Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people
Na maioria das vezes que o silêncio acometia aquele carro vermelho na noite fria e monótona, prosseguíamos com o nosso diálogo. Apesar de que ás vezes palavras não fossem pronunciadas, era através da voz de uma "metamorfose ambulante" ou de um "besouro" de Liverpool que adentrávamos em uma conversa inacabável que de vez em quando se exprimia em euforia. O grito do claustro.
Eleanor rigby picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window, wearing the face that she keeps in a jar by the door
Who is it for?
Certa vez, visitamos um poço abastecido por uma queda d'água nas entranhas de uma serra. Era azul. Intrasponivelmente azul e frio, e frio. Dava minhas goladas tímidas do meu vinho vagabundo acompanhado por uma alma no mínimo interessante. Não sabia ela que cada golada três vezes maior do que a dela que eu tragava, era uma necessidade da minha alma. Aquela manhã quente acabou em uma refeição tão quente quanto. "Ai, ai, ai, ai, ai, muchacho!"
All the lonely people
Where do they all come from ?
All the lonely people
Where do they all belong ?
Eu senti uma certa ironia quando as "abóboras amassadas" nos disse que aquele era o melhor dia que eles já viveram. Ainda que fosse apenas a véspera do domingo, ele já se atirava apressadamente sobre nós. E a lua também sorria sarcasticamente, quase podia-se ver seus dentes cerrados. E sentados ao lado do carro vermelho, nos perguntávamos de onde vinham e pertenciam as pessoas solitárias. Minha sede crescia a cada momento. Sede de viver? Eu sei que eu bebia.
Father mckenzie writing the words of a sermon that no one will hear
No one comes near
Look at him working. Darning his socks in the night when there's nobody there
What does he care?
Em meio à multidão, aos baques ensurdecedores de uma trupe desesperada e hilariante que serpenteavam pelos nossos ouvidos, heis que me choco com a improbabilidade. Ficamos o restante do espetáculo ao lado da improbabilidade. Ela vinha de longe, vinha da terra dos mandacarus e me lembrava de que por mais que eu tente, não estarei só. Dividimos um momento mágico que era compartilhado em sorrisos. Nossa euforia foi representada sobre um palco, por indivíduos desconhecidos, em um lugar desconhecido. Um rapaz que dançava beirando um ataque epiléptico, seguido por sujeitos igualmente contagiados por uma única coisa: o grito. "Prazer em conhecer você."
All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?
Quando os "caranguejos de Recife" iniciaram seu manifesto sonoro, me desvencilhei por uns instantes daquelas paredes orgânicas. Despejei meus fluidos em uma privada imunda e por alguma razão, fiquei cansado. Queria dizer algo muito importante a alguém naquele momento, precisava dividir o lapso trêmulo de lembranças ainda vívidas em minha alma. Não tive coragem o suficiente. Pela primeira vez eu reprimi o que havia na beira da garganta e talvez por isso perdi a voz. Fiquei mudo. Adentrei naquela maré contidamente celebrante e regressei aos meus camaradas. Dancei feito um louco e gritei através da carne. A alma vinha curiosa até as beiradas tentar entender o que acontecia, mas permaneceu em silêncio. "Transcendendo a carne. Poderia ser uma brisa a me mandar para a lua."
Eleanor rigby died in the church and was buried along with her name
Nobody came
Father mckenzie wiping the dirt from his hands as he walks from the grave
No one was saved
Era frio. Nog cambaleava sobre aquela calçada, às quatro da manhã. Ninguém mais apareceu...
("...")
I.B. & P.M. (nas entrelinhas)
Um Espaço Imaginário onde a Voz dos Loucos soa mais Forte... Um Espaço onde Ariel e Caliban estarão eternamente a digladiar...
domingo, 26 de julho de 2009
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Diário de bordo II (Flittchen)

Meat! No more than meat, like cattle in the green fields moving straight to death by consummation. They laid on the table waiting for us men to lay our starving hands upon them and fill our mouths with their bodies. Meat! No more than meat!
Remember when you were young, you shone like the sun
Shine on you crazy diamond
Now there's a look in your eyes, like black holes in the sky
Shine on you crazy diamond
You were caught in the cross-fire of childhood and
stardom, blown on the steel breeze
Come on you target for far away laughter, come on you
stranger, you legend, you martyr, and shine!
Round and fat hamburgers they were. It's funny how that misshapen piece of meat reminded me of a once living being screaming to the skies "Moow". Disgracefully, no man is meant to afford such an amount of morbid flesh for his own. And then, Interest and Will detached from each other.
Shine on you crazy diamond
Now there's a look in your eyes, like black holes in the sky
Shine on you crazy diamond
You were caught in the cross-fire of childhood and
stardom, blown on the steel breeze
Come on you target for far away laughter, come on you
stranger, you legend, you martyr, and shine!
Round and fat hamburgers they were. It's funny how that misshapen piece of meat reminded me of a once living being screaming to the skies "Moow". Disgracefully, no man is meant to afford such an amount of morbid flesh for his own. And then, Interest and Will detached from each other.
You reached for the secret too soon,
you cried cried for the moon
Shine on you crazy diamond
Threatened by shadows at night, and exposed to the light
Shine on you crazy diamond
Well you wore out your welcome with random precision
Rode on the steel breeze
Come on you raver, you seer of visions, come on you
painter, you piper, you prisoner, and shine!
Although there was Interest (the feeling of wanting to give your attention to something or of wanting to be involved with and to discover more about something) towards the consummation of the meat, there was no Will (the mental power used to control and direct your thoughts and actions, or determination to do something despite any difficulties or opposition). Nonetheless, they were dying in starvation.
Nobody knows where you are, how near or how far
Shine on you crazy diamond
Pile on more layers and I'll be joining you there
Shine on you crazy diamond
For that reason, a mere piece of rotten flesh, in that single point in time, maybe for the first time ever, was more alive than ourselves - beautiful and great living beings.
And we'll bask in the shadow of yesterday's triumph
and sail on the steel breeze
Come on you boy-child, you winner and loser,
Come on you miner for truth and delusion, and shine!
"Moooooww!!!", Nog cried out....
P.I.M.B.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Diário de bordo I (Baby Back Ribs)
Por alguns minutos, um estacionamento escuro e frio se tornou um grande anfiteatro onde um personagem invisível destacava-se de duas mentes um tanto avariadas e atirava-se no ar, deixando seu corpo cair no chão com um ruído abafado. Levantando, percebia, desde já em desespero, que talvez tivesse perdido algo muito importante naquela queda. Procurava nos seus bolsos, em vão... Não, não estava mais ali. Talvez nunca houvesse estado, agora já não tinha tanta certeza... O mundo perdido de Nog. E, por Nog, as duas mentes avariadas agonizavam, imersas em um desespero sem tamanho. Tornaram-se elas mesmas invisíveis e imateriais, tornaram-se elas mesmas...
Quanto tempo temos antes de voltarem
Aquelas ondas
Que vieram como gotas em silêncio
Tão furioso
Ela chegou. Uma aparição, uma imagem, um perfume que impregnou todo o ambiente, preenchendo-o com uma não-matéria de peso incrível, e um sorriso singularmente banal. À primeira vista não me surpreendi com suas palavras regurgitadas e sem densidade, mas aos poucos pude perceber em sua voracidade auto-afirmativa algo que só se podia notar pelas entrelinhas, só não tinha tato para perceber naquele momento, viria a descobrir depois, sentado em uma cadeira de metal gelada, numa cobertura gelada, de um bairro nobre e gelado, olhando para as luzes simétricas de uma cidade gelada antecipadamente projetada. Percebi a beleza da espontaneidade viceral.
