sexta-feira, 26 de abril de 2013

Dor!


Dor!
No peito, no ombro, no intangível
A dor com causa no invisível
Que faz a unha roer, que faz a vida ruir

Pervertida, sombria, e aguda
A dor no peito, que corta, que assusta
Me faz morar na agonia

Essa insônia, um sofrer óbvio
Melancolia, transtorno, ódio
É muita angústia, pouco pavio
Há pouco ar...

Eu senti medo e fiquei sóbrio
Eu senti ódio e fiquei bêbado
Frenético, louco e sem controle

Um pouco só
Um pouco zelo
Por pouco tive à mim mesmo
Por pouco
Pesadelo.

A dor no peito a que me entrego
A dor de medo do que quero
A dor que é pura fantasia
Que migra a carne quando penso
Que é desatino desatento
A dor que some quando eu rio

É pálida, sombria, é vazio
E põe a alma por um fio
Ao que me exponho em duvidar

Se viver é preciso
Se me é necessário


Allysson T.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Máscaras

Ele peidava bastante. Às vezes era engraçado, outras o fedor superava a graça e muitas outras vezes era simplesmente peido. Um rascunho de bosta, o devir da cagada, o bafo insuportável da verdade que habita as entranhas, da feiura da vida, do enxofre dos infernos, da sopa primordial.

Um dia ela negou a tolerância, a coexistência com o peido alheio. Irritou-lhe as narinas molestadas, o fastio corroeu a sua moral e até mesmo a sua biologia. A podridão pertence aos abutres, aos siris, às baratas, vermes e ratos. À essa corja maldita! e de forma alguma deveria ser disposta aos valores humanos, ao menos nos mais imediatos.

Cheirar o peido do outro é como aspirar o que há de mais podre dentro dele. É quase como um vírus, um parasita, um germe nocivo à saúde... É tão íntimo e palpável, que nos afeta no âmbito abstrato, no campo florido das ideias, de tanto impregnar-nos fisicamente. A coisa transborda e foge para o sonho se estiver dormindo, para o pesadelo se estiver acordado. Não existem barreiras dimensionais.

Suja as vestes, os biscoitos, as trepadas, suja tudo com sua imundície arbitrária.O som do peido é o rufar de tambores que precede a batalha, é a sirene do misterioso e derradeiro ataque das tropas inimigas.  Ninguém sabe de que forma será atingido por mais que ele seja prenunciado.

- Você parece uma bomba de gás - ela disse.

Aquilo pareceu afetá-lo como uma punhalada nas costas, uma confissão de um segredo horripilante, a revelação de uma mentira habilmente escondida por debaixo de seu próprio nariz ou uma acusação contundente e inesperada. Ela não deu muita atenção. Estava muito aborrecida com os peidos para se incomodar com uma reação exagerada por parte dele. Afinal, eram só peidos e nada mais.

Só estava cansada de ter que inalá-los ao menos umas 30 vezes por dia. O amor que sentia por ele, compensava o fedor que muitas vezes se desprendia de seu intestino voluntariamente em seus momentos íntimos e algumas raras vezes, acidentalmente, em locais públicos. Apesar de se questionar sobre a suportabilidade, geralmente sem se levar muito a sério. Mas, ele começou a agir estranhamente desde que ela se manifestou em relação a suas bufas.

Já não a olhava da mesma forma, parecia evitar alguma coisa. Evitava emitir gases de seu ânus na presença dela e muitas vezes ela apenas sentia o horrível cheiro como rastros abandonados no banheiro. Certa vez, até mesmo se pegou sentindo saudades dos velhos e quase ritualísticos peidorreiros cotidianos.

- Por que está assim? Já faz um mês! O que foi que houve? Por que não me olha mais nos olhos?

Ele a encarou com uma expressão melancólica em seu rosto e segurou as suas mãos. Tomou um pouco de ar e parecia que finalmente decidiu falar alguma coisa, mas preferiu não dizer nada trancando-se desesperadamente no banheiro.

- Ei! O que foi que houve? Me diga alguma coisa!

Ele abriu a porta liberando aquele velho e insuportável cheiro de ovo podre e sob aquele cáustico e pantanoso ambiente, ajoelhou-se e retirando a sua camiseta regata, rasgou a própria carne com os seus dedos, revelando uma estrutura metálica ao invés de ossos, de sangue, de alguma coisa orgânica.

- Eu sou uma bomba de gás - disse aos prantos enquanto peidava.

