quinta-feira, 25 de março de 2010

Eu, Eu mesmo e Irene

Não sabia dizer se era dia ou noite, nunca sei. Mas, evidentemente não havia sol algum no céu nebuloso e turvado. Também não havia ninguém ali naquelas ruas vazias de prédios carrancudos, nem mesmo o soar da brisa de dias nublados. De fato, não saberia dizer se era quente, frio, se o dia estava ameno...

Estava só e essa parecia ser a única verdade coerente naquela cidade adormecida. Havia uma constante impressão de que algo estava doente, no meio de todo aquele preto e branco noir. Havia um pulmão cancerado que tossia um suco esverdeado, viscoso e fétido. Eu estava com aquilo agarrado em meu corpo, mas não se via nada. Era como se eu fizesse parte daquilo.

Como em um set de filmagem as pessoas começaram a surgir de seus postos. Alguns rostos familiares, íntimos, outros desconhecidos. Algo no comportamento deles me incomodava, aquela extrema indiferença, aqueles indivíduos pétreos e plásticos e inumanos. As ruas se ocuparam de uma porção deles, como formigas em um formigueiro eles começaram a marchar. Na multidão daquelas múmias, daquelas peças de um jogo de Damas macabro, vi Irene se afastando com uma leve pitada de sadismo no canto da boca. Os olhos pareciam tristes e não condiziam com a perversão de seus lábios ressequidos. Ela desapareceu na neblina, no final de uma linha de trem carcomida, mais pela maresia do que pelo uso. Veio como um raio que clareia o céu, se foi como um trovão que nos perturba a tranquilidade.

A sensação de solidão parecia crescer ainda mais e cada rosto que se apresentava diante de mim revelava uma indiferença que crescia conforme o meu desespero fervilhava em meu estômago. Havia algo de uma natureza torpe que enevoava as ruas e os casebres, as expressões das pessoas. O que eu chamei de solidão deu lugar ao medo, uma persistente sensação de pânico, uma fobia patológica. Tive a impressão de que o pulmão que tomava conta daquele lugar estava sofrendo de uma crise asmática, como se estivesse a espirrar e aquilo se espalhasse por tudo.

Não havia como correr, ou gritar, as paredes e as pessoas eram como a sombra de um viajante, uma companhia onipresente e silenciosa. O catarro invisível me imobilizava, me calava, molestava o meu corpo, eu era um mero espectador daquela lascívia. Dessa vez, eu fiquei tentado a ver de quem eram as mãos que me espremiam contra o asfalto insípido. Aquela figura espectral que ejaculava violentamente em minha alma era nada mais nada menos do que...

Eu mesmo!

Levantei da minha cama e pus as mãos sobre meu rosto suado. Fui à cozinha tomar um pouco de água e tive a impressão de ver alguma coisa se movendo na escuridão dos aposentos. Temos esse mau hábito de nos assustarmos com sombras e me acalmei. Esqueci de que para haver sombra deve haver um foco de luz, me desloquei pela penumbra daquela casa fria até o sofá e me deitei.

Agora eu sabia que era noite, eu sentia o cheiro do meu suor, eu via as cores das paredes iluminadas pela tevê que acabei de ligar e o barulho das explosões de algum filme de ação. Mudei de canal e passava alguma notícia sobre a faixa de Gaza, algumas devastações ambientais e política internacional. Foi nesse momento que eu comecei a sorrir. Estava ansioso para que o sono me visitasse de novo e me trouxesse todas aquelas sombras. Talvez um dia eu consiga chegar até o foco de luz.

I.B.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Chuva de pedra


Era de praxe... Toda vez que ele atravessava o portão de sua casa, mal se viam os seus olhos, sempre voltados para o chão esburacado da rua. Os cabelos, espessos, cobriam-lhe o rosto e o afastavam da mesquinhice ocular que ocupava a vizinhança. Mas, mais do que evitar os olhares alheios, eram uma forma de evitar o seu próprio olhar para qualquer coisa que não fosse o chão sinuoso e suas pedras. Ele gostava de chutá-las.

Fazia diversos joguinhos com as pedras, oras imaginava que estava em um gigantesco campo de futebol, onde a pedra seria uma bola, oras simplesmente as chutava para distrair sua caminhada tediosa e às vezes extenuante. Haviam pedras de diferentes formatos e tamanhos. As pequenas eram as mais complicadas de se brincar, pois, qualquer depressão por mínima que fosse, as desvirtuava de seu percurso. Ás vezes, era difícil controlar a força do chute, forçando-o a correr em direção à pedra, o que descaracterizava o passatempo, que primava pela economia do esforço físico e (principalmente) evitava que seus olhos tivessem um ângulo de abrangência que o forçassem a ver qualquer coisa que não o chão.

A parte mais divertida desse hobbie peculiar, era quando ele chutava pedras maiores em direção à fissuras em alguma parte de seu trajeto. Elas eram bastante pesadas e se locomoviam muito pouco, o que o forçava a caminhar mais devagar e mais concentrado na sua atividade. Quando conseguia enfiar uma dessas em um buraco, ficava contemplando o fato, plantado no chão com uma imobilidade cadavérica, como se fosse a surpresa que precede a euforia miraculosa de um jogador de golfe que acerta um buraco há cinco quilômetros com uma tacada só.

O olhar sempre fixo na piçarra.

Em dias de chuva, ele se desvencilhava de seu hábito. Pegava um enorme guarda-chuva que cobría-lhe mais que completamente, diria que caberiam tranquilamente dez pessoas sob ele, sentava-se em um banco de praça qualquer da vizinhança e mirava o impacto dos pingos de chuva nas ruas empoçadas. O cheiro de terra molhada e o som percussivo da água, o tranquilizavam quase que hipnoticamente, como um mantra cantado por uma voz bem grave e intimidadora, uma sensação paradoxal quando se trata do timbre suave que a chuva provoca ao cair no chão arenoso e lamaçento. Mas, era assim que ele ouvia, e era assim que aquilo acalmava a sua ansiedade constante, de pulmões úmidos e domados pela graça de simples partículas que caem do céu.

A visão atenta às poças transbordantes.

Num desses dias sem chuva, a maioria deles não chovia, ele chutou uma pedra esquisita e até engraçada, acredito que um fragmento de meteorito, um aerólito, em direção a um buraco bem fundo, e eis que havia um obstáculo diante do seu exercício lúdico. Um par de pés bloqueou sua passagem!