Derrubando homens entre outros animais
Devastando a sede desses matagais
Devorando árvores, pensamentos
E era linda. Futilmente graciosa. Estávamos no carro naquela noite fria ouvindo algum disco do Zé Ramalho e eu não havia percebido as entre notas daquela menina que tentava ser mulher, até então.
Seguindo a linha
Do que foi escrito pelo mesmo lábio
Tão furioso
E se teu amigo vento não te procurar
É porque multidões ele foi arrastar
Quatro da manhã, deitados naqueles lençóis acolhedores, nos perguntávamos qual o sentido do amor e confessávamos, em voz baixa, que seríamos eternos amantes. Enquanto isso, Nog...
P.M.I.B.
Quanto tempo temos antes de voltarem
Aquelas ondas
Que vieram como gotas em silêncio
Tão furioso
Ela chegou. Uma aparição, uma imagem, um perfume que impregnou todo o ambiente, preenchendo-o com uma não-matéria de peso incrível, e um sorriso singularmente banal. À primeira vista não me surpreendi com suas palavras regurgitadas e sem densidade, mas aos poucos pude perceber em sua voracidade auto-afirmativa algo que só se podia notar pelas entrelinhas, só não tinha tato para perceber naquele momento, viria a descobrir depois, sentado em uma cadeira de metal gelada, numa cobertura gelada, de um bairro nobre e gelado, olhando para as luzes simétricas de uma cidade gelada antecipadamente projetada. Percebi a beleza da espontaneidade viceral.
Derrubando homens entre outros animais
Devastando a sede desses matagais
Devorando árvores, pensamentos
E era linda. Futilmente graciosa. Estávamos no carro naquela noite fria ouvindo algum disco do Zé Ramalho e eu não havia percebido as entre notas daquela menina que tentava ser mulher, até então.
Seguindo a linha
Do que foi escrito pelo mesmo lábio
Tão furioso
E se teu amigo vento não te procurar
É porque multidões ele foi arrastar
Quatro da manhã, deitados naqueles lençóis acolhedores, nos perguntávamos qual o sentido do amor e confessávamos, em voz baixa, que seríamos eternos amantes. Enquanto isso, Nog...
P.M.I.B.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Acordando
Olhei da janela e percebi que o mundo era tão grande... Quantas pessoas estão a andar naquela feira. Não tenho o direito de me privar do mundo. Liguei o meu elo com o mundo novamente. Bastou um clique. O mundo é meu, o mundo sou eu.
A semente
A semente
Desaprendendo (vômito não cativante de palavras)

Se você se entrega inteiramente, entrega o que há de mais belo e sincero em você e não resta dúvidas disso, estará despido em uma noite fria à mercê do que farão com sua carcaça florescente. A ausência de dúvida confunde o indivíduo, ele se habitua com aquilo e quando menos percebe... Pluft! Não há mais nada. Tudo isso por que as pessoas não sabem amar, ou tem medo de amar, ou simplesmente não amam. Tapar buracos existenciais seria mais uma necessidade do que amor sincero. Existem uns que acreditam que amor é necessidade. Esses não sabem amar. Só as crianças sabem o que é amor, por que ainda não se queimaram com ele. Quando ele vem uma vez e lhe é tragado furiosamente, corremos um sério risco de desaprender o que seria isso. Eu soube. Pena que não sou mais uma criança.
O Lírio em pedaços
terça-feira, 14 de julho de 2009
A carta
Certa vez uma carta do futuro depositou-se em meu colo. Sem relutância comecei a ler aquele documento. Desde esse dia nunca mais vivi o presente. Estava perdido em um lugar que jamais existiu... aprisionado no devir.
(...)
I.B.
(...)
I.B.
... SANGUE.
O que escrevo agora, nesse momento, não são palavras, são lágrimas. E para acompanhar esse estridente guincho que escapa da minha caneta esferográfica, chove do lado de fora. Estou sentado em uma cadeira de madeira maciça, na varanda de uma casa de ares idílicos no meio dos campos esverdeados de uma província distante. Posso sentir a umidade e o cheiro bruto e cru da natureza. Ouço os pássaros, tão magníficos quando em sintonia com sua morada natural. Decidi vir a esse lugar para justamente pôr um fim à minha vida miserável. Peguei-a emprestada de um amigo meu, ás vezes me arrependo de profanar esse lugar tão puro e acolhedor com o meu sangue. Mas, o que está em jogo é a minha própria carcaça também. Pois bem, será aqui mesmo. Estou pensando nisso há uma semana e fico aliviado por finalmente ter decidido. Descobri que amo demais a vida e justamente por isso me é impossível viver nessas condições. Sem mais delongas... O que escrevo agora é tingido com o meu sangue.
20/06/09
(...)
E pensar que estava tão ansioso... Não houve resposta ao meu chamado naquela madrugada, só silêncio, silêncio agourento. Uma carapuça estava em minhas mãos. Eu sou o meu próprio algoz. Mas dessa vez nenhuma ordem haverá de ser seguida. O silêncio foi cortado pelo brandir do aço, varou a carne, o couro, o concreto gelado. Varreu a vida que gorgolejava em jatadas de sangue. Sangue escuro, denso. "O sangue nunca mente". Percebi tarde demais que não foram minhas mãos que empunharam aquela lâmina enferrujada. Atrasado para o meu próprio suicídio, eu chorei uma última vez. Roubaram de mim até a última gota de...
(...)
I.B.
20/06/09
(...)
E pensar que estava tão ansioso... Não houve resposta ao meu chamado naquela madrugada, só silêncio, silêncio agourento. Uma carapuça estava em minhas mãos. Eu sou o meu próprio algoz. Mas dessa vez nenhuma ordem haverá de ser seguida. O silêncio foi cortado pelo brandir do aço, varou a carne, o couro, o concreto gelado. Varreu a vida que gorgolejava em jatadas de sangue. Sangue escuro, denso. "O sangue nunca mente". Percebi tarde demais que não foram minhas mãos que empunharam aquela lâmina enferrujada. Atrasado para o meu próprio suicídio, eu chorei uma última vez. Roubaram de mim até a última gota de...
(...)
I.B.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
sexta-feira, 19 de junho de 2009
Celular
-O que vai querer garota?
-Me dá esse celular que tira fotos com comando de voz e tem internet embutida, dá para ver vídeos, bluetooth, esguicha água nos outros, do menor tamanho possível, que muda de cor no escuro, que reproduz mensagens programadas, que diz oi para mulheres loiras e tem cheiro de mangue. Ah, e que atira aqueles laserzinhos engraçadinhos que dizem que apaga poste!
-Pra que serve um celular mesmo?
-Hã?
-Desculpe, o dinheiro é seu. Não pretendia me intrometer.
-Não entendi a sua pergunta anterior.
E os celulares continuam se reproduzindo como coelhos, e estará nas mãos daqueles que os obtiver, tempo o suficiente para que se finalize o ato coital entre dois preás. A tecnologia é o coelho moderno.
E você... já comprou o seu remédio? Cogitou alguma vez que você é um indivíduo hipocondríaco? Será que o esquizofrênico tem consciência de que é enfermo sem ao menos ser avaliado? Deixe-me levá-lo para a clínica. Prometo meus caros... Eu não vou lhes machucar.
-O que vai querer garota?