30 minutes or less

- Me surpreendi com outro blockbuster! Engraçado como este termo pode soar bastante pejorativo para algumas pessoas. Pra variar foi uma comédia. Vai querer uma cerveja?
- Pode trazer!
- Já estou um pouco embriagado. Acabei de assistir ao "diário de um jornalista bêbado", inclusive. Foram algumas cervejas. Prefiro devanear com vinho ou qualquer outra coisa. Mas, cerveja serve.
- Espero que tenha algo sagaz para me dizer desta vez. Sinceramente, não me convenceu com a outra hipótese. São apenas fantasias extraídas de um roteiro insosso. A super-interpretação de... uma obra de Duchamp, por exemplo.
- Você é um sujeito muito pragmático, sabia? E não sabe do que está falando! Aliás, precisa enxergar mais quando os seus olhos estão irremediavelmente trancados. Sonhar é essencial e falo também em termos de essência do ser, a latência da vivacidade. 
- Tenho você aqui para me presentear com suas visões divinas. Se eu me afastar da minha função poderia causar, sei lá, um cataclisma cósmico ou algo do gênero. Você é o sonhador... eu sou apenas o seu vigia. Aquele que cuida para que nada fuja do controle e acabe destruindo o primeiro muro do primeiro bar que você aterrissar com a sua sede etílica.
- Ah! a cerveja! 
- Não tá tão gelada, mas dá pro gasto!
- "30 minutos ou menos"... é sobre um entregador de pizza, que acaba sendo sequestrado por dois sujeitos que pretendem assaltar um banco, durante uma entrega. Implantam uma bomba no entregador e o obrigam a realizar o crime por eles, caso contrário ativarão a bomba que o explodirá. Seria um roteiro de um filme de ação se não fosse pela característica nitidamente cômica das situações e os atores selecionados também contam muito. O filme poderia não ser nada demais se não fossem as belíssimas cenas dramáticas. A comédia e o drama andam sempre de mãos dadas ou ao menos desvencilhadas por alguma discordância, mas sempre caminhando na mesma praia. Ou ao menos deveria ser assim... Este filme faz isso com primazia. 
- A cerveja está realmente quente...
- Na iminente possibilidade da morte, que poderia se suceder com apenas um clique, o entregador se declara para o seu amor, que é irmã do seu melhor amigo... Enfim, essas informações não me convêm agora. Você precisa assistir. Sentir o drama no momento em que o dilema de apertar ou não o botão que poderia fazer a personagem principal explodir pelos ares... O embate dos dois sequestradores, o conflito de suas motivações, do caráter dos "bandidos". Isso não se vê em qualquer produção deste tipo. O jeito como eles imbuíram a história bastante cômica com humanidade... Enfim... O entregador finalmente se dirige ao banco para realizar o assalto com o seu amigo da forma mais pateta possível. Ao conseguirem a sacola com dinheiro, colocada por uma funcionária do banco, o entregador se sente na obrigação de dar uma parte a um dos reféns que está no banco e foi atingido acidentalmente por um tiro. Quando o refém se dispõe a pegar alguns maços de dinheiro, uma jatada de tinta (dispositivo usado por bancos) é disparado no rosto do refém comprometendo o valor das cédulas que agora estariam identificadas como frutos de um assalto. O entregador e seu amigo a ameaçam e a obrigam a colocar mais dinheiro em uma sacola providenciada por eles, mas dessa vez sob a mira de uma arma e sob a vigilância deles. Ela afirma que esse é um procedimento da empresa e por isso agiu daquela forma. Ela recoloca o dinheiro e dessa vez sob a mira de uma arma (que na verdade é falsa, mas ninguém sabe).
- Hum...
- Bom, várias situações angustiantes se revelam para o entregador e o seu amigo e eles passam por péssimas situações. Se envolvem com um assassino de aluguel, a amada do entregador é sequestrada e ameaçada pelos "bandidos"... Muitas situações atípicas na vida de pessoas "normais" se sucedem a partir do assalto ao banco e o fato de o individuo estar com uma bomba amarrada ao seu corpo faz com que a reflexão sobre a iminência da morte seja tema constante no filme. Mas, pode não parecer genial pra você... aqui... agora... é muito sutil e até muito distante da nossa experiência-memória em estar assistindo ao filme, ao contrário do meu relato, mas... 
- Não sei por que, mas acho que vai me surpreender muito menos do que da outra vez.
- No final do filme, quando as personagens resolvem tudo de uma vez por todas e consideram a oportunidade de ficarem com parte do que fora roubado, o jato de tinta é disparado de dentro da sacola. A funcionária do banco, mesmo sob a mira de uma arma defendeu a sua empresa, a sua função, em um curto período. Alguns segundos, ela refletiu sobre a morte, a iminência dela, em alguns segundos para defender algo que, aparentemente, não é crucial para a sua existência, que não iria afetá-la, aparentemente, de forma alguma em contraponto com o onipresente dilema de vida e morte que a personagem principal enfrenta do início ao fim em um espaço temporal infinitamente maior do que a mulher por sua própria vida que é ameaçada diretamente e por aqueles aos quais ele preza mais do que a si próprio... É um filme sobre amizade e plasticidade. Mas, não é óbvio. É tão blockbuster que passa desapercebido.
- Olha o preconceito!

segunda-feira, 11 de março de 2013

The Will To Death

Ninguém verá como me prostrarei quando minha hora chegar
Nem minha própria morte da qual vou me antecipar
Me esconderei nas profundezas mais inacessíveis 
Para que nem o esquecimento possa me achar
Não se ouvirá mais gritos, ritos e gargalhadas
Não se ouvirá mais nada
Enganarei a vida e os vivos
E me disseminarei como uma tosse em um minuto vão
Em um quarto surdo de uma mansão muda
Sem gritos, ritos e gargalhadas
Vou me mudar para longe e tão longe que nem lágrimas me farão homenagem
E nem canções me trarão do caixão
Para a companhia dos que ainda respiram, sofrem, fodem
Não restará nem o rabisco do meu risco
Nem o cisco do meu bem quisto e arisco ismo
Cisma
Ouros e tolos em toldos e
Vozes silvestres e falas arestas
De seres devassos e solos nefastos
E eu me enterro na terra que não pertence ao mundo
Chafurdo a lama que não é a morada dos porcos
E o spa dos elefantes
Eu sufoco nas veias do ostracismo
Nas páginas jamais escritas de um espectro da literatura
Serei a nota fantasma do rufar da bateria
Serei eu mesmo o companheiro do ponteiro
O ritmo do silêncio
O sêmen que desceu pelo ralo
O defunto sem cheiro
O tempo

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Ghostbusters



- Três sujeitos estão envolvidos com pesquisas sobre eventos paranormais em algum lugar dos Estados Unidos, mais precisamente algum lugar de Nova Iorque, e após algum tempo são expulsos pelo reitor por causa do conteúdo de suas atividades acadêmicas que não produziam muitos (na verdade nenhum) resultado. São na verdade considerados uma farsa. Mas, eles realmente acreditam que estão chegando a algum lugar com as suas teorias que se utilizam de parapsicologia e de física para sustentá-las. Eles decidem criar um quartel general em um antigo prédio dos bombeiros para sediar a sua organização que servirá para investigar fenômenos sobrenaturais, mas não há demanda alguma até que muito tempo depois alguém os procura para relatar sobre um fenômeno paranormal que ocorrera em sua casa, ovos fritando sozinhos, geladeiras servindo como portais para uma dimensão infernal...

- Terror barato de Hollywood.

- Após aquele primeiro chamado, muitos outros começam a surgir. A demanda por aquilo que outrora não existia passa a se espalhar como um germe e aparições de criaturas espectrais são testemunhadas por várias pessoas. Os três sujeitos agora  vão parar na televisão, anunciando o seu serviço de caça às criaturas dessa outra dimensão. A dimensão dos mortos. Não havia demanda alguma antes da primeira pessoa que não fazia parte do grupo dos sujeitos solicitar a ajuda deles. Lembra de Kafka? Aquela história onde havia um sujeito condenado por um crime que desconhecia... Ele estava procurando descobrir porque estava sendo acusado de um crime que não sabia dizer qual teria sido e inclusive as próprias autoridades e aqueles que trabalhavam a serviço das leis não sabiam ou mesmo lhes era desnecessário informá-lo sobre o que ele teria feito de tão grave. Com o passar do tempo, o sujeito passou a aceitar a sua condição de ignorância e relutantemente se resigna de sua condição. No início você e o sujeito estão angustiados com a situação, mas no final só resta você. É baseado nesta ótica do leitor que sente estas impressões ao ler Kafka que Dan Aykroyd e Harold Ramis compuseram a sua grande piada só que no sentido inverso. Neste caso, naturalizamos o absurdo, o trazemos para o nosso entendimento ao invés de contestá-lo furiosamente.

- Sobre o que exatamente está falando? Não compreendo aonde quer chegar.

- Estou falando sobre os arautos da loucura. Estou falando sobre três sujeitos que disseminaram os seus devaneios esquizofrênicos para uma das maiores e mais cosmopolitas cidades do mundo. Você já assistiu Caça-Fantasmas?

- Claro. Aquele filme de comédia. Era sobre ele que estava falando! Eu assistia até o desenho.

- O filme de comédia e não de terror barato. Aliás, o filme conta com a participação de Bill Murray que é um dos grandes comediantes norte-americanos da década de 80.

