Será que o esquizofrênico tem consciência de que é enfermo sem ao menos ser avaliado? Deixe-me levá-lo para a clínica. Prometo meus caros... Eu não vou lhes machucar.

-O que vai querer garota?

-Cenouras.

I.B. & Nog (nas entrelinhas)

Humana

A moça entrou pela porta da frente da lanchonete. Olhou de soslaio para um lindo bebê que estava atracado à sua mãe em uma das mesas, e se manteve ali vislumbrada com a cena tão afetuosa. A criança apertava sua cabeça incisivamente no peito confortável da sua mãe, enquanto ela comia um saboroso hambúrguer de beira de estrada. A moça voltara a si mesma depois daquele surto repentino, embora tenaz. Estava faminta, pois dirigia sua moto milhas e milhas sem descanso. Agora que voltara à plena consciência, subiu em uma das mesas para que todos a vissem.

-Bom-dia! Antecedo-lhes minhas desculpas.

-Por que moça?- falou um senhor de barba mal-feita.

-Pois, assim como vocês, sou humana!

I.B.

Adeus

Exigiu-lhe a bênção, exigiu-lhe o seu calor, exigiu-lhe um pedaço de sua existência. Apenas para abarcar os seus vazios, tapar os seus buracos com lava. Lava que desidrata quando se esvai a quentura, e permanece ali para os refugiados de Pompéia estarem sempre a se remoer pela perda. Um pedaço de si que nunca mais voltará, pois terá renunciado um mundo inteiro dentro de uma partícula subatômica. Amputado, mas não fisicamente. Por que lhe foi exigido um bocado de seu núcleo em pedaços.

I.B.

O Réu

...Calou-se e consentiu com a sentença. O réu olhou-a fixamente nos olhos contritos. Não pronunciou uma palavra sequer. Ele a condenara eternamente por aquela omissão aviltante. Desconcertado, estendeu as mãos ao juiz.

-Prenda-me! Não há mais nada a se averiguar nesse recinto. Me acuso culpado pelos meus pecados. Sou responsável pela minha humanidade!

Fim da sessão. O júri se desfez como formigas num banquete fresco e suculento. Alimentariam os fungos de sua toca, de sua sociedade hierárquica. O réu fora sentenciado: pena máxima.

-A justiça é criação do homem, por isso inexiste. Inexiste pois somos naturalmente injustos.

I.B.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Vasos e flores

E hei de florescer no âmago de tua solidão
Brotando dos cantos mais improváveis de trevas e luz

E hei de brotar nas profundezas de um devaneio seu
Ou até mesmo nas beiradas de um só riso

E hei de me nutrir do teu solo em suspensão
Pois tua lamúria és também meu fardo

E hei de depositar em teu ventre uma semente
Para que tua casca pulse como teu coração fluido

E hei de partir junto à minha carapaça volúvel
Mas não sem ao menos ter sido amado uma única vez

E meus restos jazem nesta piscina solitária
Embora a minha essência transmutada em impressões
Nunca venha a deixar-lhe por completo
Por que eu também te amei

I.B.

... na minha alma.


... E assim me despedi de ti naquela madrugada. Revestido com o seu aroma, meu amuleto. Impregnado de seu cheiro doce. Da sua boca em minha boca, da tua pele em minha pele, dos teus cabelos em meus cabelos, do teu sexo em meus dedos. Mas além da carne sobre a carne, carreguei o cheiro da tua alma...

I.B.