-Cenouras.
I.B. & Nog (nas entrelinhas)
-Me dá esse celular que tira fotos com comando de voz e tem internet embutida, dá para ver vídeos, bluetooth, esguicha água nos outros, do menor tamanho possível, que muda de cor no escuro, que reproduz mensagens programadas, que diz oi para mulheres loiras e tem cheiro de mangue. Ah, e que atira aqueles laserzinhos engraçadinhos que dizem que apaga poste!
-Pra que serve um celular mesmo?
-Hã?
-Desculpe, o dinheiro é seu. Não pretendia me intrometer.
-Não entendi a sua pergunta anterior.
E os celulares continuam se reproduzindo como coelhos, e estará nas mãos daqueles que os obtiver, tempo o suficiente para que se finalize o ato coital entre dois preás. A tecnologia é o coelho moderno.
E você... já comprou o seu remédio? Cogitou alguma vez que você é um indivíduo hipocondríaco? Será que o esquizofrênico tem consciência de que é enfermo sem ao menos ser avaliado? Deixe-me levá-lo para a clínica. Prometo meus caros... Eu não vou lhes machucar.
-O que vai querer garota?
-Cenouras.
I.B. & Nog (nas entrelinhas)
Humana
A moça entrou pela porta da frente da lanchonete. Olhou de soslaio para um lindo bebê que estava atracado à sua mãe em uma das mesas, e se manteve ali vislumbrada com a cena tão afetuosa. A criança apertava sua cabeça incisivamente no peito confortável da sua mãe, enquanto ela comia um saboroso hambúrguer de beira de estrada. A moça voltara a si mesma depois daquele surto repentino, embora tenaz. Estava faminta, pois dirigia sua moto milhas e milhas sem descanso. Agora que voltara à plena consciência, subiu em uma das mesas para que todos a vissem.
-Bom-dia! Antecedo-lhes minhas desculpas.
-Por que moça?- falou um senhor de barba mal-feita.
-Pois, assim como vocês, sou humana!
I.B.
-Bom-dia! Antecedo-lhes minhas desculpas.
-Por que moça?- falou um senhor de barba mal-feita.
-Pois, assim como vocês, sou humana!
I.B.
Adeus
Exigiu-lhe a bênção, exigiu-lhe o seu calor, exigiu-lhe um pedaço de sua existência. Apenas para abarcar os seus vazios, tapar os seus buracos com lava. Lava que desidrata quando se esvai a quentura, e permanece ali para os refugiados de Pompéia estarem sempre a se remoer pela perda. Um pedaço de si que nunca mais voltará, pois terá renunciado um mundo inteiro dentro de uma partícula subatômica. Amputado, mas não fisicamente. Por que lhe foi exigido um bocado de seu núcleo em pedaços.
I.B.
I.B.
O Réu
...Calou-se e consentiu com a sentença. O réu olhou-a fixamente nos olhos contritos. Não pronunciou uma palavra sequer. Ele a condenara eternamente por aquela omissão aviltante. Desconcertado, estendeu as mãos ao juiz.
-Prenda-me! Não há mais nada a se averiguar nesse recinto. Me acuso culpado pelos meus pecados. Sou responsável pela minha humanidade!
Fim da sessão. O júri se desfez como formigas num banquete fresco e suculento. Alimentariam os fungos de sua toca, de sua sociedade hierárquica. O réu fora sentenciado: pena máxima.
-A justiça é criação do homem, por isso inexiste. Inexiste pois somos naturalmente injustos.
I.B.
-Prenda-me! Não há mais nada a se averiguar nesse recinto. Me acuso culpado pelos meus pecados. Sou responsável pela minha humanidade!
Fim da sessão. O júri se desfez como formigas num banquete fresco e suculento. Alimentariam os fungos de sua toca, de sua sociedade hierárquica. O réu fora sentenciado: pena máxima.
-A justiça é criação do homem, por isso inexiste. Inexiste pois somos naturalmente injustos.
I.B.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Vasos e flores
E hei de florescer no âmago de tua solidão
Brotando dos cantos mais improváveis de trevas e luz
E hei de brotar nas profundezas de um devaneio seu
Ou até mesmo nas beiradas de um só riso
E hei de me nutrir do teu solo em suspensão
Pois tua lamúria és também meu fardo
E hei de depositar em teu ventre uma semente
Para que tua casca pulse como teu coração fluido
E hei de partir junto à minha carapaça volúvel
Mas não sem ao menos ter sido amado uma única vez
E meus restos jazem nesta piscina solitária
Embora a minha essência transmutada em impressões
Nunca venha a deixar-lhe por completo
Por que eu também te amei
I.B.
Brotando dos cantos mais improváveis de trevas e luz
E hei de brotar nas profundezas de um devaneio seu
Ou até mesmo nas beiradas de um só riso
E hei de me nutrir do teu solo em suspensão
Pois tua lamúria és também meu fardo
E hei de depositar em teu ventre uma semente
Para que tua casca pulse como teu coração fluido
E hei de partir junto à minha carapaça volúvel
Mas não sem ao menos ter sido amado uma única vez
E meus restos jazem nesta piscina solitária
Embora a minha essência transmutada em impressões
Nunca venha a deixar-lhe por completo
Por que eu também te amei
I.B.
... na minha alma.

... E assim me despedi de ti naquela madrugada. Revestido com o seu aroma, meu amuleto. Impregnado de seu cheiro doce. Da sua boca em minha boca, da tua pele em minha pele, dos teus cabelos em meus cabelos, do teu sexo em meus dedos. Mas além da carne sobre a carne, carreguei o cheiro da tua alma...
I.B.
domingo, 14 de junho de 2009
Dia de Cão
O Sol despontava no horizonte, derramando uma luz fosca sobre o mundo, que, lentamente, começava a despertar. Os minutos se arrastavam preguiçosamente nesse princípio de dia, comprimindo a fatalidade do eterno num breve instante. Dali a pouco o mundo entraria em frenesi, todos vagando de um lado para o outro, louca e desesperadamente em busca de algo – ou alguém... Estariam procurando por si próprios, caçando uma imagem fugidia de um seu próprio reflexo que acabava de dobrar a esquina seguinte?
Nesse instante, porém, uma única alma animava as ruas desertas da cidade sonolenta. Solitária, iniciava sua peregrinação diária - sempre há de existir um novo lugar, novas paragens, onde a vida seja um pouco menos penosa... Pouca, ou nenhuma, questão fazia de não ser notada – não havia ninguém mais ali, e, mesmo que houvesse, a última coisa por que esse alguém se interessaria seria esta pobre e triste alma. Isso me faz pensar na capacidade, particular ao ser humano, de ser indiferente ao outro, ou outros.
Sem remorso revirava o lixo em busca da tradicional refeição matinal. Que tal um belo filet para iniciar o dia? Pena que não há nada para tomar; talvez a fonte já esteja funcionando, haverá água...
O frio da noite havia espantado todo mundo das ruas, sequer os roedores das sarjetas arriscavam por o focinho para fora. Seria companhia, ao menos. Bem, estarei só nessas primeiras horas. E só esteve.
A luz fraca da manhã, projetada sobre a água que vertia da fonte criava a bela imagem de um arco multicor. O nômade, avistando-o, aparentou se interessar. Aparentou apenas... Virou o rosto para o lado oposto. Levantou as narinas e começou a farejar. Havia algo ali próximo. Cheiro de pão, pão fresco, recém saído do forno. Não sei por que ainda sonho com uma bela fatia desse pão. Jamais receberia um pouco daquele muito.