- E o que Kafka tem a ver com esse filme? Aliás, por que estamos conversando justamente sobre esse filme?

- Porque talvez você tenha perdido a grande piada. Afinal, poderiam ter contratado atores de filmes de ação e não o fizeram. O filme foi escrito por comediantes e atuado por comediantes. E o mais engraçado do filme é o quão ambíguo ele é e o quão direto ele é e nós adotamos a postura de "estou vendo um filme de ficção". Mas, isto está errado. A intenção deles é nos confundir e os dois filmes começam apresentando situações absurdas, impossíveis. Eles determinam a sua postura inicial que se mantém até o final dos dois filmes e além.

- E que postura seria essa?

- Você negligencia a possibilidade de tudo aquilo não passar de alucinações. O filme é na verdade sobre três sujeitos esquizofrênicos ou sob efeito de alguma substância química extremamente poderosa.

- Talvez você esteja supervalorizando o filme.

- Se você observar o filme desta maneira, ele se torna extremamente engraçado. E outra coisa que eu tenho para acrescentar sobre esta discussão é que a qualidade maior da arte não é a intenção do artista, mas a pluralidade de suas impressões. Eu já te falei que Cheech aparece na sequência desse filme?

- De Cheech and Chong? Aliás, existe algo que me convença da sua tese? Porque para mim aquele não passa de um filme mediano feito para entreter as pessoas e que me fazia companhia nas tardes Globais. Ou passava de noite? Nem me lembro bem.

- Talvez fosse necessário uma outra sessão para você compreender o que estou tentando te falar. Não há nem mesmo entrelinhas, a piada é direta e de fácil acesso a depender das suas referências de perspectiva ao assistir à obra que para mim foi genial pois é arte disfarçada de puro entretenimento.

- Vamos supor que eu nunca mais assista a essa pérola dos anos 80...

- Vamos lá, eu vou dizer-lhe tudo que me vier à cabeça para tentar convencê-lo do que eu vi. Primeiro, percebemos que os três sujeitos são expulsos por não produzirem nenhum conteúdo em suas pesquisas na universidade. Esse clima de resistência por parte das outras pessoas é um tema recorrente nos dois filmes. Os três caça-fantasmas são considerados farsas e em determinado momento até loucos. Chegam, inclusive, a ser internados. Quando eles começam a ser requisitados para investigar e expulsar espectros fantasmagóricos por uma quantidade crescente de pessoas, um radialista afirma que algumas pessoas dizem que os sujeitos são na verdade a origem disso tudo. O que é bastante plausível, pois assim que suas ideias se espalham cada vez mais, mais fantasmas aparecem e mais pessoas começam a vê-los. Não é coincidência, é parte do fenômeno inverso Kafkiano que eu mencionei antes, o absurdo vai se alojando gradativamente nas periferias da realidade e com o passar do tempo em seu próprio bojo. Autoridades, por exemplo, resistem à possibilidade de existirem fantasmas, indo de encontro às crenças da população. Em determinado momento do primeiro filme, um agente de questões relativas ao meio ambiente tenta parar as atividades dos sujeitos e tenta se utilizar da força policial para desligar algumas máquinas que armazenavam energia no Q.G. dos cientistas. O policial se recusou a fazer isso, pois convencido pelos Caça-Fantasmas, acreditava que aquilo pudesse provocar uma grande explosão. Tem o caso do julgamento no tribunal conduzido por um enfurecido juiz (que representa a lei ou a falta dela) e os sujeitos tem como advogado de defesa uma das personagens mais desequilibradas deste circo de horrores para provar que os Caça-Fantasmas não são criminosos e sim os bons mocinhos. Se a gente fosse pensar também em termos de Cultura Popular e Indústria Cultural poderíamos relacionar estes conceitos aos assuntos abordados em questão. Mas, anteriormente eu falei em cientistas, não foi? A verdade. Os três sujeitos, ainda que um deles não compartilhe dos enormes debates envolvendo termos extremamente específicos de linguagem técnica da física, química e etc, são considerados cientistas. Pois, eles são os difusores da verdade, os arautos da loucura.

- Continue (sic).

- Quando eu era pequeno, eu costumava brincar de ser um herói. Eu e meus amigos criávamos personagens e histórias e conduzíamos tudo na base da concordância e da persuasão. Íamos contando a história e fingindo ser guerreiros com poderes míticos. Uma das personagens, o sujeito negro que ingressa na equipe dos caçadores de fantasmas ao entrar no grupo é questionado sobre as suas convicções e crenças. É questionado sobre clarividência e telepatia e se acredita nestas coisas ao passo que responde "contanto que me paguem, eu acredito em qualquer coisa". A meu ver ele era um indivíduo que apenas via nesta histeria coletiva a qual ainda não fazia parte, uma oportunidade de sobrevivência. Mas, com o passar do tempo ele passa a vivenciar as mesmas experiências de seus colegas de trabalho e, inclusive, é responsável por uma das teorias mais chocantes do surgimento dos vários fenômenos que se espalharam pela cidade de Nova Iorque. Ele relaciona o que está acontecendo a algum trecho do Juízo Final do Apocalipse bíblico. No momento em que ele profere aquelas palavras referentes aos mortos voltarem de seu descanso eterno ao mundo dos vivos, um dos sujeitos do grupo original dos Caça-Fantasmas faz uma cara de espanto e desvia o assunto ligando o rádio. O que pode ter parecido um reflexo de apreensivo por parte da personagem, a meu ver foi um episódio muito maior. O espanto não foi gerado pela possibilidade de algo que foi mencionado na bíblia estar acontecendo, mas, creio eu, e admito que este trecho em específico é bastante ambíguo, foi pelo fato de outra pessoa, fora do grupo dos três sujeitos, ter participado da brincadeira psíquica que começou com eles. E a minha teoria da brincadeira de criança se torna mais evidente com o surgimento daquele monstro gigantesco de marshmallow chamado de "Stay Puft" que faz parte da cultura norte-americana (apenas no filme) e é idolatrado pelas crianças. Ou seja, o clímax do inconsciente manifestado fisicamente (prefiro ver como uma alucinação) daquele processo esquizofrênico coletivo foi uma figura popular e icônica que fazia parte da vida das crianças. No segundo filme o colosso é a estátua da liberdade quem começa a andar e luta contra as forças do mal. Engraçado que entoada por uma canção que tem em seus versos várias vezes repetida a palavra "higher".

- ...

- Torradeiras dançando, geléias verdes voando por aí, declarações de amor exageradas como "vamos fazer um filho" sem ao menos as partes se conhecerem, acusações sobre estarem espalhando um gás venenoso pela cidade (no primeiro filme) e existir um líquido chamado por eles de "ectoplasma" correndo livremente por debaixo da cidade... Tem até uma cena em que o vilão pergunta aos Caça-Fantasmas se eles seriam deuses e um deles (o diretor do filme inclusive) responde que não e o demônio dispara um raio neles. Uma das personagens aparentemente enfurecido faz a seguinte colocação: da próxima vez que lhe perguntarem se é um deus, responda que sim! Você precisa assistir para entender a verdadeira piada que está sendo contada. A merda toda é cheia de simbolismos minuciosamente colocados.