O suor pingava-lhe da testa, sua boca apresentava espasmos involuntários, suas pernas estavam trêmulas. Sentía como se um peso enorme esmagasse seus pulmões, impedindo-o de respirar. Foi tomado de um pavor que não sentira até então, em seus passeios líticos, notadamente terrenos. Como que sem saber o que fazer, em um ato de desespero, o rapaz, então, olhou para cima.

I.B.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Retrato

Alguns livros repousavam sobre a mesa. A luminária começava a falhar, despejando uma luz insegura sobre as páginas abertas, manchadas pelo vinho que pingava do meu queixo. Não me importava. A única coisa que verdadeiramente me interessa nos livros são as palavras – muitas vezes regurgitadas por um ser sem rosto e sem talento, de cuja face borrada se abre uma fenda a que insiste chamar de boca. Grunhidos, somente, saem dali. Por vezes, apenas um odor insuportável. Prefiro fechá-la, essa boca purulenta, quando sinto as primeiras gotas de saliva atingirem o meu rosto. É o prenúncio do escarro que aquele não-rosto me lançou.

Estava fatigado como a há muito tempo não me sentia. Meus olhos doíam, minha cabeça, minhas costas. Levantei o rosto para descansar. Estava na mesma posição havia muitas horas.

Inadvertidamente, repousei meus olhos sobre um quadro pendurado na parede branca do quarto. Podia ouvir dentro da minha cabeça o grito de agonia emitido pela figura pálido-azulada, de face deformada por grotescas protuberâncias que emergiam da sua fronte. Estavam prestes a explodir essas protuberâncias, como um vulcão que entra em erupção após longos anos de sono. Não suportava tanta agonia, não naquele momento, não naquele dia. Empregava toda minha força de vontade para desviar o olhar daquele ser angustiado. Não conseguia... Foi quando percebi pequenas pétalas que lhe caíam dos céus sobre o rosto, cobrindo os vulcões, aliviando a minha própria dor. As pétalas eram negras....

Somente então notei a fumaça espessa que bruxuleava ao meu redor, impregnando a atmosfera com o cheiro forte do tabaco. Lembrei-me do cigarro que segurava entre os dedos. Já começava a me queimar a mão. Larguei-o ao chão, displicentemente. As cinzas se espalharam sobre o piso de madeira já imundo pela gordura que soltava do meu corpo. Alguns pratos de comida velha e podre permaneciam esquecidos no meu quarto. Um ou outro copo, outrora preenchido pelo mais nobre vinho. Roupas não me faltavam, bastava recolher do chão. E os sapatos, os sapatos deixados no canto do quarto exalavam um cheiro horrível depois de tantas semanas de uso.

Nesse instante preciso, percebi que havia deixado a vida passar por mim sem dar-lhe a devida atenção. E me desesperei...

quinta-feira, 4 de março de 2010

Idéia Fixa

Deitado na cama após algumas muitas cervejas, procurava insistentemente por palavras que me lembrassem algo bom. Juro, pretendia realmente escrever um conto de fadas, com um céu azul e sem nuvens, com música e dança, e alegria! Só para variar. Um conto em que o príncipe era loiro e tinha olhos azuis. A princesa era uma donzela, e com um sorriso virginal saudava os servos que lhe recolhiam os excrementos. Hm, essa imagem não foi assim tão bonita... Pardonez moi, s’il vous plaît.

Fato é, essas palavras adocicadas, elas não vinham... Minha cabeça girava, fazendo ciclos não muito bem definidos, o que intensificava a sensação de mal-estar. Talvez ainda estivesse um tanto ébrio. Definitivamente, hoje não era o dia para escrever...

De repente, uma idéia fixa! Há, mas não posso revelá-la. Peço desculpas a vós, meus queridos. Tenho mais o que fazer: vou atrás da minha idéia fixa, executá-la. A essa altura, vocês já devem ter uma boa idéia de quem ou o quê passeia na minha mente nesse instante... É, hoje não é dia de escrever...

quarta-feira, 3 de março de 2010

Sobre a fome, a despensa e o proprietário

E então, aquele que nasceu como homem, com a sua humanidade plena, pereceu como um animal mendicante...

O espírito corresponde à carne meus caros, a carne também assola a alma. Somos escravos do nosso estômago, obcecados pela sensualidade e penitentes das leis, como vi recentemente em uma publicação, A Perspectiva Estética do Rei Bosta,

"A lei e o desejo, ao mesmo tempo em que operam as suas funções de forma diferenciada, mesclam-se de tal forma que, ao mesmo tempo em que se conflitam, negociam-se. A lei e o desejo são amigos em guerrilhas e inimigos em missões de paz. O que existe é um intermédio que transita entre a lei e o desejo, e é surgindo desse elo que se revela obscuramente o Rei Bosta. Por que uma revelação obscura? Por que revelação quer dizer toda a capacidade do sujeito conseguir se emancipar por se superar dos seus problemas através de sua experiência estética; e obscura por que esse mesmo indivíduo, por ter a lei limitando e coexistindo com seus desejos, impossibilita-o de atingir a sua total emancipação. Por que Rei Bosta? Porque o Rei se sente dono absoluto do Império de seu prazer; e Bosta por que o indivíduo tende a se frustrar ao perceber que não consegue atingir o ápice da sensação desse prazer devido à lei. "

Somos inegavelmente um bando de soberanos de merda, elegidos única e exclusivamente por nós mesmos e legitimados por nossa excruciante jornada eleitoral. Temos uma ideia muito elevada de quem somos e quando nos capturamos diante de um erro, apenas o reforçamos e oprimimos os súditos e a nós mesmos através de nosso leque infindável de práticas totalitárias. Vivemos sob a ditadura do ego, do estômago, da matilha esfomeada, sem um macho alfa definido para nos guiar. Apenas o desejo e suas limitações, vícios, virtudes, mordomias, problemas na colheita, raposas no galinheiro...

"Enfim, o Rei Bosta é um milionário pedindo esmola, e um esmolé se gabando por seu excesso de fortuna."


O prazer é insustentável como um gozo no ato sexual e a frustração é a sombra que estará ali sempre que houver um foco de luz por menor que ele seja. Podemos dividir a tenebrosa condição do ser em uma tríade: desejo, objeto e concessão. Essas seriam as faculdades da existência em sua mais pura representatividade.