Água, seria muito mais fácil conseguir. Ainda está limpa, devem ter trocado a água ontem mesmo. Pobre coitado, jamais teria imaginado que o homem de uniforme e com um taco de madeira na mão seria cruel a ponto de impedi-lo de beber da água da fonte. Não servem para isso as fontes d'água? Por que me manda embora dessa forma? Foi expulso sob chutes e golpes de taco.
Enquanto se afastava paulatinamente, o senhor guarda gritava já ao longe: "E que você nunca mais volte, seu mendigo miserável e imundo! Nunca mais venha poluir as nossas fontes com a sua sujeira, seu verme! Isso aqui não é lugar para cães rastejadores como você!"
P.M.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Renascença
E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
Tinjo seu couro com o fluido que pulsara em minhas artérias
Eu quem uma vez amou aquecido por lágrimas em um sofá
Agora estou aqui em meu último suspiro
Pronto para dar lugar a um outro
E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
Sopro-lhe em seus ouvidos instruções de como preservar-me contigo
Eu quem disse coisas doces e afetuosas para um amor autêntico
Jaz aqui uma carcaça em decomposição
Não temo que reste tudo ao meu herdeiro
E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
Enquanto repousa, eu caminho por entre as tumbas de ontem
Palpitavam como se prestes a serem lacradas de seu interior
Cavarei a minha própria alcova
Amo-lhe plenamente e por isso não tenho pesares
E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
E por isso me despeço de ti
E por isso me desfaço em teu sono
E por isso me permita o adeus à minha amada
E por isso me conceda a liberdade
E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
I.B.
Tinjo seu couro com o fluido que pulsara em minhas artérias
Eu quem uma vez amou aquecido por lágrimas em um sofá
Agora estou aqui em meu último suspiro
Pronto para dar lugar a um outro
E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
Sopro-lhe em seus ouvidos instruções de como preservar-me contigo
Eu quem disse coisas doces e afetuosas para um amor autêntico
Jaz aqui uma carcaça em decomposição
Não temo que reste tudo ao meu herdeiro
E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
Enquanto repousa, eu caminho por entre as tumbas de ontem
Palpitavam como se prestes a serem lacradas de seu interior
Cavarei a minha própria alcova
Amo-lhe plenamente e por isso não tenho pesares
E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
E por isso me despeço de ti
E por isso me desfaço em teu sono
E por isso me permita o adeus à minha amada
E por isso me conceda a liberdade
E sobre sua carne inscrevo esse epitáfio
I.B.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Homem só - Parte V

(...)
Entrei naquele quarto velho e manchado de tinta do teto ao chão. Lancei um olhar provocativo para a janela colorida. Abri as cortinas e admirei aquela vista como se fosse pela última vez. Estava no topo do mundo, mas era como se estivesse sepultado em uma vala, como um indigente. Apanhei o balde de tinta branca que estava ao lado da privada e principiei o que seria minha mais nova ocupação naquela madrugada, comecei a pintar a janela de branco. Antes havia ponderado pintá-la de preto para a nova função que deveria assumir a partir de finalizado o trabalho, mas branco condizia mais com a situação vigente. Eis a razão:
A cor branca é a junção de todas as cores, mas aparenta ser destituída de cor alguma. Reflete todas as frequências de raios luminosos, reagindo de tal forma a contraditoriamente estar reclusa de toda e qualquer claridade. Ela por si só é claridade, sozinha, reprime-se de tudo quanto lhe é possível, destituída de pigmentação. Basta um esguicho de areia e água, e ela está nitidamente manchada. O branco está fadado a essa condição. Está isolado e ainda assim comporta todas as cores para si, invisíveis. Associam paz à cor branca, e para mim a paz é suscetível a ser manchada, com um simples esguicho de areia e água. O conceito de paz só existe, por que há a discórdia. A cor branca é a cor das trevas. Estou certo disso!
A cor preta absorve todos os raios luminosos como se funcionasse como um aspirador ou um buraco negro. É a ausência de cores, de divergência, é um só e nenhum ao mesmo tempo. Age de tal forma a envolver tudo para si. Associo o preto ao insaciável, incansável, longe da indolência de sua irmã. Isso me lembra uma citação de uma entrevista do controverso escritor americano Henry Miller, que me deparei uma vez. Nunca li nada desse sujeito, mas isso me fez refletir especialmente sobre cores! Era o seguinte, "na realidade pouca revolta de qualquer espécie é permitida ao homem moderno. Ele já não age, ele reage. Ele é a vítima que, afinal, veio a ser apanhada na sua própria armadilha". Percebem por que escolhi branco ao invés de preto? Eu fui apanhado na minha própria armadilha!
Branco, negro. Antipatia, simpatia. Ódio, amor. Cansaço, entusiasmo. Contraditoriamente enxergamos justamente o contrário do que as cores realmente representam em seu cerne. Nos conformamos com a obviedade. Acomodados demais no nosso sofá macio infestado de ácaros, para levantarmos e mudar o canal mesmo com o controle quebrado. Cores! Cores! Foram as cores que me fizeram tanta companhia todo esse tempo, enquanto estive enclausurado nesse quarto. Enquanto ELES(!)... haviam tomado de mim tudo o que eu havia construído, as extensões do que me constituíam, a minha quietude, a paixão. Nunca mais ouvirei aquelas vozes doces a cantar. Finalizei meu trabalho, as paredes a testemunhar debilmente, tapadas em tinta, em cores. A janela estava enfim pintada. Quem em sã consciência recusaria o convite de uma janela branca? Eu não.
(.)
I.B.
(foto por Zilda Onofri)
terça-feira, 9 de junho de 2009
À Vênus
Homem só - Parte IV
_-_Dante_And_Virgil_In_Hell_(1850).jpg)
(...)