- Uma vídeo-reportagem descontraída sobre um pequeno jaguar visitado por dezenas de pessoas diariamente em um zoológico coreano, se não me falha a memória, que não pode receber tantas visitas por dia senão pode vir a enlouquecer... vivendo como aqueles indivíduos de freaky-shows que até me lembram aquele homem-elefante... um monte de criancinhas de olhinhos puxados agarrando-o como a um ursinho de pelúcia... E ao final da matéria algum funcionário desse espetáculo é filmado segurando o pequeno bebê jaguar e olhando para ele de forma até carinhosa... A repórter que narrava descontraidamente essa notícia que me causou uma sensação desagradável termina com as seguintes palavras "minhas unhas estão crescendo, até quando você vai me olhar assim tão de perto". Isso, meu caro, é uma piada.

Igor Bacelar




sábado, 20 de outubro de 2012

Ela

Ela sentou-se ao seu lado. Ninguém costumava fazer isso. Ele até que era um sujeito simpático, bem arrumado... Era bonito. De uma beleza exótica e cativante. Seus olhos amendoados eram quase hipnotizantes, sempre fixos ao seu objeto de interesse ou às vezes surpreendido por algo como se quase sempre estivesse em divagações. 

Estar ao seu lado era um exercício da curiosidade, era uma decisão a ser tomada com cuidado, pois era incômodo ou ao menos parecia, estar ali sentada próxima a ele. Por causa do silêncio, da mudez, do ar de indiferença, do charme blasé que exalava do perfume quase erótico que se desprendia dos seus poros quando por alguma ocasião ele se retirava da sala para atender o telefone ou ir ao banheiro deixando o seu rastro para trás.

"Que coisas secretas foi ele fazer", se perguntava enquanto estava ausente. Quando voltava sempre fazia questão de encará-lo nos olhos ao passo de que ele geralmente não percebia e se por alguma coincidência retribuia a visão a ela, era um simples acaso probabilístico como um dado perfeito de vinte faces arremessado em um tabuleiro onde o número exibido independe somente do desejo do seu jogador.

Enfim, a aula havia acabado e ela levantou-se prontamente no mesmo momento que ele também o fez e dessa vez parecia apressado, contrastando com a atitude preguiçosa que ele exibe na maior parte do tempo. Para que ele pudesse ir, precisava passar por ela que estava arrumando suas coisas para ir-se embora. Ela, que exibia suas belas costas praticamente nuas devido à sua blusa de última moda e uma tatuagem rente ao pescoço, aparentava estar pela primeira vez alheia à presença dele.

A aula já havia acabado e a urgência de ir possuía um efeito anestesiante que alienava a maioria das pessoas ali a uma realidade bastante diversa àquele ambiente claustrofóbico e ventilado precariamente por ventiladores de teto prestes a se aposentar por invalidez. O término da aula, os seduzia voluptuosamente com a ideia de que um mundo inteiro se revelava do outro lado da porta.

"Com licença", soou uma voz de timbre metálico e juvenil, de tonalidade suave e requintada que era clara e suficiente para se ouvir nitidamente, mas ao mesmo tempo parecia um sussurro tímido de forma a convencer qualquer um com sua mansidão. Sensual como água da chuva que escorre pelas maçãs do rosto expostas em um dia ensolarado, que molha a terra e faz germinar sementes e se torna um afluente que desemboca em outras águas.

Ela estremeceu, ficou eriçada e mecanicamente deu passagem a ele. Permanecia espasmodicamente estática enquanto ele atravessava a porta. Não parava de rir freneticamente em sua tentativa constrangida de impor-se o sigilo daquela manifestação desenfreada e vertiam-se lágrimas de seus olhos espremidos. A aula já tinha acabado. I.B.

sexta-feira, 16 de março de 2012

The Heart is a Drum Machine

Vocês já perceberam que não criamos nada? Apenas imaginamos. 
I.B.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Imitação

Foi o último do seu grupo de amigos a ter aqueles sonhos esquisitos. Já estava naquela fase de pensar que tudo era uma brincadeira sem graça ou uma conspiração, já que a sua realidade imediata era o reflexo de muitos outros episódios semelhantes e apenas ele não tinha tido os tais sonhos.

Nem mesmo os jornais puderam negar fato tão insólito. A imprensa empurrava religiosos, cientistas, místicos, adivinhos, junguianos, e as pessoas não sabiam em que acreditar. Foram tempos barulhentos envoltos em mistério.

Quando primeiro se notou o tal evento, foi naquelas plataformas virtuais de redes sociais, nas banalidades diárias comentadas pelos usuários da Rede. Em pouco tempo, todo o mundo não sabia se aquilo não passava de um truque barato que se espalhou de forma viral, uma conspiração de qualquer tipo com razões obscuras ou se era a maior coincidência de todos os tempos, teoria adotada por um ou outro cético em tantos milhões de pessoas.

Existiam algumas características que distinguiam alguns sonhos de outros e os especialistas os dividiam em grupos. Mas, isso foi uma ação desnecessária que basicamente forçava os cientistas, os religiosos, os pensadores e os mentirosos a criar uma relação racional entre os fenômenos oníricos. Os físicos e matemáticos passavam horas fazendo cálculos gigantescos. Os psicólogos estavam bastante atarefados nesses tempos, na verdade não só eles, mas uma gama de todo tipo de especialistas. Acentuei os psicólogos por causa do tal do inconsciente coletivo de Jung, que tomava proporções radicalíssimas e se espalhava muito além do seu campo de ação.

Teria a globalização gerado um processo em cadeia, uma anomalia psíquica, será que a consciência humana iria ruir, se esfacelar diante do amálgama individual provocado por esse fato sobrenatural? Será que a humanidade estava migrando para outro estágio de existência, ou estariam todos simplesmente sonhando? Qual é a pergunta certa a ser feita num momento desses? Existiam muitas questões, muitas respostas, por ora suficientes para sustentar a criatividade das pessoas, mas foi também um período de muita angústia e medo.

Tornaram-se proibidas as previsões apocalípticas do fim do mundo e mais do que nunca as pessoas temiam o dia de amanhã, apesar de muitas outras estarem em um estado de catarse constante. As igrejas e todo tipo de culto religioso estavam lotados e abarrotados de pessoas em busca de respostas. Os mais ortodoxos se tornaram mais duros em muitos casos. Antigos novos trechos de textos antigos ganhavam nova cara. O mundo como o conhecíamos passou por uma releitura desesperada, tudo por causa de alguns poucos sonhos que não pertenciam a ninguém.