domingo, 14 de junho de 2009

Dia de Cão

O Sol despontava no horizonte, derramando uma luz fosca sobre o mundo, que, lentamente, começava a despertar. Os minutos se arrastavam preguiçosamente nesse princípio de dia, comprimindo a fatalidade do eterno num breve instante. Dali a pouco o mundo entraria em frenesi, todos vagando de um lado para o outro, louca e desesperadamente em busca de algo – ou alguém... Estariam procurando por si próprios, caçando uma imagem fugidia de um seu próprio reflexo que acabava de dobrar a esquina seguinte?
Nesse instante, porém, uma única alma animava as ruas desertas da cidade sonolenta. Solitária, iniciava sua peregrinação diária - sempre há de existir um novo lugar, novas paragens, onde a vida seja um pouco menos penosa... Pouca, ou nenhuma, questão fazia de não ser notada – não havia ninguém mais ali, e, mesmo que houvesse, a última coisa por que esse alguém se interessaria seria esta pobre e triste alma. Isso me faz pensar na capacidade, particular ao ser humano, de ser indiferente ao outro, ou outros.
Sem remorso revirava o lixo em busca da tradicional refeição matinal. Que tal um belo filet para iniciar o dia? Pena que não há nada para tomar; talvez a fonte já esteja funcionando, haverá água...
O frio da noite havia espantado todo mundo das ruas, sequer os roedores das sarjetas arriscavam por o focinho para fora. Seria companhia, ao menos. Bem, estarei só nessas primeiras horas. E só esteve.
A luz fraca da manhã, projetada sobre a água que vertia da fonte criava a bela imagem de um arco multicor. O nômade, avistando-o, aparentou se interessar. Aparentou apenas... Virou o rosto para o lado oposto. Levantou as narinas e começou a farejar. Havia algo ali próximo. Cheiro de pão, pão fresco, recém saído do forno. Não sei por que ainda sonho com uma bela fatia desse pão. Jamais receberia um pouco daquele muito.
Água, seria muito mais fácil conseguir. Ainda está limpa, devem ter trocado a água ontem mesmo. Pobre coitado, jamais teria imaginado que o homem de uniforme e com um taco de madeira na mão seria cruel a ponto de impedi-lo de beber da água da fonte. Não servem para isso as fontes d'água? Por que me manda embora dessa forma? Foi expulso sob chutes e golpes de taco.
Enquanto se afastava paulatinamente, o senhor guarda gritava já ao longe: "E que você nunca mais volte, seu mendigo miserável e imundo! Nunca mais venha poluir as nossas fontes com a sua sujeira, seu verme! Isso aqui não é lugar para cães rastejadores como você!"
P.M.

Sides

"Allowing you into my mind was much easier than letting you go...."

P.M.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Renascença

E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
Tinjo seu couro com o fluido que pulsara em minhas artérias
Eu quem uma vez amou aquecido por lágrimas em um sofá
Agora estou aqui em meu último suspiro
Pronto para dar lugar a um outro

E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
Sopro-lhe em seus ouvidos instruções de como preservar-me contigo
Eu quem disse coisas doces e afetuosas para um amor autêntico
Jaz aqui uma carcaça em decomposição
Não temo que reste tudo ao meu herdeiro

E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
Enquanto repousa, eu caminho por entre as tumbas de ontem
Palpitavam como se prestes a serem lacradas de seu interior
Cavarei a minha própria alcova
Amo-lhe plenamente e por isso não tenho pesares

E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio

E por isso me despeço de ti
E por isso me desfaço em teu sono
E por isso me permita o adeus à minha amada
E por isso me conceda a liberdade

E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio


I.B.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Homem só - Parte V


(...)

Entrei naquele quarto velho e manchado de tinta do teto ao chão. Lancei um olhar provocativo para a janela colorida. Abri as cortinas e admirei aquela vista como se fosse pela última vez. Estava no topo do mundo, mas era como se estivesse sepultado em uma vala, como um indigente. Apanhei o balde de tinta branca que estava ao lado da privada e principiei o que seria minha mais nova ocupação naquela madrugada, comecei a pintar a janela de branco. Antes havia ponderado pintá-la de preto para a nova função que deveria assumir a partir de finalizado o trabalho, mas branco condizia mais com a situação vigente. Eis a razão:

A cor branca é a junção de todas as cores, mas aparenta ser destituída de cor alguma. Reflete todas as frequências de raios luminosos, reagindo de tal forma a contraditoriamente estar reclusa de toda e qualquer claridade. Ela por si só é claridade, sozinha, reprime-se de tudo quanto lhe é possível, destituída de pigmentação. Basta um esguicho de areia e água, e ela está nitidamente manchada. O branco está fadado a essa condição. Está isolado e ainda assim comporta todas as cores para si, invisíveis. Associam paz à cor branca, e para mim a paz é suscetível a ser manchada, com um simples esguicho de areia e água. O conceito de paz só existe, por que há a discórdia. A cor branca é a cor das trevas. Estou certo disso!

A cor preta absorve todos os raios luminosos como se funcionasse como um aspirador ou um buraco negro. É a ausência de cores, de divergência, é um só e nenhum ao mesmo tempo. Age de tal forma a envolver tudo para si. Associo o preto ao insaciável, incansável, longe da indolência de sua irmã. Isso me lembra uma citação de uma entrevista do controverso escritor americano Henry Miller, que me deparei uma vez. Nunca li nada desse sujeito, mas isso me fez refletir especialmente sobre cores! Era o seguinte, "na realidade pouca revolta de qualquer espécie é permitida ao homem moderno. Ele já não age, ele reage. Ele é a vítima que, afinal, veio a ser apanhada na sua própria armadilha". Percebem por que escolhi branco ao invés de preto? Eu fui apanhado na minha própria armadilha!