Aquelas luzes todas, típicas de uma madrugada ensandecida nessa cidade. O colorido horrível das aglomerações urbanas, o som de buzinas indo e vindo como granadas em uma guerra, burburinhos em cada esquina que eu cortava, mulheres que pareciam carne exposta em um açougue do buraco mais decrépito de um país esquecido, e seus famintos carnívoros latindo para um céu sem estrelas. Bem-vindo à selva. A selva de pedra! Bem-vindo ao que chamam de realidade, o banquete de homens sobre homens, o canibalismo atroz. Onde as pessoas não agem. Elas só REAGEM! Não existe criação, apenas continuidade, progressão estática, reação imóvel desnaturada. Os novos ídolos desse pandemônio desumano, eram telas de plasma e fios de cobre, homens de plástico abotoados até a própria testa polida em excremento alheio! As cidades sempre me causam esse efeito misantrópico. Agora me recordo por que fiquei tanto tempo naquela lata de sardinha gigantesca. Seria medo de comungar dos mesmos anseios dessa imundície patológica? As aves que planavam pelo teto dessa cúpula em ebulição, eram locomoção para os praticantes dessa insanidade sacrílega. Me engulam se forem capazes! Não! Nenhum de vocês foi capaz de me devorar. Mas, e se eu mesmo o fiz comigo mesmo? Em minhas próprias entranhas? Ouvi gritarem um nome que há muito não escutava. A voz se lançava de trás de mim, e me atingia como uma rajada disparada em um campo de batalha. Aquele ruído ensurdecedor se dirigia a mim! Era como um tiro pelas costas, mas que audácia, que covardia! Decidi não olhar para trás, não pretendia reviver o passado. Senti uma mão pesada me segurar pelo ombro e me forçar a olhar para aquele que me abordara. Aquele rosto me parecia familiar e justamente por isso me amedrontava tanto. Estava cara a cara com algo que me remetia a tempos anteriores ao meu auto-confinamento. Era como um vírus que está inativo até encontrar um hospedeiro. Eu era seu hospedeiro! Ele iria se apropriar de minhas substâncias nutritivas, desencadearia um processo que iria exaurir minhas faculdades mentais até a última gota de consciência. Esse rosto era capaz de me afogar em um tempo que eu não mais transitava. Via seus lábios tremerem e clamarem por algo que eu não ouvia, seus olhos chafurdavam-se em lágrimas e aos poucos fui me sentindo distante daquele lugar. Meu corpo todo formigava e parecia estar se tornando etéreo. Me sentia como um balão, sem gás em seu interior, o que me erguia do chão que eu pisava era senão, vazio! Um vazio associado ao peso, pois, não era leveza que sentia naquele momento, mas um fardo incomensurável. Flutuando, deslizando, em inércia. E essa é a história de como o passado me arremessou vagarosamente rumo ao céu sem estrelas. Pude escutar uma voz macia de mulher e risadas de crianças. Uma música nostálgica que decrescia conforme a melancolia estripava minhas memórias mais doces de um lugar há muito abandonado. Logo, escutei berros e mais berros. Grito, desespero, morte! Devia voltar o quanto antes para meu apartamento, para longe desse barulho estrondoso de vozes e vozes, e buzinas, e motores, e aquela música repugnante, mas, por quanto tempo mais eu teria que flutuar sobre aquelas cabeças desvairadas? Talvez o suficiente para eu perceber que em festa de criança, palhaços estão a assombrar e balões estão a estourar.
(...)
I.B.
(quadro de William Adolphe Bouguereau)
domingo, 7 de junho de 2009
Homem só - Parte III

(...)
Era uma rua isolada, iluminada apenas por um poste que se erguia sobre uma cabine telefônica. Seu fulgor, do poste, oscilava entre as trevas e a luz. Havia uma mulher estendida bem ao lado da cabine telefônica, onde havia também uma árvore gigantesca que mergulhava em direção ao céu da madrugada, como uma arma apontada para alguém. Suas raízes estavam fincadas no asfalto e se estendiam por algumas centenas de metros, danificando as estruturas da rua. A copa era tão extensa que cobria metade da rua no escuro. Se não fosse pelo poste relutante... Já quase havia me esquecido! Estavam ali também, fazendo parte da reunião, os que ouso chamar de comensais. A mulher prostrada no chão úmido, a cabine telefônica, e é claro, o poste. Mas como poderia antever isto? Poderia ser mesmo um absurdo pensar que a própria árvore não fosse um conviva. Relegar que eu mesmo fosse o anfitrião daquele banquete de silêncio e trevas era igualmente absurdo! Imediatamente me atirei em direção à mulher, mais por curiosidade do que por qualquer outro motivo. A partir daqui, não tenho palavras suficientes para descrever a beleza do que vi, do que senti. A princípio, não sabia se estava viva ou morta, mas, uma coisa eu tinha absoluta convicção. Eu a amava profundamente! Ela e aqueles cabelos que transitavam entre matizes, conforme a luz do poste acendia e apagava. Desconfio que o próprio poste estivesse desse jeito, pois, não só a sua chama queria examiná-la, como também as trevas que constituíam suas engrenagens. Estávamos todos ali, apenas para contemplar aquela linda mulher, aquele pedaço do universo, bruto, que antevia a qualquer experiência. Eu havia encontrado o útero do todo, e do tudo, e do nada, e só havíamos nós quatro para testemunhar aquilo! Hesitei por alguns instantes em tocá-la. Fui o último a chegar e o único capaz de senti-la fisicamente. Tenho certeza de que eu estava sendo aguardado por algumas madrugadas. Inconscientemente fui convocado para essa reunião, por essa rua, para poder fazer o que nenhum poderia, senti-la em totalidade. Finalmente, despido de medo, verifiquei seu pulso. Pulsava! Vacilante, anêmico, raquítico, mas pulsava. Não tenho idéia de quanto tempo passei ali, era como se tivesse sido jogado em uma cápusla no meio do espaço sideral, imune ao próprio tempo, imune à minha percepção temporal. Ficaria ali até que ela resolvesse acordar de seu coma mordaz. E se ficasse preso naquela rua para todo o sempre? O que ela fora fazer naquela rua afinal? Por que resolvera depositar-se diante da cabine telefônica sob aquele arvoredo frondoso? Quando o outono finalmente chegou e nos cobriu de folhas, o pulso cessou de pulsar. Encarei o céu sobre mim e mirei meus olhos lacrimejantes para as nuvens, para a lua, para todos aqueles que permitiram aquilo acontecer. Até mesmo uma coruja que passava por ali, sentiu-se envergonhada com tamanho descaso. A cabine ressoou o seu tilintar. Atendi a ligação e não ouvi nenhuma voz. Era como se fosse um último suspiro que nunca chegou a ser ouvido. O poste parou de funcionar e eu me ergui daquele chão úmido e soterrado por folhas, olhei-a uma última vez e não tinha dúvida... Eu a amaria enquanto errasse ao redor do mundo. Deixei a árvore sozinha, ela teria o desgosto de ver a mulher decompor-se em sua frente. Infestada de vermes e odores horríveis. Nutrir-se-ia de seu corpo decomposto, através das raízes, do solo, seria a única capaz de senti-la em sua totalidade, que ignorância a minha pensar que eu fosse o único capaz de tocá-la. Como boa anfitriã, varreria toda a sujeira daquela finada reunião, para que o céu, o mundo, não se remoesse por toda a eternidade, não presenciasse aquele assassinato dia após dia. A árvore o guardara para si, por que ela mais do que todo mundo, também amava.
(...)
(pintura de Mark Ryden)
I.B.
sábado, 6 de junho de 2009
Homem só - Parte II

(...)
O homem de uniforme guardava a entrada do prédio. O chamavam de vigia, porteiro! Mas ele guardava algo muito mais significante do que um portão de um condomínio antigo. O homem de uniforme guardava o arco-íris dentro de um pote de vidro! Era uma missão muito importante, pois ele detinha o dom de conceber quase um milagre, quando as gotículas de chuva estão em suspensão no ar, e o Sol penetra em seus corpos fluidos. Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Essas pontes majestosas de cores e luz, não pertencem ao mundo dos homens. Você as vê claramente em florestas, perto de cachoeiras... Quanto mais submergida está a natureza nas florestas de concreto, que costumam chamar de cidades, centros urbanos e etc e tal, menor o contato dessas pontes com a realidade. O homem esqueceu-se que é tambem natureza. Se considerarmos a natureza como a desordem, e o homem como o seu paradoxo, o caos urbano é uma tentativa da natureza de corromper a ordem, corromper o homem, reclamá-lo para si novamente (a dualidade do gênero humano). E o vigia ali, segurando aquele vistoso pote de vidro. E se ele fosse meu? Teria o arco-íris inteiro só para mim! Deleitaria-me em suas cores sedosas, quase tangíveis, leves, infinitas. Para mim a ordem é um poema parnasiano, e a natureza um devaneio romântico. Prefiro o caos criativo, o impulso. Mas, quando gotículas de chuva estão suspensas no ar e a luz do Sol as atinge, necessariamente temos um arco-íris. Por que as coisas bonitas também tem fórmulas? O vigia roubou o arco-íris para si, para nunca mais vê-los como um simples arranjo de água e luz. Roubou-os para preservar sua beleza inefável. Diante dos meus olhos, eu o deixei com aquele fardo, e homem nenhum teria o direito de abarcá-lo para si. Os vigias são pagos para vigiar, o arco-íris para ser vislumbrado, e eu, para entreter o incolor cotidiano. Nunca recebi um centavo, muito menos o arco-íris!