Com o tempo as coisas se abrandaram e em contrapartida as pessoas passaram a não mais ter sonhos sobre suas perspectivas singulares. Tudo foi se tornando homogêneo no plano onírico. Por um breve momento esse novo evento foi recebido com bastante alarde, mas o interesse das pessoas não perdurou muito. No leito, as pessoas adotavam um uniforme descolorido e sem cheiro e a prosa e todo tipo de comunicação se tornou insípida e sem sentido. Não levou muito tempo para o tédio desfigurar todos os indivíduos.

Durou algum tempo para que aqueles três sujeitos percebessem que nem sequer levantaram o dedo para pôr em prática um dos planos mais relevantes do universo, e as coisas pareciam estar em profundo desequilíbrio antes mesmo do derradeiro cataclismo.

Foram décadas fabricando um aparelho daquele porte secretamente. Muitas vezes, manter a discrição daquele projeto provocou algumas indelicadezas sanguinolentas, se é que me entendem. Sofreram antipatias involuntárias de todas as naturezas, viveram praticamente alienados do convívio social como se as pessoas soubessem de algum segredo íntimo e tenebroso que eles guardavam. Nem mesmo os animais suportavam a presença desses pobres indivíduos.

E agora que a hora chegou, deveriam aceitar que tudo seria realizado justamente quando tudo parecia perdido, dando um ar de benevolência para o que planejaram todo esse tempo. Sentiam-se como seres divinos e misericordiosos que cessariam a dor da Síndrome da Unidade que acometeu o mundo.

Antes, parecia uma atitude mesquinha de três pessoas destinadas a algo que desconheciam o propósito. Presenteados com um sentido, uma razão, o juízo deles enfim tapava os olhos e silenciava toda a balbúrdia que desenfreadamente desfilava em seus pensamentos berrando mil justificações de tudo que observavam estudando algum significado nos eventos planetários mais distintos. "A Terra não precisa ser destruída por que abriga muita crueldade, mas por que a vida nela está definhando", concluíram em seus últimos minutos.

Devo dizer que desde crianças a ideia definitiva os convidava a assumir esse papel e foi extremamente penoso para eles aceitarem essa missão vinda de algum lugar desconhecido. Passavam períodos sem comer em aflitiva depressão na infância e as primeiras tentativas de suicídio foram antes mesmo da adolescência.

No princípio eles pensavam que era uma ideia oriunda de suas mentes nebulosas e seus egos ardilosos, mas essa teoria foi descartada quando finalmente se encontraram. Existia algo demasiadamente comum aos três para ser de fato parte deles.

Era nítida a influência de algo que não pertencia a eles mesmos. Desconfiaram de coisas inimagináveis, mas nunca suspeitaram do fato de existirem entidades cósmicas responsáveis por essa ideia irrecusável, irreversível. Com o tempo, graças às inúmeras e inventivas conjecturas que vislumbraram das poucas possibilidades de aniquilar simultaneamente todas as formas de vida na Terra, acreditavam que eles não foram os únicos a serem designados a tal tarefa.

Afirmavam que as epidemias e pandemias virais e bacteriológicas eram sintomas da existência de outros antes deles, de tentativas que nunca chegaram a cumprir o seu objetivo e pouquíssimas vezes obtiveram pleno êxito, apenas em casos isolados de algumas colônias de vida extintas ou povos isolados. Eles viam na desgraça e nas contingências mais banais um propósito homicida. Se estavam certos eu sinceramente não posso afirmar, mas essa foi a única ocasião que o planeta Terra se descuidou, não teve força suficiente para expurgar de dentro de si os arautos da destruição.

Enviou diversos avisos para alguns indivíduos, mas esses pareciam entretidos demais com algumas coisas, incrédulos talvez. Logo, forçou os seres vivos a sonhar com informações menos precisas (pois estava desgastada com as outras investidas), mas que serviam de pista. Alguns sonhos continham a localização de onde estaria algo monstruoso e destrutivo, outros apresentavam rostos de pessoas jamais vistas pelos sonhadores, mas foi tudo em vão. Posteriormente, a própria urgência do seu socorro fez com que o planeta se quedasse enfermo, alterando bruscamente uma das qualidades inalienáveis da vida terrestre: a pluralidade. O planeta antecipou a própria morte.

A Terra caiu em uma armadilha que ela mesma desconhecia. Uma armadilha engenhosamente promovida pelo acaso, por outras formas primitivas de consciência que habitam a imensidão, o mar cósmico, o breu. De alguma forma a vida se tornou autônoma demais incentivando tudo que havia sob influência tirana da Terra. Não estou aqui pretendendo fazer com que creiam que a tecnologia afastou os seres de alguma espécie de estágio natural e em decorrência disso não puderam ver os sinais, entender a linguagem. Nunca! Só existe uma linguagem e todos a compreendem seja intelectualmente ou instintivamente. A vida nunca se afastou de lugar algum e sempre esteve umbilicalmente ligada aos seus princípios. Tanto metal, quanto carne, ondas eletromagnéticas ou sinapses, tudo é parte de um grande, único e onisciente ego colossal terreno.

A Terra estava solitária, tudo estava sozinho, só existia solidão e por isso mesmo não havia nada. Foi por acaso, foi por uma série de coincidências, foi por uma improbabilidade que brotou o rascunho da inconsciência e a Terra tragou para si infinitos sóis, galáxias e todo tipo de coisa, escravizando-as involuntariamente à sua influência e por infinitas eras nem se dava conta de coisa sequer. Até que uma ideia germinou.

O esboço da vida procriou-se naquele microcosmo, uma partícula minúscula invisível para qualquer aparelho sequer imaginado, intangível, sem forma, que é, simplesmente. O próprio universo em si. Espírito. Foi assim que nasceu a vida e ela só existia nas mediações da Terra. Agora nada restou em meio a tantos sonhos perdidos. As mãos, agora vazias e adimensionais, em um esforço ininterrupto de terem-se envolvidas em afago. Um pesadelo terno e cordial que emudece carinhosamente a mais promissora das insinuações. Só sobrou nostalgia.

I.B.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Mito da Superioridade do Macho na Divisão do Trabalho das Sociedades Primitivas (devaneios mal articulados feito nas coxa)

Os homens eram responsáveis pelas atividades de caça enquanto às mulheres cabia a coleta de vegetais e os cuidados e educação das crianças. Com as mudanças provocadas pela prática da agricultura, o homem passou a derrubar bosques e a preparar a terra para as lavouras e as mulheres cuidavam do cultivo. As mulheres cuidavam da casa, dos filhos, da comida e da colheita. Durante os dois períodos, desempenharam funções vitais para a sustentação da sociedade, pois eram quem propiciavam mais alimento para as comunidades humanas naquele tempo e quem ensinava maior parte dos costumes e da cultura às crianças, além de garantir o seu desenvolvimento até a maioridade.