O que fazer então, diante dessa problemática desconcertante? Agir como um jardineiro e podar até mesmo as flores mais belas de seu jardim para que elas não invadam o quintal do vizinho? Não semear um grão sequer em lugar algum? E se eu sentir fome e não houver o suficiente para mim, devo mendigar ou roubar? E se eu não tiver um teto seguro sobre mim, onde posso construí-lo? Eu quero que essa ontologia vá ao caralho! Preciso de um banho! Meus poros e minha necessidade estética estão suplicando para mim, até me sinto um Rei por deter dessa capacidade de nutrí-los com uma simples e banal ação cotidiana.

E então, aquele que nasceu como homem, com a sua humanidade plena, pereceu como um animal mendicante... e um murmúrio quase que insonoro.

"- Como um cão! - disse ele; era como se a vergonha devesse sobreviver-lhe."

I.B.

Trechos de A Perspectiva Estética do Rei Bosta por Vina Torto e O Processo de Franz Kafka

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Golden Clouds

The sky's incredibly beautiful today. It's golden! And invades my room filling it with its golden light! And I smile at it and the rainbow far behind the clouds, trying to scape my eyes, hesitatingly smiles back at me. It's all so beautiful...

But something is dark inside. Just as the clouds closest to the horizon, my thoughts get darker and darker by the second as I try to reach the tomorrow. Keep asking myself what will it be like, the tomorrow. The rainy clouds give me a clue....

From golden explosions of light to dark rainy clouds. Just a few seconds separate such different realities. So easy to cross the borderline. I wish it was a bit harder.... The other side is somewhat colder. But I don't feel its blades on my skin. Feel'em in my flesh reaching for my bones, my soul... What happens if I let it...?

Wish I could talk. If you had not shut me up with your words I'd probably be screaming for help right now. It's so dark. The light's gone. I feel dizzy and sleepy. I might be a little drunk yet. Think I'm just gonna close my eyes and let it go. Why fight back...?

Have a good night you.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Papo cabeça


Êxtase! Foi o que senti quando revirava suas tripas em busca de algo, como quando procuramos desesperados por algum objeto em gavetas totalmente desarrumadas. Não encontrei nada. Apenas orgãos e líquidos viscosos e sangue... Muito sangue! Me disseram que eu encontraria a verdade, que ela estava no âmago das pessoas, a essência ou algo do tipo. Tudo bem, tudo bem... Levar ao pé da letra propositalmente para me divertir com tripas é um tanto cômico e egoísta da minha parte. E esses são os dois elementos que eu sempre misturo na receita do meu cotidiano. Sempre rubro! Mas hoje, eu me senti mal!

Não suportava a ideia de ter trucidado aquela mulher, isso estava me atormentando. Decidi me livrar de todas as roupas e ferramentas que utilizei na sua execução. Tentar expurgá-la de meus pensamentos. Foi em vão! Os dias se passavam e eu passei a evitar todos os lugares por onde passei até chegar à casa dela, que foi onde cometi o crime. Dessa vez um crime legítimo, pois eu estava a pagar por ele. O problema de eu não conseguir me livrar daquela mulher, daquela alma penada, era que eu ainda era eu. Carregaria eternamente aquele fardo a não ser que...

Decepei ambas as mãos, pois foi através delas que eu apunhalei e estripei a mulher. Por alguns dias a dor me fez esquecer, mas então ela voltou a me atormentar. Lembrei que para chegar lá havia usado minhas pernas... Decidi decepá-las também! Vários dias se passaram e eu não conseguia me livrar daquela sensação pós-homicídio que nunca havia sentido antes. Enfim, eu perdi o meu cabaço! Não sou mais um insensível virginal! Acho que a busca pela tal verdade que tanto ouvi falar acabou de avançar algum capítulo da minha história. Foi naquelas tripas que eu encontrei um pouco de humanidade dentro de mim.

Hoje, sou apenas uma cabeça imóvel, sem tronco, braços, pernas, depositada em um sofá diante de algum DVD do Tim Burton que se repete indefinidamente com o passar das horas... Descobri tarde demais para aproveitar minha sensibilidade natimorta. Estreei o tapete vermelho das emoções sem ter o direito de usar um terno. Todas essas revelações tem o seu preço e eu paguei o meu!


Pintura de Guilherme de Faria

I.B.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Relatos sobre uma noite de domingo

Há alguns minutos o meu companheiro canino atravessou porta adentro com uma expressão assustada. Os animais tem uma sensibilidade muito maior quando se trata de eventos oriundos da natureza, talvez por que estão mais ligados ao cerne da coisa. Ele pôde ouvir os trovões rugindo dos mares e o cheiro de chuva se aproximar do continente. É domingo e chove.

O ar melancólico dessa noite acompanhada por um chá de boldo quente foi roubado pelos raios e trovões que simulam uma guerra nos céus. Eu consigo sentir o calor dos clarões, consigo sentir o ar melancólico fugir da noite e outra sensação se apossa de mim partindo do estômago. Não é medo, é mais como uma espécie de excitação. Só me incomoda o barulho cortante que é anunciado pelo clarão. Ele apunhala as lástimas da chuva, apunhala as minhas próprias lamentações.

Explosões sobre as nossas cabeças, e nossas casas, nossos fortes, parecem tão obsoletos diante desses bombardeios. Está queimando! Eu sinto minha carne e uma ânsia, uma expectativa de que meu couro irá chamuscar pelas lanças de fogo que são atiradas em nossa direção. Eu abro a janela... Não é o suficiente... Eu me jogo para fora no meio da chuva, não tenho medo de me molhar ou parecer um louco. Quero sentir o frio e o calor em comunhão. Quero expulsar um resquício de uma criança perdida e assustada, quero enfrentar também o meu medo animal. Vou sacar essa garrafa de vinho imediatamente!

Estou entregue à chuva, raios e trovões... Pois, depois de tanto tempo o domingo decidiu me visitar, como bons e velhos amigos.

I.B.

Uma história de ninar


Era uma vez...