(...)
I.B.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Homem só - Parte I

Cacos de vidro mastigam a sola dos meus pés enquanto me desloco naquele quarto escuro. A janela, colorida, me convida para adentrá-la e nunca mais pisar naquele chão, naqueles cacos banhados em vermelho vívido. Vermelho vivo. Um convite rumo aos confins do meu próprio frenesi. Momentaneamente considero o que me foi recomendado. Mas quem em sã consciência daria ouvidos à uma janela colorida? Lembro-me que ela está assim por que decorei o apartamento jogando vários baldes de tinta ao redor da casa. Nos móveis, nas paredes, na cama... Queria todas as cores para mim! Para me fazerem companhia! Decidi dar uma volta lá embaixo para clarear a cabeça. Preferi pegar as escadas (tenho medo de tudo que me lembre parede, como um elevador), pois cada degrau tem uma história para contar. Gosto de ouví-las enquanto caminho sobre eles, sobre elas. Eles conhecem todo mundo, pois todo mundo, só é alguém neste prédio, quando está na solidão das escadas. Subindo, ofegantes, subindo, descendo, ofegantes. O que é a vida senão um conjunto de decisões e ações fatigantes? Diferentemente das paredes, escadas não julgam as ações humanas. Por exemplo, uma vez fiquei sabendo que Tainá tinha problemas no joelho, a forma de uma pessoa andar diz muito sobre ela. Os pés sustentam todo o nosso corpo! A forma com que deslizamos pela superfície, ora graciosa, ora desajeitada, nos é inalienável. E quem não tem pés? Tainá sempre tem algo a esconder, seus segredos pressionaram tanto seus joelhos... Sua obscuridade desgastou suas articulações. Ela não é quem aparenta ser. Tenho medo de passar em frente ao apartamento 101! Seu espírito é pesado. Ouço risadas lá dentro. Risadas sinceras. Risadas de Tainá! Ela ri demais, por isso anda mancando. Como alguém pode se sentir confortável entre paredes? As paredes tem acesso aos frutos do que se passa em nossas cabeças, o pensamento refletido em ação, expressão, e o chuveiro pode tocar a semente, o âmago da ação, da expressão, através das gotas d'água, penetram em nossa inteligência, pelos poros, pelos olhos, ouvidos, nariz, cabelo, mãos, torso, até mesmo pelas unhas dos pés. Afinal, é a cabeça que sustenta o espírito, ou o espírito que sustenta a cabeça? De qualquer forma, os pés sempre estão lá, e se não estiverem... Você não pode subir escadas!
(...)
I.B.
domingo, 24 de maio de 2009
*Surtos Poéticos de Duas Mentes Avariadas
A ordem tende para o caos!
Mas se a ordem tende para o caos, o que é a ordem?
O que há de caótico na ordem?
E o que há de ordenado no caos?
É possível separar um do outro ou tudo não passa de ilusões que impomos a nós mesmos para suportar nossa existência: "há uma ordem na minha vida, há um sentido no que faço, existe um objetivo por detrás de minhas ações" quando na verdade a minha vida é um caos, não há qualquer sentido no que faço e muito menos existe um objetivo guiando minhas ações?
Ordem e caos, antônimos ou sinônimos?
Ou nem um nem outro, talvez duas palavras que digladiam ao mesmo tempo em que fazem amor na fronteira entre o sano e o insano?
Por que o caos é tão fascinante e a ordem tão tediosa, e apesar disso procuramos sem cessar um sentido, uma lógica, enfim, uma ordem nas coisas?
Que paradoxais nós somos! Ou quiçá idiotas mesmo?
(eu entenderia isso como uma mensagem de amor. Sem ofensas!)
A ordem é a aranha que está sempre tecendo um emaranhado de teias que nos sufoca e nos cala. O caos é um ser disforme que está sempre parindo algo mutante e livre, preenche nossos sonhos, mesmo que vigiado pela tarântula que nos persegue. Nós não temos tempo para racionalizar tudo de novo e arrancamos nossos olhos para ver o que já fora visto. A ordem nos cala, o caos nos induz a falar. Nós somos vítimas do silêncio, por que o barulho nos incomoda. Evitamos a nós mesmos com medo que o façam da mesma forma. Paradoxais. Somos um, nenhum e todos. Somos o conflito. Somos juízes. Somos a chama que inflama em seu peito. Somos a bandeira que nos diminui o mundo. Tendemos ora para o caos, ora para a ordem, por que a matéria que nos constitui têm forma, ao contrário de nossos espíritos.
Sonho...
Sonho. Caos. Matéria. Forma. Ordem. Espírito.
Percebe a relação necessária entre esses conceitos?
É como se um implicasse o outro e o outro implicasse o um.
Já tentou encontrar uma lógica no que você sonhou ontem a noite?
Nós sonhamos o que somos, e o que somos nós senão matéria, forma e espírito? "Tendemos ora para o caos, ora para a ordem, porque a matéria que nos constitui tem forma, ao contrário dos nossos Espíritos." Então, seria nossos Espíritos o contraponto com a matéria e a forma, em suma a ordem seria, portanto, o caos?
Não creio. Penso que o Espírito transcende os conceitos de ordem e caos.
The Spirit within is beyond the Great Wall.
Ele estava aqui antes de a matéria e a forma se constituírem.
Ele estará aqui depois que a matéria e a forma perecerem...
O Espírito precede o Verbo e a ele sucederá.
O Espírito é.
O Espírito é sendo. Uma imagem de difícil apreensão (ou seria compreensão? é possível capturar uma imagem numa jaula?).
O Espírito está além da ordem.
O Espírito está além do caos.
Ele está além da forma.
Está além da matéria.
E nós, nós pobres coitados (ou podres afortunados?) famintos por matéria e não-matéria, somos Espírito.
Estamos além da ordem?
Estamos além do caos?
Estamos além da matéria?
Estamos além da forma?
Se o Espírito está na nossa essência e o Espírito é inapreensível, incompreensível e indefinível, como compreender-nos, como apreender-nos, como definir-nos?
“Ser ou não ser, eis a questão”
...
Procuramos encontrar a resposta além de nós mesmos, e nos equivocamos ao confundir-nos com um nome, uma qualidade, um feito, uma posição social... Ou nos confundimos com a latência de nosso ser. Olhe para si mesmo e verá que tudo isso em conjunto é parte de algo delimitado para você e por você. Quem sou eu? Eu estou dentro de você.
Eu.
Sou.
Eu.
É difícil acreditar que sou limitado.
Todo ovo é aparentemente fechado, a princípio.
Porém, o que não vemos é que dentro dele algo está inquieto.
Uma vida está se formando.
Um ser está surgindo.
Um ser que não suportará o claustro e destruirá qualquer barreira que se interponha entre ele e o mundo.
Esse ser não conhece limites.
Do seu gênio, qualquer coisa pode surgir.
Coisas que nem mesmo ele jamais previu.
Coisas que só serão quando forem.
Admitir-se que existem limites traçados para você é outra forma de admitir sua sujeição aos padrões, ao Ser Supremo, ao fascismo social.