Branco, negro. Antipatia, simpatia. Ódio, amor. Cansaço, entusiasmo. Contraditoriamente enxergamos justamente o contrário do que as cores realmente representam em seu cerne. Nos conformamos com a obviedade. Acomodados demais no nosso sofá macio infestado de ácaros, para levantarmos e mudar o canal mesmo com o controle quebrado. Cores! Cores! Foram as cores que me fizeram tanta companhia todo esse tempo, enquanto estive enclausurado nesse quarto. Enquanto ELES(!)... haviam tomado de mim tudo o que eu havia construído, as extensões do que me constituíam, a minha quietude, a paixão. Nunca mais ouvirei aquelas vozes doces a cantar. Finalizei meu trabalho, as paredes a testemunhar debilmente, tapadas em tinta, em cores. A janela estava enfim pintada. Quem em sã consciência recusaria o convite de uma janela branca? Eu não.

(.)

I.B.

(foto por Zilda Onofri)

terça-feira, 9 de junho de 2009

À Vênus


É por ser nu que és visível meu amor. De carne exposta e aroma singular. Nenhum cobertor, nenhum pano ouse cobrí-lo e sufocar-lhe os poros...

(27/03/09)

I.B.

(pintura de Alexandre Cabanel)

Homem só - Parte IV


(...)

Aquelas luzes todas, típicas de uma madrugada ensandecida nessa cidade. O colorido horrível das aglomerações urbanas, o som de buzinas indo e vindo como granadas em uma guerra, burburinhos em cada esquina que eu cortava, mulheres que pareciam carne exposta em um açougue do buraco mais decrépito de um país esquecido, e seus famintos carnívoros latindo para um céu sem estrelas. Bem-vindo à selva. A selva de pedra! Bem-vindo ao que chamam de realidade, o banquete de homens sobre homens, o canibalismo atroz. Onde as pessoas não agem. Elas só REAGEM! Não existe criação, apenas continuidade, progressão estática, reação imóvel desnaturada. Os novos ídolos desse pandemônio desumano, eram telas de plasma e fios de cobre, homens de plástico abotoados até a própria testa polida em excremento alheio! As cidades sempre me causam esse efeito misantrópico. Agora me recordo por que fiquei tanto tempo naquela lata de sardinha gigantesca. Seria medo de comungar dos mesmos anseios dessa imundície patológica? As aves que planavam pelo teto dessa cúpula em ebulição, eram locomoção para os praticantes dessa insanidade sacrílega. Me engulam se forem capazes! Não! Nenhum de vocês foi capaz de me devorar. Mas, e se eu mesmo o fiz comigo mesmo? Em minhas próprias entranhas? Ouvi gritarem um nome que há muito não escutava. A voz se lançava de trás de mim, e me atingia como uma rajada disparada em um campo de batalha. Aquele ruído ensurdecedor se dirigia a mim! Era como um tiro pelas costas, mas que audácia, que covardia! Decidi não olhar para trás, não pretendia reviver o passado. Senti uma mão pesada me segurar pelo ombro e me forçar a olhar para aquele que me abordara. Aquele rosto me parecia familiar e justamente por isso me amedrontava tanto. Estava cara a cara com algo que me remetia a tempos anteriores ao meu auto-confinamento. Era como um vírus que está inativo até encontrar um hospedeiro. Eu era seu hospedeiro! Ele iria se apropriar de minhas substâncias nutritivas, desencadearia um processo que iria exaurir minhas faculdades mentais até a última gota de consciência. Esse rosto era capaz de me afogar em um tempo que eu não mais transitava. Via seus lábios tremerem e clamarem por algo que eu não ouvia, seus olhos chafurdavam-se em lágrimas e aos poucos fui me sentindo distante daquele lugar. Meu corpo todo formigava e parecia estar se tornando etéreo. Me sentia como um balão, sem gás em seu interior, o que me erguia do chão que eu pisava era senão, vazio! Um vazio associado ao peso, pois, não era leveza que sentia naquele momento, mas um fardo incomensurável. Flutuando, deslizando, em inércia. E essa é a história de como o passado me arremessou vagarosamente rumo ao céu sem estrelas. Pude escutar uma voz macia de mulher e risadas de crianças. Uma música nostálgica que decrescia conforme a melancolia estripava minhas memórias mais doces de um lugar há muito abandonado. Logo, escutei berros e mais berros. Grito, desespero, morte! Devia voltar o quanto antes para meu apartamento, para longe desse barulho estrondoso de vozes e vozes, e buzinas, e motores, e aquela música repugnante, mas, por quanto tempo mais eu teria que flutuar sobre aquelas cabeças desvairadas? Talvez o suficiente para eu perceber que em festa de criança, palhaços estão a assombrar e balões estão a estourar.