A força que atingi a nuca da merda daquele palhaço foi tão grande que sua coluna cervical partiu ao meio como manteiga! Não podia deixar que ele fosse o responsável por alargar ainda mais o sorriso daquelas crianças. Tão encantadores... Eu poderia fazer isso com a minha navalha, rasgando seus lábios até o fim de suas bochechas. Iriam sorrir eternamente, mesmo durante toda a dor que estariam sendo acometidos. E o mais belo de tudo é que minhas mãos seriam responsáveis pelo enlarguecimento de seus sorrisos! Podem me chamar de assassino, sádico, mas prefiro me considerar um artista. Reproduzo a arte através da dor. Minha dor, nossa dor. Um pintor de tragédias, um escultor do sofrimento, um ator sem máscaras.

Entrei no salão e haviam vários balões e pirralhos, e pais, e conversas chatas sobre como eles investiriam tal recurso em quê e etc. Meu irmãozinho estava logo ali com seus amiguinhos e eu não poupei tempo. Com bastante cuidado eu comecei a balear todo mundo com a semi-automática que havia pego emprestado no quartel onde eu servia, sempre preocupado em não atingir o meu irmãozinho. Acho que em meio a todo aquele frenesi eu acabei me excedendo um pouco e atingi o meu irmão na cabeça, papocando os seus miolos para todos os cantos. Devo confessar-lhes que foi o momento mais infeliz da minha vida! Caí em prantos e por alguns momentos pensei em estourar os meus próprios miolos a ter que conviver com aquele crime... Eu só queria dar-lhe o presente mais magnífico que um irmão poderia lhe dar, algo memorável: uma boa história para ser contada para seus filhos.

Desenhos de Mark Ryden

I.B.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Cama de gato


Era como se não houvesse chão nenhum sob meu corpo adormecido. Sentía-me como se houvesse um piso fluido ou nem mesmo nada ali, como se flutuasse sobre algo quase intangível, sobre um céu vazio pincelado de nuvens por quase toda a sua extensão. Eu só sentia frio, um frio que era abastecido pelo vento que batia em minha face rispidamente. O vento gritava em meus ouvidos forçando-me a abrir os meus olhos para encarar a causa da sua própria lamúria.

O que veio em seguida foi uma sensação nauseante acompanhada de uma vertigem desesperadora que só não devorara minhas entranhas por fazer parte das coisas de qualidade abstrata, mas, foi uma questão de tempo até que meu eu completo reagisse àquilo. Com certeza o que não fazia parte dessa categoria de coisas (abstratas), imediatamente entrou em estado de torpor, forçando o meu corpo à desmaterializar-se por completo. O espanto que eu levei se alastrou para o corpo, ou fora o contrário? Talvez o corpo e a mente tenham reagido concomitantemente, sem intervalos perceptíveis.

Eu estava sobre a minha cama, coberto por um grosso edredão, no meio da noite, há alguns milhares de pés do chão talvez, há alguns milhares de pés do que convencionamos de realidade.

A cama se locomovia horizontalmente como uma espécie de planador bem veloz. Era como se a verdadeira função dela fosse na verdade voar e não servir de leito para os "sonhadores". Demorou um pouco até que eu me acostumasse com o fato de estar sendo transportado para não sei onde, em cima da cama que eu durmo desde criança. Com o tempo passei a oferecer-lhe a mesma confiança que eu lhe concedi todos esses anos... meu recanto, minha cama, meu conforto, onde eu repouso não somente o corpo, mas a minha alma.

A lua estava cheia e no momento que uma enorme nuvem a cobriu e a escuridão se apossou de toda a vastidão do céu, como se não bastasse o baque inicial que me custara a conseguir ficar tranquilo com a idéia de estar planando em cima de uma cama voadora, nós começamos a cair, trazendo à tona toda aquela sensação aterrorizante. Não posso dizer que lembro exatamente de como foi que aconteceu, mas eu já estava no chão, era escuro demais para distinguir onde eu estava. Estava sobre uma espécie de pilha de ursos de pelúcia (foi o que imaginei no momento), repleta do zunido de centenas de moscas, e cheirava à sangue. Comecei a ouvir alguns gemidos meio nasalados que pareciam com algo homônimo à miados e vozes de pessoas. Pude ouvir algumas tosses muito fortes regurgitando algo de odor horrível. A nuvem fora soprada da frente da lua como uma cortina revelando a sua atração principal, ela se mostrou ainda mais luminosa do que antes e revelou o que seria aquele lugar.

Estava sobre uma montanha semelhante aos depósitos de lixo das cidades. Ao invés de lixo, haviam enormes bolas de pêlo e corpos de gatos sem cabeça. Estremeci quando fitei as criaturas que estavam emitindo aqueles sons. Eram gatos com cabeça de chineses! Aqueles olhinhos puxados, aqueles pescoços costurados nos troncos dos gatos, e eles cantavam para a lua, me ignoravam naquela pilha morta de cadáveres decapitados. Enquanto uns prosseguiam com aquele cântico macabro, outros se punham a vomitar o que eu imaginei serem bolas de pêlo, na verdade o que eles expulsavam de seus estômagos era uma espécie de animal peludo e viscoso que se contorcia espasmodicamente produzindo sons agudos que assemelhavam-se a risadas.

Corri imediatamente aonde estava a minha cama e tentei em vão fazê-la levitar. Passei horas e horas tentando convencê-la a tirar-me dali, mas em vão. Provavelmente a insanidade estava a se apossar de mim, é indiscutivelmente impossível dialogar com uma cama. Me deitei na pilha de gatos decapitados e mirei as estrelas no céu, já não me incomodava mais com as milhares de moscas que compunham aquele túmulo gigante. Elas estavam por toda a parte, insistentemente tentando entrar pelos meus ouvidos, nariz, boca, era muito difícil respirar. As estrelas pareciam tão vistosas naquela noite...

Passeei por entre aqueles montes de corpos como um destemido viajante, sentindo-me um verdadeiro desbravador. Mas, não havia nada além daquelas aberrações por todo o horizonte. O hino para a lua parecia crescer conforme a noite se aproximava da madrugada, mergulhando cada vez mais no breu, como se fosse o último beijo, o mais intenso, que precede aos raios de sol que fulminarão com toda aquela cantiga noturna. Afinal, dizem as más e boas línguas que a noite é mais escura antes do amanhecer. Olhei para uma poça de sangue sob minhas pequenas patas e vi a face de um menino chinês sendo refletida. Imediatamente comecei a retrucar alguma melodia.