Admitir-se que seus limites são traçados por você mesmo é uma perspectiva um tanto conformista e absurda, diga-se.
Como pode você traçar seus próprios limites se nem mesmo você sabe do que é capaz?
Somente poderemos nos impor limites quando nos compreendermos, quando nos apreendermos, quando nos definirmos.
Nós somos Espírito; e o Espírito está além da compreensão, da apreensão, da definição.
É só uma questão de tempo até que ele rompa o claustro que o encerra e se manifeste.
Tempo...
Creio que você não entendeu a mensagem. Está claro como uma nuvem de dia quente. O que você fez foi sintetizar algo que estava subentendido, nas entrelinhas. Quando eu falo "confundimos", eu nego a certeza, nego a razão e deixo a ignorância e a arrogância em negrito. Por que todo conhecimento é conhecimento do homem, já o mundo, ele é infinito.
Eu entendi muito bem o que você quis dizer, e com sua última fala você apenas reforçou o que eu não quis dizer: "Por que todo conhecimento é conhecimento do homem, já o mundo, ele é infinito”.
É aqui que reside o problema: o homem é infinito, o mundo, finito. O homem é Espírito, o mundo, matéria.
E aí nos inquieta essa dualidade. De um lado temos a certeza de que o homem é finito dentro de suas condições de cidadão universal, e do outro a certeza de que ele seja um ser de infinitas possibilidades. Imagine que o universo seja o seu corpo, você perde um braço, isso causará uma perda irreversível, mas, com o tempo seu corpo e sua mente terão que se adaptar às novas condições. O que nos faz pensar que somos infinitude, se fazemos parte do todo? O que seria infinito, nossa capacidade de questionar o mundo ou a capacidade do mundo de nos inquietar? O homem é parte do espírito universal ou o universo é parte do homem? Talvez esse mundo finito que vos fala, esteja dentro da concepção de mundo do homem, limitada por sua capacidade unilateral. Por que tudo que sabemos, foi sabido pelo homem. Nossa consciência nos prende a essa unilateralidade pensante, por que os pássaros e os elefantes, vivem em um mundo totalmente diferente do nosso, embora no mesmo. O mundo sim, ele é infinito. Concordo até certo ponto com sua teoria, mas ela se choca simplesmente por causa do ponto de partida.
P.M. e I.B.
(algum dia do final de 2007 ou início de 2008)
*Sem revisão ortográfica. Muito do que foi escrito nesse diálogo, já deve ter sido superado. Ele se iniciou com uma perguntinha fundamental: quem sou eu? A partir daí, nos interessamos em destrinchar os pormenores do espírito, sem pretensões de encontrar alguma resposta, mas, pelo contrário, mais perguntas.
Sobre mesas e ratos

Estava à mesa, Dom, o anfitrião. Calado, não falava absolutamente nada. Charles, que só pensava em comer. Brancão, um galante sedutor, e Duda, o que sempre estava disposto a agradar seus companheiros.
-Sirvam-se meus camaradas!
-Adoro rum!
-Não tem queijo na despensa para acompanhar, meu caro companheiro?
-Receio que não. Demos uma festa ontem e não sobrou nada.
-Falando em não sobrar nada... Souberam do Benjamin? Foi triturado por um cão!
-Não me diga! Já foi tarde, aquele balofo imbecil! Só vivia a saquear as despensas do sindicato.
-É verdade. Era mesmo um aproveitador!
-Sim... Um tratante de primeira categoria!
-Balofo imbecil!
Risadas por toda a extensão da mesa de jantar, com exceção do Calado.
-Ontem encontrei um pedaço de torta quase intacto lá no centro urbano.
-Mas que maravilha!
-Ainda tem um pouco na despensa.
-Vou pegar!
-Quem foi pego por um gato esse fim de semana, foi o carequinha.
-E o que sucedeu de tamanha desgraça?
-Perdeu uma orelha e um pedaço do rabo.
-Sabia que seus descuidos exagerados iriam levá-lo à perdição.
-Ele é o único que se atreve a caçar na área D.
-Não sei se isso é excesso de bravura ou tolice.
-Ás vezes os dois se confundem meu camarada.
Risadas por toda a extensão da mesa de jantar, exceto o Calado.
-Passe a manteiga.
-Aqui está muito abafado! Detesto ter que viver dentro desses buracos desconfortáveis!
-Isso não é manteiga! É ketchup seu rato imbecil!
-Só achei que seria mais conveniente isso, do que manteiga, para você passar nessa fatia de pizza!
-Você não tem que achar nada! Só faça o que eu mando!
Risadas por toda a extensão da mesa de jantar, menos o Calado.
-Souberam da Clarita?
-Aquela danada!
-Deu a luz á oitenta filhotes só este ano!
-Aquela danada!
-Por acaso alguém aqui já teve o prazer de fornicá-la?
-Acredito que ninguém aqui!
Risadas por toda a extensão da mesa, a não ser pelo Calado.
-Esse rum está me deixando muito tonto. Estou me sentindo muito mal.
-Eu também.
-Eu também.
-Eu também.
-Parece que minha cabeça vai explodir!
O silêncio. Nenhuma risada se pronunciou, muito menos uma palavra. Apenas gemidos quase inaudíveis que cada um guardava para si. O Calado permaneceu sentado observando aquela cena aviltante, enquanto seus camaradas caíam um a um de cabeça sobre a mesa de jantar. Corpos a contorcer-se. Quando não havia nada para alimentar seu ilustre sadismo, ensaiou uma risadinha.
I.B.