(...)

I.B.

(quadro de William Adolphe Bouguereau)

domingo, 7 de junho de 2009

Homem só - Parte III


(...)

Era uma rua isolada, iluminada apenas por um poste que se erguia sobre uma cabine telefônica. Seu fulgor, do poste, oscilava entre as trevas e a luz. Havia uma mulher estendida bem ao lado da cabine telefônica, onde havia também uma árvore gigantesca que mergulhava em direção ao céu da madrugada, como uma arma apontada para alguém. Suas raízes estavam fincadas no asfalto e se estendiam por algumas centenas de metros, danificando as estruturas da rua. A copa era tão extensa que cobria metade da rua no escuro. Se não fosse pelo poste relutante... Já quase havia me esquecido! Estavam ali também, fazendo parte da reunião, os que ouso chamar de comensais. A mulher prostrada no chão úmido, a cabine telefônica, e é claro, o poste. Mas como poderia antever isto? Poderia ser mesmo um absurdo pensar que a própria árvore não fosse um conviva. Relegar que eu mesmo fosse o anfitrião daquele banquete de silêncio e trevas era igualmente absurdo! Imediatamente me atirei em direção à mulher, mais por curiosidade do que por qualquer outro motivo. A partir daqui, não tenho palavras suficientes para descrever a beleza do que vi, do que senti. A princípio, não sabia se estava viva ou morta, mas, uma coisa eu tinha absoluta convicção. Eu a amava profundamente! Ela e aqueles cabelos que transitavam entre matizes, conforme a luz do poste acendia e apagava. Desconfio que o próprio poste estivesse desse jeito, pois, não só a sua chama queria examiná-la, como também as trevas que constituíam suas engrenagens. Estávamos todos ali, apenas para contemplar aquela linda mulher, aquele pedaço do universo, bruto, que antevia a qualquer experiência. Eu havia encontrado o útero do todo, e do tudo, e do nada, e só havíamos nós quatro para testemunhar aquilo! Hesitei por alguns instantes em tocá-la. Fui o último a chegar e o único capaz de senti-la fisicamente. Tenho certeza de que eu estava sendo aguardado por algumas madrugadas. Inconscientemente fui convocado para essa reunião, por essa rua, para poder fazer o que nenhum poderia, senti-la em totalidade. Finalmente, despido de medo, verifiquei seu pulso. Pulsava! Vacilante, anêmico, raquítico, mas pulsava. Não tenho idéia de quanto tempo passei ali, era como se tivesse sido jogado em uma cápusla no meio do espaço sideral, imune ao próprio tempo, imune à minha percepção temporal. Ficaria ali até que ela resolvesse acordar de seu coma mordaz. E se ficasse preso naquela rua para todo o sempre? O que ela fora fazer naquela rua afinal? Por que resolvera depositar-se diante da cabine telefônica sob aquele arvoredo frondoso? Quando o outono finalmente chegou e nos cobriu de folhas, o pulso cessou de pulsar. Encarei o céu sobre mim e mirei meus olhos lacrimejantes para as nuvens, para a lua, para todos aqueles que permitiram aquilo acontecer. Até mesmo uma coruja que passava por ali, sentiu-se envergonhada com tamanho descaso. A cabine ressoou o seu tilintar. Atendi a ligação e não ouvi nenhuma voz. Era como se fosse um último suspiro que nunca chegou a ser ouvido. O poste parou de funcionar e eu me ergui daquele chão úmido e soterrado por folhas, olhei-a uma última vez e não tinha dúvida... Eu a amaria enquanto errasse ao redor do mundo. Deixei a árvore sozinha, ela teria o desgosto de ver a mulher decompor-se em sua frente. Infestada de vermes e odores horríveis. Nutrir-se-ia de seu corpo decomposto, através das raízes, do solo, seria a única capaz de senti-la em sua totalidade, que ignorância a minha pensar que eu fosse o único capaz de tocá-la. Como boa anfitriã, varreria toda a sujeira daquela finada reunião, para que o céu, o mundo, não se remoesse por toda a eternidade, não presenciasse aquele assassinato dia após dia. A árvore o guardara para si, por que ela mais do que todo mundo, também amava.

(...)

(pintura de Mark Ryden)

I.B.

sábado, 6 de junho de 2009

Homem só - Parte II


(...)