I.B.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O cemitério dos vagalumes


Poderia começar essa história descrevendo a campina esverdeada onde ele estava sentado, onde ele sempre sentava para ouvir os grilos, os pássaros, o chacoalhar da relva soprada pelo vento e todos os sons que compõem uma área afastada dos conglomerados urbanos. Deixarei essa tarefa para você.

Era de costume sentar por ali e apenas ouvir os diversos sons que eram emitidos das gargantas, traquéias e tórax, do vento, dos insetos, dos pássaros, do bater de seu coração. Costumava descrever isso como "o silêncio tagarela" ou "a voz do silêncio". E naquela campina, era o único lugar onde ele podia ouvir o que eu considero uma das mais importantes fatias do que chamamos de vida: o próprio pensamento. Um exercício inestimável, um oásis guardado dentro de si, um córrego infindável daquilo que nos supre com a "seiva da salubridade".

Mas, hoje ele se sentiu só.

Já era noite. Ele acabou adormecendo por ali mesmo, algo que nunca havia acontecido, pois, ele costumava voltar no final da tarde para sua casa. Quando abriu os olhos demorou um pouco para suas pupilas assimilarem a ausência de luz, e durante esse período via alguns pontos luminescentes indo de lá para cá, acendendo e apagando. Eram vagalumes. Milhares deles! Ocupavam quase toda a campina. Como se o céu estrelado houvesse descido à terra para mostrar que elas, as estrelas, não passavam de vagalumes sempre a piscar. Mais adiante, havia uma espécie de marcha nitidamente se destacando de todos os outros. Uma fila de vagalumes que estranhamente imbuía a eles um caráter humanizado, racional, algo premeditado por um bando de animaizinhos minúsculos. Ele decidiu acompanhar a procissão.

Havia uma única árvore em toda aquela vasta planície, e era grande, imensa. Curiosamente nunca a havia visto por ali. E os vagalumes se postaram em sua copa, em seu tronco corpulento, em seus ramos e galhos, criando um aspecto de enfeites natalinos. A presença dos insetos luminosos destacava nas proximidades da base do tronco uma mensagem escrita à navalha: "Estarei além da planície". Seu estômago correspondeu àquela mensagem da mesma forma que dois amantes sentem-se ao se ver depois de muito tempo. Uma ânsia de apreender aquilo tudo para si em uma fusão de sensações e trocas sinceras das coisas mais bonitas que existem dentro de si. Um verdadeiro processo antropofágico. E ele deglutiu cada letra talhada na casca da árvore. E como um fenômeno puramente orgânico, ele correspondeu à mensagem.

Nunca mais fora visto por aquelas bandas. Como se em uma tarde qualquer, fora ao supermercado e nunca mais voltou.

Desenhos do filme Grave of the fireflies

I.B.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O viajante estacionário



Era um fim de tarde quando uma linda garota de olhos calmos, desconfiados, singelos, chamou a minha atenção para fora da janela do veículo em que nos encontrávamos. Havia uma espécie de estação de trem no meio do nada, não haviam nem mesmo trilhos, provavelmente um resquício de décadas atrás que foi mantido como patrimônio histórico. O que mais me intrigou foi a presença de um senhor trajado à moda antiga, aparentemente aguardando alguma coisa por ali.

Não me recordo bem quantos dias se passaram desde aquele dia, mas passei denovo por ali, desta vez sozinho. Ao me lembrar da tal estação, decidi espiar pela janela do ônibus. Tive uma constatação assustadora. Para minha surpresa, o velho ainda estava lá. Usando os mesmos trajes, com a mesma aparência, o semblante taciturno, o corpo firmemente postado no chão, assim como uma estátua. Senti uma pontada gélida na espinha. Ao chegar em casa, não conseguia tirar aquela cena da cabeça. O "viajante estacionário", era como eu o chamava em minhas introspecções.

Exatamente quatro dias depois, já era de madrugada e eu estava voltando de algum lugar que não me recordo bem, é até mesmo irrisório saber disso. Por pura curiosidade, decidi pegar a estrada que levaria até a tal estação. Não esperava encontrar o senhor àquela hora. Mas, aquela velha tendência de futucar a realidade, de saborear o absurdo quando só provamos do velho e rançoso cotidiano, me seduziu libidinosamente até o lugar. Pobre do absurdo, deve estar empoeirado. Entendam o absurdo, como aquilo que é insólito e transcende o que chamo de realidade pré-pronta.

Bom, a essa altura vocês já fazem uma idéia do que eu vi, ou melhor, de quem eu vi. O velho postado naquele mesmo lugar. Decidi descer do carro e pôr um fim naquilo que tanto me atormentava dia após dia. Enquanto me aproximava do velho, ele me parecia uma montanha, uma rocha gigante, antiga, mas polida pelo impacto ininterrupto da água, que com o passar dos milênios constroem um aspecto suave à superfície da matéria pedregosa.

- O que faz aqui a essa hora, meu bom senhor?

O velho dirigiu sua face, que estava mirando um trilho imaginário ou qualquer coisa do gênero, para mim. Quase que tão silencioso quanto uma pedra ele me respondeu: - O trem - o timbre de sua voz era como uma vibração sísmica, o núcleo da terra em prantos, dotado de uma melancolia típica dos eremitas do monte mais alto e solitário que poderia existir. Praticamente não se ouvia nada em sua voz, se tateava no vento. Ele mostrou um passaporte azulado com as seguintes palavras: "Lugar nenhum para algum lugar. Data e horário indeterminados do respectivo ano. Não aceitamos a devolução de sua paciência."

- Não passam mais trens por aqui há décadas. Essa estação está fechada há mais de quarenta anos!

Eu havia feito algumas pesquisas sobre o lugar. Não era mais viável para o governo utilizar-se dessa linha férrea, pois haviam outros meios mais eficientes de transporte que reduziam as despesas do Estado. Eles desmantelaram toda a linha de trem e preservaram apenas a estação, que não era tão grande assim e por isso não prejudicaria a expansão física das construções urbanas. Estávamos lá, eu e o velho, no meio do nada.

Ainda passei por ali algumas outras vezes e em um certo dia, o velho não estava mais lá. Não havia nenhum sinal do velho, provavelmente ele se cansou e voltou para sua casa, ou morreu em sua eterna espera e alguém levou o seu corpo. Talvez fosse apenas um louco que fugiu de um hospício, um velho que não tinha o que fazer, um aposentado entediado, um filósofo decadente, um budista de plantão em trajes não convencionais, um passageiro satisfeito de um trem invisível.