O homem não era o principal produtor e mesmo assim o valor de sua posição era considerado maior. Tanto nos tempos que cumpria quase que exclusivamente com a função de caçador e a carne possuía grande importância, até mesmo por sua raridade em relação aos vegetais abundantemente encontrados em condições normais, quanto no período de sedentarismo e fundação das atividades agropecuárias no qual as mulheres eram responsáveis pela colheita dos plantios. A produção direta e mais importante de alimento era papel das mulheres nas sociedades descritas por Jaime Pinsky e mesmo assim o homem mantinha sua posição dominante. De que forma era possível essa distinção de valores na divisão sexual de trabalho? Por que o homem assumia o papel de dominador e de que forma isso era possível?

Da mesma forma que uma nota de 10 reais possui valor suficiente para comprar um hambúrguer com refrigerante de uma franquia internacional porque foi determinado institucionalmente na sociedade de que aquele objeto colorido com a figura de uma arara possui um valor determinado, as mulheres se mantinham submissas à influência do homem graças a mitos, ritos, crenças, cultos, que protegiam o poder masculino na sociedade, virtualmente ameaçado. O homem se aproveitava (se aproveita) da força física e da repressão ideológica para institucionalizar a lógica patriarcal. Não só existe uma diferenciação biológica dos sexos, mas passa a se desenvolver uma disparidade de caráter histórico. Mas, será que sempre foi assim?

Existiram algumas tribos indígenas do extremo sul do continente americano, que se estabeleceram na região da Patagônia, que praticavam um ritual conhecido como “Hain”, no qual os homens se disfarçavam de espíritos, oras malignos, na maioria das vezes trocistas, que se ocupavam de assustar as mulheres e crianças das comunidades. Servia também para iniciar os adolescentes à idade adulta.

A caça era muito difícil nessa região em decorrência das baixas temperaturas e o animal de maior importância nutritiva era o Guanaco, muito difícil de ser capturado. As mulheres eram essenciais para o funcionamento das tribos, já que eram responsáveis pela coleta de frutos e raízes que eram a principal fonte de alimentação desses povos, além de cuidar dos afazeres domésticos. O poder dos homens estava incontestavelmente ameaçado. Verifica-se aí um exemplo da utilização dos mitos como ferramenta de manutenção do patriarcalismo, comprovado por alguns estudiosos que chegaram a presenciar esses rituais ainda no início do século XX.

Mas, o fator mais intrigante desse caso em particular, e que não é um fato isolado, pois se passou em diversos povos de todos os cantos do globo, é a justificação do ritual para amedrontar as mulheres. Segundo os Selknam, tribo de um dos grupos indígenas que praticavam essa cerimônia, nem sempre as coisas foram assim, houve um tempo em que as mulheres quem praticavam esse ritual, as mulheres que mantinham os homens sob seu domínio e os forçavam a trabalhar arduamente. Depois de um longo período de submissão, os homens indignados acabaram descobrindo o segredo das mulheres e foi quando uma guerra sangrenta se instalou naquela região provocando a morte das mulheres (só foram poupadas as crianças) e a inversão de papéis pelos homens.

Vários teóricos apontaram a existência de matriarcados como a mais remota forma de organização social já conhecida. Existe um achado de uma estatueta que data de uns pouco mais de 20.000 anos que retrata uma mulher obesa ou grávida que, segundo a leitura feita pelos antropólogos, simboliza a fertilidade da figura feminina (Vênus de Willendorf). Nesse tempo, segundo J.J. Banhofen, acredita-se que as mulheres tinham relações sexuais com diversos parceiros, pois não existia a noção cultural de compromisso, e aquelas que tinham inúmeros parceiros eram as únicas a poderem determinar com certeza de quem eram os filhos. Os homens eram meros reprodutores e não possuíam nenhum vínculo afetivo com os recém-nascidos. Para esses, a mãe era o centro de suas vidas, a razão de viver. Por isso se explica o louvor e a exaltação a deusas femininas nesse período (que varia temporalmente para os diversos povos).

Muitos estudiosos creditavam a decadência dessa antiga forma de organização dos povos primitivos ao enfraquecimento das divindades femininas em detrimento dos deuses masculinos. Mas, para Engels, as mudanças na estrutura familiar e a visão masculina do mundo surgiram com a introdução do princípio da propriedade privada. Pois essas áreas delimitadas eram frutos de conquistas territoriais e os machos passaram a exigir fidelidade sexual, pois não queriam legar suas possessões adquiridas em combates e guerras a descendentes que não fossem de seu sangue. Transformando a mulher, consequentemente, em uma extensão dessa propriedade, na qual seria cativa, castrada de suas liberdades, “condenada” à monogamia.

Aparentemente, o capitalismo aprofunda a divisão sexual do trabalho como foi colocado em um congresso da Coordinadora Latinoamericana de Organizaciones del Campo (CLOC) em 2010 e para a alegria de Engels. Segundo Nalu Faria, representante da Marcha Mundial de Mulheres e da Sempreviva Organização Feminista (SOF), “não podemos entender como funciona uma sociedade capitalista, se não compreendemos como se dá essa divisão sexual de trabalho. O capitalismo aprofundou a ideia de divisão entre uma esfera pública e uma esfera privada de trabalho, a pública seria o trabalho, a pesquisa, o estudo, a prestação de serviços, e o trabalho privado não é reconhecido como trabalho, e ainda se considera que essa atividade é característica às mulheres. E mesmo quando as mulheres entram no mundo do trabalho público, entra nessa divisão, tendo empregos menores, menores salários, menos cargos de chefia, entre outros”. O que é perfeitamente plausível, pelo fato de que no passado havia uma maior participação das mulheres em decisões políticas e econômicas durante, por exemplo, a Idade Média, onde tinham direito a estudos, grande parte das profissões e direito à propriedade, ainda que em menor número do que os homens. Joana D’Arc, jovem chefe guerreira francesa, era um dos ícones medievais, e os povos gauleses também admitiam mulheres em altos cargos militares, sem contar as várias mulheres que governaram nesse período (e muitos séculos antes disso tudo) em várias regiões do globo, houve casos e casos em pleno vigente modelo patriarcal. Hoje, o velho panorama da mulher submissa que se instalou mais brutalmente depois do período medieval, vem manifestando mudanças gradativas.

Cada teoria é insuficiente em sua tentativa de explicar esse aspecto do desenvolvimento das sociedades humanas, pois a perspectiva territorial dos povos indígenas do continente americano difere em muitos aspectos do conceito marxista de propriedade privada. Também de que ainda hoje funcionam organizações matriarcais (existem alguns casos, inclusive na China) e não necessariamente quer dizer que se sucederam etapas bem definidas da evolução desse tipo de funcionamento de estruturação social. Nem se há uma precisão do que realmente aconteceu em algum passado remoto, pois o ser humano se perdeu do tempo, é produto de outra concepção da realidade muito distante daquela de milhares de anos atrás.

Segundo Jung, o Animus e a Anima que compõem o inconsciente das mulheres e dos homens em seu confronto interminável com a persona, que vão bem além da composição psíquica de um único indivíduo isolado, representariam esse mesmo conflito de interesses no âmbito das organizações sociais. A ordem não tende ao caos, senão a outra ordem.