(pintura de Marion Peck, The supper club)
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Castelos de Areia
O céu estava nebuloso naquela tarde de tom cinza. Sentado à beira da praia no recanto mais inóspito da costa, estava um sujeito belo e esguio de feições quase femininas, não só o rosto, mas o imaterial, tudo que o compunha. Taciturno. Estava de pés descalços e sentia a maciez áspera do terreno arenoso. Microscópicas rochas carcomidas pelo vento, pela água, a areia. Várias conchas e pequenas pedrinhas vestiam o solo como se este estivesse a desfilar em um baile real, digno de uma rainha. Vez ou outra, alguns siris punham metade de seus frágeis corpos de crustáceo para fora de suas tocas de areia, e o fitavam com seus olhinhos escuros. Mirou aquele horizonte oceânico preenchido por plataformas petrolíferas, aqueles gigantes de metal que acompanharam o progresso da sociedade contemporânea e estão dirigindo-a à falência. Mas eles não eram sua única companhia. Alguns pequenos pássaros arriscavam-se a marchar pela praia, bem próximos ao sujeito sentado. O pouco de receio que tinham era suprimido pela curiosidade. Ele se levantou de sua meditação homeostática, inevitavelmente afugentando os animais, e passeou pelas dunas da praia, até encontrar um pequeno balde, algumas pazinhas, e logo ao lado, um castelo de areia! Provavelmente alguma criança, mais cedo, tinha feito aquela pequenina obra de arte e esquecido seus brinquedos, verdadeiros pincéis da areia, pois, era tão bonito observar aquele singelo monumento erguido por delicadas mãos de criança. Era uma pena que a maré iria avançar e desmanchá-lo todo, dissolver o fruto de um artista, sua obra transitória, fotografia psíquica, ulteriormente intangível. Iria ser tragada pelo vai-e-vem do mar, misturada no infinito oceânico para nunca mais se recompor, precocemente inundado pela água salgada. Alguém deveria antever essa característica de se construir um castelo de areia, a condição a que eles estão fadados, nascer e perecer em um piscar de olhos. Não foi culpa da criança, ela não pretendia agir com crueldade, é a simples natureza das coisas. Todas as coisas estão fincadas em uma praia, como uma placa de salva-vidas, e o mar sempre haverá de estar lá, o seu dom da ubiqüidade, e as ondas ululam o dia inteiro sem descanso. Somos areia! Ele não suportou presenciar aquele teatro horrível em que o personagem principal tem que morrer! Hoje, não haveria espaço para tragédias! Cuidadosamente, o sujeito, utilizando-se das pequenas ferramentas que estavam ao lado do balde, pôs-se a raspar o chão sob o pequeno castelo e fez um tapete com um pedaço de papelão que havia encontrado enganchado em uma moita, onde colocou delicadamente o castelo em cima. Carregou-o vagarosamente até o topo de uma duna onde o mar nunca poderia alcançar. Encheu-se de um prazer tão grande depois do seu feitio, que sentiu sua alma tristonha, revigorar-se plenamente. O sujeito contemplou pela última vez aquele pequeno castelo de areia, e relutantemente se afastou, desaparecendo no horizonte. E lá no meio do mar, onde descansavam inertes as grandes plataformas de metal, o vento soprava forte em direção ao litoral, à praia, e o castelo permanecia firme, tenaz, como se o sujeito solitário o houvesse imbuído de humanidade, de vontade. Queria crer que aquilo fosse o suficiente, e parecia que seria. Aquela batalha exaustiva contra as rajadas que se chocavam naquela duna, naquela fortaleza exposta aos soldados de uma nação vizinha, e ele se mantinha erguido, como um bravo general diante de sua tropa devastada. As nuvens que já se afirmavam desde o início do dia, fizeram chuva, chuva torrencial. E lá estava ele, imóvel, só, como um castelo de areia deveria estar, e assim como todos eles, a desmanchar.
I.B.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Tiros numa madrugada (conto inacabado)

A noite escondia o pranto de mais um de seus filhos. Abafando suas lamentações, ocultando o rio que despejava de seus olhos, um rio de lágrimas. E o sangue! Vazava de seus poros como suor. Ás vezes a cortina se erguia e criaturas negras que se escondiam nas ruelas esburacadas lançavam olhares de escárnio, guiadas por seu olfato esfomeado. O filho da noite tentava esconder seus ferimentos, pois qualquer sinal de fraqueza o levaria à perdição. Seria devorado ali mesmo por aqueles monstros vis e covardes que se limitavam a sorrir como hienas em um banquete nas savanas africanas.O último combate que havia travado destroçou todo o seu corpo. Cada passo que dava era um esforço descomunal que provocava muita dor. Seu corpo tremia como se sentisse frio. Não ia durar muito mais tempo. Como se não bastasse uma criatura saltou de uma castanheira em direção ao filho da noite e pôs-se a encará-lo. Insinuava suas intenções bestiais, o desejo da carne em suas presas, seus dentes afoitos. Carne. Ossos. Exalava morte através de sua fome de viver. Vida, morte. Intrinsecamente inseparáveis em qualquer viela do que se é conhecido e até mesmo do que nos escapa à sapiência. É a lei. A única verdade absoluta e se apresentava diante daquele desafortunado, perdido demais em suas batalhas interiores para se dar conta de que algo sagrado estava para acontecer. Vida, morte. O próprio ato da procriação é um palco sanguinolento, vil, belo, puro. Onde milhares de indivíduos pré-existentes disputam um espaço na peça principal. Vida, morte. Ele estava alheio a essas reflexões. Estava voltado para sua dor que pungia vagarosamente em cada molécula de seu ser. Vida e morte não mais eram vida e morte. Afinal, o que era alguma coisa naquele momento? Só havia dor. Nada mais. Fechem as cortinas, não há nada mais a se ver por aqui.
(...)
19/04/09 e 07/05/09
I.B.
(Esse texto foi a inspiração para Rios e A irreversível condição do ser.)
Pintura de Van Gogh
Devaneios quiméricos de um bêbado - O Gato (conto inacabado)

Ergui aquela garrafa e brindei para o céu noturno. Pus o gargalo em meus lábios e sem mais cerimônias pus-me a sufocar um dia inteiro de infortúnios, "pra que preciso deles"? O cheiro já me causava náuseas, mas o sabor era nostálgico, de tempos bons. Era um paradoxo estar tão próximo do abismo no momento em que eu tragava cada gole para me afastar do mesmo. Aquele cheiro haveria de ser ignorado, a cada golada, a cada investida. Arremessei aquela garrafa no muro mais próximo sem ao menos ter acabado e me deitei no chão frio e pouco acolhedor, enquanto os cacos de vidro esvoaçavam-se pelo chão, despedaçando-se ensurdecedoramente. Com a vista embaçada e o mundo a girar em uma roda gigante à cem por hora, ousei levantar do meu leito gelado (ou seria eu quem estava cedendo calor para o meio?). Andei sem rumo por ruas e mais ruas acompanhado por cães que reviravam as latas de lixo, até que me deparei com um gato no meio de uma avenida solitária. Vomitei tudo que havia bebido e até um pouco mais, mas não lembro de ter ingerido algo além de vinho para vomitar. O felino estava sentado do mesmo jeito como se estivesse achando graça ou sentindo pena daquilo tudo. De qualquer forma ele via algum interesse naquele espetáculo etílico. Olhava para mim como se enxergasse além de olhos, além de uma face cansada, debilitada pelas várias noites mal-dormidas. Era desconcertante, me causava arrepios e até mesmo vergonha, tinha um sentimento de que em seus próprios olhos de gato, ele abrigava uma espécie de janela para, pasmem, o outro mundo! Eu podia sentir aquilo! Minhas pernas pararam de se mover...
Acordei em um quarto minúsculo que eu não poderia ficar em pé, o teto era muito baixo, parecia uma casa para anões... A portinha estava fechada. Minha cabeça latejava e minha boca tinha um gosto amargo de ressaca. Meu estômago se remexia como se quisesse fugir daquela cela que o comprimia, o meu corpo. A porta se abriu e por um bom tempo nada passara por ela fora a corrente de ar fria, até que um gato sobre duas patas se projetou porta adentro. Parecia o que eu imaginava ser o gato de botas ou qualquer criatura vinda dos contos da Carochinha. Foi a coisa mais horripilante que vira até então.
(...)
29/01/09
I.B.
Pintura de Marion Peck.
A esfinge

O indiano dirigia aquele carro espaçoso acompanhado de sua namorada mexicana e mais dois garotos, um brasileiro e um japonês. Ele apontou para sua direita enquanto guiava o carro pela auto-estrada como se quisesse lhes revelar alguma coisa. Os garotos avistaram uma gigantesca fábrica. Era a fábrica da Ford. O carro se locomovia a uns 80 quilômetros por hora e durou alguns minutos para que o carro percorresse toda a extensão da fábrica. Contemplaram da pista aquela vasta construção faraônica que se projetava como um tubarão em seu habitat. Aquilo tudo era muito assustador, apesar de terem sido nossas mãos humanas que a construíram penosamente. O sistema capitalista tem várias caras, e essa era uma delas. Imponente, colossal, inabalável. O indiano olhou para os garotos no banco de trás. "Vai fechar".
05/05/09
(publicado em www.teoriasdacomunicacaolilianufs.blogspot.com)
I.B.
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