Desenhos do filme My Neighbor Totoro

I.B.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O amor é torto


Imaginem uma mesa de bar onde estão sentados dois camaradas, ambos de sorrisos orgulhosamente amarelados. Um deles usava óculos escuros. Essa era a sua máscara. O outro, possuía cinco brincos divididos inexatamente em ambas as orelhas. Essa era a sua máscara.

Imaginem agora um bar repleto de pessoas, onde todo aquele burburinho era uma espécie de auto-afirmação do desinteresse das pessoas pelo que está além de seus próprios narizes empertigados em muco. O que quero dizer é, que apesar das pessoas e do forte cheiro de urina vindo do banheiro, não havia nada mais vazio, inodoro e silencioso do que aquele lugar.

Um deles estava entretido com a preparação de um cachimbo. Ele praticamente acariciava o fumo e cuidadosamente manipulava aquela matéria orgânica inanimada, que forneceria sua estaticidade vívida para aquele indivíduo. Aquela cena quase romântica entre ele e o fumo me fizeram imaginar uma trepada entre um ser humano e um cachimbo. Um cachimbo humanizado melhor dizendo.

O outro construía, em suas reflexões, pensamentos em impressões das coisas mais banais que faziam parte da sua vida. "...Vagalumes flamejantes se projetavam diante de mim pelo céu castigado pelas luzes da cidade. Ventava forte. O mar rufava ininterruptamente e provocava uma comoção interessante no bailar das ondas. Podia sentir o espírito ancestral levantando de seu túmulo cinzento. E eu fazia parte daquilo. Essa é a nossa herança do primitivo e meu espírito respondeu às suas carícias. O espírito enfim existe, só é uma questão de pá e terra."

Ambos em seus mais íntimos casos de amor. Amor pelo vício. Amor pelo idílio. Ambos orgulhosos e certos de seu amor.

-O que pretendem fazer com o Movimento?

-Na verdade, o Movimento (torto) tem mais uma pretensão de chamar atenção as pessoas de que elas, por mais que vivam em busca de um ideal, a vida em si, sempre é feita em pedaços, pois no meio do caminho, sempre vamos mudando nossas rotas e nos entortando sempre. E que por isso mesmo, não nos cabe classificar, nem condenar as coisas como certas OU erradas, pois as diferenças, elas se misturam em meio à realidade, e nem sempre fazer o bem necessariamente nos leva a ganhar o bem. Roosevelt falou que o torto não é nem jovem, nem velho. O torto é o que todo mundo sempre foi, com a diferença de que ele não quer se iludir que a vida é tão retilínea assim como nos ensinou e nos ensina, a igreja e o Estado.

-O torto, então, é o velho com alma de criança.É um humano legítimo.

-E também uma criança com alma de velho.

-Acho que almas velhas são pedaços negativos do universo, são muito certos de si. Nada pode ser certo de si.

-Almas velhas não são necessariamente certas de si. Pelo contrário, meu caro amigo. Retomando... Ao mesmo tempo que ele é esperançoso por saber que o mundo só se torna rico graças a diversidade entre as pessoas, ele é triste por saber que essa diversidade não passa de uma subjetividade e a subjetividade jamais vai atingir o ideal que sempre pensamos em querer alcançar. Nesse sentido o torto é desesperançoso por saber que o ideal é apenas uma máscara que colocamos na gente. Aceitar a subjetividade (esperança); ideal inalcansável devido à subjetividade (desesperança).

Um dos camaradas, com uma determinação típica de um boêmio e seus trejeitos, retirou de sua sacola uma garrafa de vinho. Vinho barato. E pôs-se a tragar.

-É a condição que temos de racionalizar as coisas. Pura abstração referencial. Sempre me incomodaram essas exatidões, essas noções do ideal. Desde pequeno a matemática me intimida. O ideal é o easy way para compreender as coisas, ou para conviver com elas sem surpresas incovenientes. É também uma faca de dois gumes (o que é gume? fio? lâmina?).

-O foda é que nem sempre nossa racionalização nos facilita não é? Por isso que inevitavelmente temos que nos entortar.

-Pegar a estrada de terra.

Fez-se um breve silêncio entre eles por alguns instantes. O suficiente para uma golada no vinho e uma tragada no cachimbo.

-Percebi que há muita divergência dentro do Movimento.

-O Movimento torto é um movimento que se auto-destrói - sorri. - Ele não dá certeza de nada. Ao mesmo tempo que procura uma, deixa claro o tempo inteiro que ele não é capaz de encontrá-la. Isso faz com que os próprios membros que aderem a ele, não cheguem a um consenso entre eles mesmos.

-Soa como os conflitos dentro do partido comunista russo. Socialista... Sei lá! Bom, a verdade é que nunca estamos certos de nada, não é!? Mas, eu acredito que existe uma essência, uma fagulha onipresente no espírito de todos nós que é imutável.

-Eu também acredito. É como eu sempre digo: estamos em uma mobilidade enraizada. Você acha que essa imutabilidade se chama deus?

-Não. Deus não está em nós, está Entrenós. É a cola, o plug, o espaço vazio entre dois grãos de areia. Aliás, queria te dizer aqui que eu tenho uma teoria.

-Qual teoria?

-Para mim todas as produções humanas, mais precisamente em termos de arte, são uma relação amorosa que o criador tem com todas as outras forças em ação ao redor do universo. O que compomos fala sobre amor e não-amor. Até mesmo essa discussão que estamos tendo. O que seria o torto senão um indivíduo que acima de tudo, ama mais do que tudo? Certa vez, Felipe disse que isso tinha outro nome... Não era amor em si o termo que ele usou. Mas, nomenclaturas diferem em quê? Só quero dizer que é algo semelhante ao caso de amor entre prótons e elétrons ou algo do tipo. Segundo a ciência, seríamos um aglomerado dessas partículas. O âmago de nossa constituição é uma relação de amor e não-amor.

-Interessante como você segura essa garrafa de vinho. Ela não vai fugir de você.

-Um dia ela pode fugir. Não subestime o que aparentemente não é dotado de consciência - sorri.

-É verdade, eu costumo dialogar com o meu travesseiro e ele sempre me foi silenciosamente simpático.

-Certo dia, perguntei a alguém: se Deus fosse um homem, como ele seria? A resposta foi imediata e quase instintiva: feio.