A psique humana é rodeada de preconceitos, as coisas não necessariamente sempre foram de uma determinada forma, nem algumas noções surgem tão desavisadamente no cotidiano consciente e até inconsciente dos grupos humanos. As multidões tendem a não refletir sobre certas coisas. As relações de poder são os alicerces da economia, a força motriz dos modos de produção e constituinte do indivíduo em si, pois esse não seria nem mesmo um indivíduo se não estivesse em conflito com o interesse do outro. As relações de poder sempre estiveram em um violento dilema com as forças opostas que se digladiam em suas correntes tênues. 

I.B.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Renascimento

Sinto que perdi a potência criativa de outrora, imerso que estava na concepção de um texto pleno de tecnicismos e carente de poesia... Por mais de um ano, talvez, nem uma linha sequer se desenhou a partir da ponta do meu lápis, mesmo que dançando tropegamente e insegura no escuro. Sim, porque a poesia é como a dança, puro movimento e imagem. Nada... Os surtos rarearam até cessarem por completo.
Hoje, meus dedos enferrujados tateiam no escuro em busca das teclas corretas, hesitando antes de cada palavra, como se temendo o equívoco. Falta-me aquela certeza de outros tempos de que, em poesia, não existem equívocos. Mesmo o erro aparente não é senão mero exercício da liberdade de poetar (ainda que inconsciente). Porém escrevo.....
Sinceramente, causa-me certa estranheza o ímpeto que me acometeu, inesperadamente, de fazê-lo. Há muito tempo não experimentava tal sensação....
Não sei, uma série praticamente interminável de contrariedades tem me sido ofertada, como que um presente. Algo como encontrar Ariel nas primeiras linhas de um longo livro para, já na página seguinte me deparar com Caliban. Como a dualidade é angustiante! Angustiante porque não é possível entregar-se nem a um nem a outro. Ambos, simultaneamente, pretendem me consumir, sem atentar, porém, para o fato elementar de que o meu corpo é materialmente limitado. Antes fosse apenas espírito....
O material se quebra com uma facilidade que, consciente ou inconscientemente, preferimos ignorar. Quão frágil nós somos...? Contudo, o certo é que o golpe mais duro é aquele que não se atenta para a carne, buscando, fundo, atingir a alma. Este sim, é insuportável! A alma grita loucamente, em agonia, enquanto, mirando no espelho em sua frente, vê a miragem da face de Caliban emergir emoldurada da superfície fria e morta. E, em meio à agonia, se regorjiza enquanto observa Ariel executar suas piruetas ao longe, por detrás da dor. Quanta contradição! Não apenas o corpo se aquebranta como também a alma.... Eis que perece o ser, quando sequer o pensamento ousa persistir.
Preenchido, então, o requisito essencial para o renascer!

P.M.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O monstro do lodo


O monstro do lodo

À sombra daquelas altas falésias, o mar roçava os pedregulhos da praia e a espuma se desfazia lentamente na areia como um sonho fugidio. Foi assim que o sujeito desleixado despertou na madrugada daquele dia. Já havia se acostumado com o cheiro de poeira, mofo e abandono no qual aquela casa cheia de aposentos inabitados havia se perfumado. Já nem lembrava a última vez que outra pessoa deitou sobre aqueles colchões vazios de quartos sem dono. Só havia ele e a madeira que compunha a residência, estalando o tempo todo mastigada por cupins. Mas esses insetos estavam particularmente calmos nesses tempos. Era quase como se não quisessem mais ser notados. Até mesmo as baratas se escondiam em qualquer brecha nas paredes e no piso sem se revelar nem mesmo nas horas mais seguras e brandas da calada da noite para os seus furtos suculentos.

Como eu poderia esquecer do lixo e de toda aquela sujeira encardida e tingida em cada parede, chão, mobília? Bastava esboçar uma idéia sobre a fachada da casa e aquilo invadia os meus pensamentos. Como poderia deixar de mencionar que o sujeito largado em um colchão velho e surrado passava o tempo pintando com os seus dedos desgastados de estarem tanto em contato com as cores tóxicas enxaguadas pela tinta? Era esse o estado tanto da casa quanto do rapaz, estavam banhados num total ostracismo higiênico de ordem material e imaterial.

A imundície havia conferido uma aparência diferenciada a todo organismo e objeto que compartilhava daquele espaço, uma personalidade adquirida com o passar do tempo, com o passar dos pratos sujos negligenciados. Era da cozinha que emanava o aspecto mais marcante daquele ambiente mal cheiroso. Acredito que a essa altura o próprio lodo que germinava daquela pilha de pratos e panelas e comida velha e podre por sobre a pia, já havia sido abençoado com vida inteligente em um processo acelerado que ao invés de ter durado milênios, só precisou de alguns meses (Darwin e Oparin se sentiriam envergonhados nesse momento). Talvez, até mesmo um sistema político já pudesse estar em curso, uma colônia de seres que foram gerados da porcaria.

A fecundação do derradeiro e mais repugnante ato dos processos biológicos começa com a ação de comer. A inoculação do germe disfarçado em aromas e sabores que instigam o nosso apetite e saciam a fome e também o espírito de alguns poucos afortunados está inexoravelmente associada a uma cozinha no mundo contemporâneo. No final só resta uma matéria morta habitada por vermes decrépitos fervilhando orifício afora. O próprio banheiro daquela morada nem se compara no que se refere ao fedor e ao incômodo visual. Presenciar aquilo era pior do que ver bosta. Era como deglutir fezes no almoço em um dia bastante quente e incômodo. Nem o ato de se alimentar era agradável nessa casa. A cozinha estava com preguiça e literalmente pegou um atalho para o sanitário. Quando desaceleramos o carro para testemunhar um acidente, é como se estivéssemos nos certificando de que não somos nós ali estatelados no asfalto, como diria Neil Gaiman, ou de que não deveríamos estar ali naquelas condições ou simplesmente por que é deveras interessante ver a morte que nos ronda a todo o momento estampada em outras caras. A cozinha é a afirmação da merda que negamos para nós mesmos e aquela em particular refletia esse ponto de vista. Comer é cagar.

O repetido tilintar de pingos de torneira retumbando nos pratos e panelas ressoava irritante cozinha afora por todos os aposentos. Mas o que fez o sujeito relapso interromper o seu sono de litorais paradisíacos foi um barulho quase mudo de algo se remexendo no saco de lixo que ficava debaixo da pia. “Deve ser um rato”, disse para si mesmo enquanto limpava a remela de seus olhos e acariciava a parede onde havia escrito um pressagioso poema em prosa incompleto para a “menina dos seus olhos” que o deixou cego de amor por vários verões quando se despediu brutalmente de sua vida:

“Sua língua é uma constritora que se enrosca em minha mandíbula com a face apontada para os meus olhos submissos. O estalar dos ossos é um sinal para que a sua boca engula o meu crânio despedaçado. E de dentro da sua barriga reerguerei da minha casca idosa, desafiarei a morte como uma fênix e também dançarei nas chamas como um demônio travesso. Logo, te cobrirei como um casulo intumescido. Deixarei a chuva me lavar e quando o sol me desfizer como uma folha seca, uma brecha se pronunciará e você deslizará por sobre as flores como uma rainha recém-nascida. Até que o vento assopre suas asas embora e eu recolha sua matéria morta para os meus túneis cálidos...”