O homem de uniforme guardava a entrada do prédio. O chamavam de vigia, porteiro! Mas ele guardava algo muito mais significante do que um portão de um condomínio antigo. O homem de uniforme guardava o arco-íris dentro de um pote de vidro! Era uma missão muito importante, pois ele detinha o dom de conceber quase um milagre, quando as gotículas de chuva estão em suspensão no ar, e o Sol penetra em seus corpos fluidos. Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Essas pontes majestosas de cores e luz, não pertencem ao mundo dos homens. Você as vê claramente em florestas, perto de cachoeiras... Quanto mais submergida está a natureza nas florestas de concreto, que costumam chamar de cidades, centros urbanos e etc e tal, menor o contato dessas pontes com a realidade. O homem esqueceu-se que é tambem natureza. Se considerarmos a natureza como a desordem, e o homem como o seu paradoxo, o caos urbano é uma tentativa da natureza de corromper a ordem, corromper o homem, reclamá-lo para si novamente (a dualidade do gênero humano). E o vigia ali, segurando aquele vistoso pote de vidro. E se ele fosse meu? Teria o arco-íris inteiro só para mim! Deleitaria-me em suas cores sedosas, quase tangíveis, leves, infinitas. Para mim a ordem é um poema parnasiano, e a natureza um devaneio romântico. Prefiro o caos criativo, o impulso. Mas, quando gotículas de chuva estão suspensas no ar e a luz do Sol as atinge, necessariamente temos um arco-íris. Por que as coisas bonitas também tem fórmulas? O vigia roubou o arco-íris para si, para nunca mais vê-los como um simples arranjo de água e luz. Roubou-os para preservar sua beleza inefável. Diante dos meus olhos, eu o deixei com aquele fardo, e homem nenhum teria o direito de abarcá-lo para si. Os vigias são pagos para vigiar, o arco-íris para ser vislumbrado, e eu, para entreter o incolor cotidiano. Nunca recebi um centavo, muito menos o arco-íris!

(...)

I.B.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Homem só - Parte I


Cacos de vidro mastigam a sola dos meus pés enquanto me desloco naquele quarto escuro. A janela, colorida, me convida para adentrá-la e nunca mais pisar naquele chão, naqueles cacos banhados em vermelho vívido. Vermelho vivo. Um convite rumo aos confins do meu próprio frenesi. Momentaneamente considero o que me foi recomendado. Mas quem em sã consciência daria ouvidos à uma janela colorida? Lembro-me que ela está assim por que decorei o apartamento jogando vários baldes de tinta ao redor da casa. Nos móveis, nas paredes, na cama... Queria todas as cores para mim! Para me fazerem companhia! Decidi dar uma volta lá embaixo para clarear a cabeça. Preferi pegar as escadas (tenho medo de tudo que me lembre parede, como um elevador), pois cada degrau tem uma história para contar. Gosto de ouví-las enquanto caminho sobre eles, sobre elas. Eles conhecem todo mundo, pois todo mundo, só é alguém neste prédio, quando está na solidão das escadas. Subindo, ofegantes, subindo, descendo, ofegantes. O que é a vida senão um conjunto de decisões e ações fatigantes? Diferentemente das paredes, escadas não julgam as ações humanas. Por exemplo, uma vez fiquei sabendo que Tainá tinha problemas no joelho, a forma de uma pessoa andar diz muito sobre ela. Os pés sustentam todo o nosso corpo! A forma com que deslizamos pela superfície, ora graciosa, ora desajeitada, nos é inalienável. E quem não tem pés? Tainá sempre tem algo a esconder, seus segredos pressionaram tanto seus joelhos... Sua obscuridade desgastou suas articulações. Ela não é quem aparenta ser. Tenho medo de passar em frente ao apartamento 101! Seu espírito é pesado. Ouço risadas lá dentro. Risadas sinceras. Risadas de Tainá! Ela ri demais, por isso anda mancando. Como alguém pode se sentir confortável entre paredes? As paredes tem acesso aos frutos do que se passa em nossas cabeças, o pensamento refletido em ação, expressão, e o chuveiro pode tocar a semente, o âmago da ação, da expressão, através das gotas d'água, penetram em nossa inteligência, pelos poros, pelos olhos, ouvidos, nariz, cabelo, mãos, torso, até mesmo pelas unhas dos pés. Afinal, é a cabeça que sustenta o espírito, ou o espírito que sustenta a cabeça? De qualquer forma, os pés sempre estão lá, e se não estiverem... Você não pode subir escadas!

(...)

I.B.