-Se tudo que nós criamos, fala sobre o amor; então deus não seria criação, uma vez que, se o amor é algo lindo, e deus é um feio, ele não estaria ligado por uma relação de amor?

-Quem disse que o amor é algo lindo? Você já tomou uma surra dele? O amor já cuspiu na minha cara, ele é egoísta, auto-destrutivo, o amor é torto!

-É torto, pois o amor, além de ser tudo isso que você falou, nós o buscamos por ele também ser belo, solidário e construtivo. O amor é torto por ele se construir destruindo, isso por que ele tem a virtude e o vício divorciadamente apaixonados entre si.

Levantaram-se do bar e saíram sem pagar a conta. Afinal, quem ia notar em meio a toda aquela multidão, dois indivíduos banais como estrelas cadentes em uma madrugada de domingo?

Pintura de Frida Kahlo

I.B. & Vina Torto

domingo, 13 de dezembro de 2009

O Véu

Encontrei um velho, certo dia, sentado na sarjeta com uma cuia na mão. Algumas moedas solitárias e de pouco valor tiniam e brilhavam naquele pedaço de lata, velho e amassado. Seus braços, tão finos, lembravam-me os frágeis gravetos caídos e esquecidos no chão poeirento de um fim de tarde de outono. Somente notamos a sua existência quando, pisando-os, os ouvimos estalar e quebrar sob os nossos pés. Tão frágeis...

Sentei-me a sua frente, observando-o. Sua cabeça pendia. Uma barba branca e imunda escorria-lhe por sobre o peito. Um odor nojento exalava do seu corpo. Lentamente, como se sentindo uma presença de outro mundo, levantou a cabeça. Admito, involuntariamente recuei alguns centímetros - ou imagino ter recuado. Seus olhos opacos, encobertos pelo véu da catarata, que insistia em turvar-lhe a vista, buscavam desesperadamente por uma luz, freneticamente saltando de um ponto escuro para outro.

Estendeu suas mãos trêmulas. Com algum esforço, aquele fino graveto sustentava a cuia de metal, suportando o peso inimaginável de algumas moedas baratas.

"Por que não se deixa morrer, Velho? Sua vida é tão desgraçada e miserável. Não vale à pena lutar por ela. Baixa essa mão. Joga fora essa cuia velha e as moedas que ali descansam, arremessa-as na sarjeta em que você repousa a sua cabeça todas as noites. Vai, deita, fecha esses olhos que de mais a mais não enxergam nada há anos. Morre de uma vez! Melhor que deixar sua vida escapar a conta-gotas."

"Estou tão cansado... Sinto que vivi centenas de anos, embora mal e mal tenha chegado aos quarenta e cinco... Tenho sono, um sono tão profundo que pesa sobre os meus ombros, me empurrando e comprimindo contra o chão. Penso em desistir. Mas, sempre que abro os olhos, vejo uma manhã tão linda! Iluminada e florida, cantorias por todos os lados. A dor some, o frio, a solidão... Permaneço eu apenas, e uma paz reconfortante como minha companhia."


"Talvez essa claridade toda seja o branco do véu que cobre os seus olhos. Tu és cego, Velho! Nenhuma luz emana dos seus olhos; nenhuma luz pode aí entrar..."

"Talvez... Sei que vejo, simplesmente."

Fui imediatamente tomado por um acesso de fúria. Chutei a cuia da mão do Velho e somei mais uma ruga naquele pedaço de metal frio e velho - tão velho quanto o Velho.

"Espero que você enxergue o suficiente para conseguir colher todas essas moedas desse chão imundo onde vive!"

Fui embora...

P.M.

domingo, 6 de dezembro de 2009

O Artífice do Cotidiano


Fruto da arte de um verdadeiro artesão, que com esmero talha cada linha e detalhe daquela paisagem que consegue enxergar apenas quando de olhos bem fechados. Obra erigida a partir do suor, da dor, do sangue, da paciência, do sacrifício... Não uma invenção, mas um construto: o cotidiano.

P.M.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Cambistas Ideológicos


Falar sobre jornalismo cultural hoje é como receber um cruzado de esquerda no queixo: nos deixa irremediavelmente atordoados. Primeiro por que há algumas décadas atrás essa categoria jornalística tinha um outro perfil, uma outra demanda por parte do leitor, que consequentemente está ligada às antigas relações econômicas em processo de maturação (modificaram-se intensamente no final da segunda guerra) e também às novas relações temporais e espaciais. Segundo por que esse termo, a meu ver, bastante irônico, se tornou uma espécie de zombaria, se formos considerar a maioria dos veículos que se propõe a publicar esse tipo de material.


Certo dia me deparei com o caderno “cultural” do jornal A Tarde, que é o maior jornal impresso do Norte-Nordeste, e fiquei pasmo com a qualidade do material. Refiro-me tanto a qualidade de seleção do objeto, quanto à qualidade de exposição de determinado objeto. Até lembro-me o tema principal desse caderno: casamento.


Começava com uma crônica nada interessante sobre a falta de compromisso do jornalista com a realidade brasileira. O texto tratava da apatia generalizada que circunda a sociedade, mas era de uma forma tão destituída de uma reflexão mais profunda acerca de um tema tão presente e complexo, que por vezes eu me considerava um chimpanzé em processo de alfabetização (com todo o respeito aos meus primos símios). Talvez fosse a intenção do “cronista” em destacar esse aspecto débil, dirigindo-o aos seus leitores. Sim, de duas uma, ou puro sarcasmo por parte do jornalista, ou uma brincadeira de mau gosto do atual cenário mercantilista a que estão submetidos os editoriais. Descarto a possibilidade de burrice congênita, já que o mesmo é considerado um grande jornalista. Bom, foi o que eu ouvi falar.


O restante do caderno tratava de temas puramente aristocráticos (adoro esse termo arcaico) e eventos direcionados ao mesmo público, as “douradas” páginas socialites. Abordava temas como viagens, moda e esse tipo de coisa ao qual chamamos de entretenimento. O grande problema é que eu não fiquei entretido em momento algum da minha interessada leitura. Bom, há quem fique, pois o jornal tem uma vendagem considerável. A problemática aqui é simples, eu não faço parte do público alvo (Bang! Bang!) dessa seção do material.