Ainda lembrava-se de uma história melancólica que ela havia sussurrado em seu ouvido sobre o amor do céu e do sol. Daquelas que são contadas por vozes melodiosas como se fossem cantigas. Daquelas que começam sem um começo e acabam sem um final. O sol havia desaparecido e os dias se tornaram nebulosos e amontoados de nuvens no dia seguinte. O céu não cessou de chorar por dias incontáveis, isso na aurora dos tempos. Quase não havia luz e calor, só o negrume da noite e o frio úmido de chuvas torrenciais. Oceanos e rios brotaram dessa era triste e lamuriosa. Um dia, o céu decidiu parar de chorar e para a sua surpresa, avistou o sol incólume na vastidão do espaço. “É preciso desobstruir o céu nublado para que paremos de chorar”, a moral seria algo desse gênero se é que havia alguma intenção naquelas palavras.

Dias e mais dias se passavam e em todas as madrugadas sem exceção, aquele barulho escapava pela cozinha interrompendo o sono do sujeito relapso. O barulho de algo se esperneando no saco plástico dentro do lixeiro congestionado se tornou um hábito tal, que o sujeito já o havia ignorado. Mal dava atenção ao fato de aquilo estar acontecendo com mais freqüência e até mesmo durante o dia. Também não lembrava a última vez que havia se sentado para comer na cozinha ou lavar pelo menos um copo para beber água. Se havia ratos perambulando livremente pela casa ele não estava dando à mínima. Pelo menos havia companhia naquela casa grande e vazia. Já que os cupins e as baratas decidiram tirar férias daquele lugar emporcalhado, o que era estranho, pois em dias comuns esse seria o próprio paraíso para os insetos carniceiros. Há alguns meses moscas e formigas também já não eram mais vistas por lá. O que ele não sabia é que na verdade esses bichos fugiram da casa, fugiram de medo. Era sufocante para eles suportar aquele fedor exótico proveniente daquela pia enlameada de lodo cáustico.

Toda a cozinha agora tinha esse bafo monstruoso que se tornou o próprio cheiro do rapaz e se atirava em todas as direções num raio de vários metros até mesmo fora das dependências da residência. De alguma forma inexplicável o rapaz era tão despreocupado e indiferente àquilo que pouco fazia diferença. Não havia percebido que o cheiro havia moldado a sua própria aparência de uma forma tão eficaz que se uma pessoa o visse por acaso, o confundiria com um monte de merda cagado repetidas vezes pelo mesmo ânus infeccionado de tanto defecar. Uma diarréia humanóide, sem exageros. Só percebeu a gravidade da situação quando enfim foi passear pela cidade depois de muitos dias de enclausuramento naquela masmorra. Os animais não se aproximavam de sua pessoa e algumas pessoas tiveram acessos de nojeira tão profundos que vomitaram umas às outras. Repulsa física no grau mais absurdo que se possa ter noção. “Basta”, disse para si mesmo.

Entrou na cozinha empunhando uma garrafa plástica de água sanitária em uma mão e na outra um facão que ele usava para se defender de cobras e outros animais quando resolvia acampar. Não sabia ao certo o porquê de ter levado aquele facão, foi mais uma atitude impulsiva, instintiva, auspiciosa. O lugar estava mudado. Era como se um nevoeiro houvesse fincado uma bandeira naquela cozinha declarando abertamente o seu domínio, como em um terreno onde as brumas assolam com eventos sombrios e histórias soturnas. Estava morno lá dentro e algo parecia borbulhar das panelas sobre a pia. Sua pele começou a coçar e seus olhos lacrimejavam em ardentes salpicos de vapor mal-cheiroso.

Enquanto jogava água sanitária e bactericida para esterilizar aqueles azulejos vestidos com uma gosma cinzenta e esverdeada, o saco de lixo se sacudia em reprovação àquela ofensa à imundície. O pavor tomou conta do sujeito relapso, mas ele caminhou cuidadosamente até o lixeiro. Tinha certeza de que havia algo se esgueirando por ali, o observando, e não era um rato. Mirou aquele bolo de lixo e até conseguiu reconhecer uma lasanha quase secular que havia jogado pela metade no topo daquela massa quase uniforme de refeições desperdiçadas. Sentiu nostalgia, uma sensação familiar e quase tão pesada quanto o amor. Esqueceu do perigo iminente perdido em memórias tenazes de uma discussão sobre uma refeição pré-pronta. De repente, um braço magricelo e peludo com garras afiadas se atirou de dentro do monturo e agarrou firmemente o pulso armado do rapaz distraído.

Um combate violento se desenrolou. A prataria se espatifava, talheres fincavam nas paredes que escorriam um líquido tão consistente quanto melaço, armários despencavam, a despensa se quebrava e o sujeito relapso lutava desesperadamente por sua vida contra aquele homúnculo esquisito e asqueroso que estava hospedado sob a pia da sua cozinha. Conseguiu se desvencilhar daqueles braços tão maleáveis quanto tentáculos e despejou todos os produtos de limpeza que encontrava espalhados pela casa sobre a torpe criatura. Mal havia notado que seu braço pendia sem vida devido ao ataque fulminante do monstro do lodo. Estava bastante escoriado e encontrava-se no chão enquanto a criatura caminhava enfraquecida devido aos produtos desinfetantes, em sua direção. Estava determinada a tomar conta daquele lugar. Para isso deveria exterminar o seu último morador.

O duende abissal expressou um sorriso tão sublime quanto um esboço de algo que o próprio Satanás faria quando se deparasse com a vitória quase certa sobre Deus. Uma felicidade tão eminente que estaria consequentemente à sombra de um vazio autodestrutivo. Estava tão entretido na véspera daquele evento tão assustador quanto sedutor, que mal percebeu os potes de tinta que o sujeito relapso e abatido arremessou em suas órbitas e focinho. Um uivo lancinante se projetava de algo semelhante a uma garganta e o sujeito aproveitou o momento para desferir-lhe um golpe com um rodo que estava encostado ali em algum lugar. Atacou furiosamente até que só restasse uma poça de lodo mutilada. Despencou exausto no chão e em meio a vários pensamentos do tipo “preciso de um balde, uma vassoura”, “como poderei pintar com um braço inútil?”, ele percebeu que antes de mais nada precisava de um banho.

Para Igor e para Lara Celi, por Igor Bacelar

Arte de Dave Mckean