A seção de filmes, livros e agenda cultural, até cumpria com a sua função de semear elementos de aspecto cultural. Mas, se atém demais aos famosos Best-sellers e toda essa cultura mainstream, pop, ou qualquer outra alcunha a qual preferir. Espere um pouco, esse tipo de cultura não estaria mais atrelada à propaganda, publicidade e entretenimento do que a qualidade da obra (produto?) em si? Não me entendam a mal, não descarto qualquer produção do mainstream, só questiono a sua disseminação e a credibilidade de seu conteúdo sempre associado a uma imagem que pode mistificar o objeto real em questão.


Os críticos, resenhistas, ou como queiram chamá-los, se reduzem a meros outdoors, sem voz, pura imagem, convites alheios aos seus convidados, aos eventos a que estariam a anunciar. São as bilheterias de um grande evento, o cambista ideológico para a compra dos ingressos de um determinado espetáculo, só querem vender um produto de prateleira.


Outrora, o jornalismo cultural se preocupava em publicar um material de qualidade, como pudemos verificar na revista Senhor e diversos jornais como o Estado de Minas, na época (meados de 60), muito menos afetados pela demanda de grupos econômicos no tocante à publicidade e propaganda.


Hoje, não podemos negar que o cenário da informação adquiriu uma nova face. A tecnologia incrementou-se vastamente aos meios de comunicação, causou uma tremenda revolução nas relações tempo e espaço. Inevitavelmente as redações, os redatores, se especializaram em uma abordagem mais sucinta dos fatos, para atender ao imediatismo de um mundo que acontece simultaneamente em qualquer parte dele mesmo. Visualizem aqui uma sobreposição de fatos e fatos, uns sobre os outros. Um amálgama de informação. Uma outra perspectiva de espaço e tempo nos foi oferecida em uma bandeja no restaurante mais longínquo da Tailândia ou da galáxia mais próxima.


Verificamos agora, que o jornalismo cultural tem diante de si um leque muito maior de informação nos âmbitos da literatura, do cinema, da rede, do teatro, e pouco tempo para digerir toda essa informação. Muita diversidade cultural e ouso dizer, assim como o ensaísta Otavio Frias Filho, da Bravo!, uma deficiência no quesito riqueza (não me recordo o título do ensaio em questão). Mas, não me refiro à ausência de riqueza artística proveniente dos artistas como ele sugere, me refiro à abordagem com que a mídia trata dessas manifestações culturais e nos dá uma falsa impressão de que sabemos o que está acontecendo, quando na verdade o que vemos é só um percentual de quinquilharias selecionadas com algum interesse por trás. O mainstream influencia muito na produção artística vigente, é verdade, mas, a margem está ali em algum lugar. Eu não posso afirmar nada Otávio, mas pra mim a sua colocação foi tão “o rock já morreu”. Me desculpo se porventura eu entendi errado o que quis dizer em relação à pobreza artística (não costumo ser coeso e/ou coerente depois de tomar algumas), mas as coisas não são bem assim, como podemos ver. O problema todo é esse culto à imagem, ao que nos é de fácil acesso. “O essencial é invisível aos olhos”, basta procurar. Essa mania descarada do velho relegar o novo é puro conservadorismo e saudosismo há um tempo que não mais existe e mistificou-se no inconsciente do indivíduo. Devemos sim, nos espelhar nos pontos positivos dos nossos antepassados, isso é inegável. Mas, a partir do que temos em mãos, contextualizar nossas próprias experiências de forma inteligente e destemida.

Na Europa e até mesmo alguns países latino americanos o quadro cultural está superior ao brasileiro, em relação à qualidade do que se consome em termos culturais. Valorizam mais as obras nacionais ao invés da mania brasileira de valorizar a produção estrangeira. Tudo bem, estrangeiros são indivíduos sedutores, eu também acho. Mas, seria devido a marcas no inconsciente coletivo de um passado histórico marcado por submissão a que fomos/somos sujeitos há séculos, nos alimentando com essa tara erótica? Tenho um torto amigo psicanalista que explicaria melhor essas relações sado-masoquistas. Poupem-me de uma análise histórica e psicológica dessas relações sórdidas do cidadão brasileiro. O que questiono aqui é a problemática da indústria cultural no momento presente. A questão é: a culpa seria dos meios que nos injetam com essa cultura pré-selecionada, ou eles estariam realmente a mercê dos nossos interesses? Ou seriam ambos? Distinguir arte de mercadoria está cada vez mais difícil meus caros.


Gostaria de acabar com esse texto que a meu ver, infere um pouco do que falei nessas poucas e ás vezes um tanto desconexas laudas:


“Finalmente saiu daquele ateliê abafado e claustrofóbico. Exposição de arte. Arte proveniente de sua cabeça, de suas mãos, dedos, dedicação e o caralho a quatro. Havia uma moldura em branco na parede. Ninguém entendeu nada. Estavam concentrados e a expressão deles era de pura sabedoria, os entendidos. Uma criança não hesitou em dizer. As mãos de sua mãe não foram mais rápidas que sua boca e inocência(?). Inocência ou sinceridade? "O senhor se esqueceu de pintar esse quadro aqui." O artista baixou suas calças e cagou em suas próprias mãos. Jogou a merda toda naquela moldura em branco. Fedia."

Texto escrito por Igor Bacelar










domingo, 29 de novembro de 2009

Ateliê


Qual não foi a minha surpresa quando, ao atravessar a porta, me deparei com aquelas faces multicoloridamente pálidas.

"Quem são?" - não resisti à curiosidade.

"Minha mãe..."

"Todas elas?!"

"Sim, são várias minha mãe."

"Por que sua(s) mãe(s) está(ão) morta(s)?"

"Elas não estão mortas. Estão derretendo..."

P.M.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Barbituric Diaries (an insight in the brain)


There's a war happening right over our heads. I'm not being metaphorical, or making some sort of puzzle in this affirmation. I saw it once. Little creatures, sparkles of light, shocking furiously against themselves. It's a big army of homegeneous and curious forms of living things. I don't know what it means to us, but I know that they are in another level of existence. How can they interfere in our reality is still an Enigma to me. But I know one thing... We are just like photos after all! Now I have to make and intervention on this odd affirmation. I believe that our reality, our capacity of perception is incredibly primitive. We are in a lack of perception. We can't dive in the deepest depth of the cosmical ocean blue. The main character of a photography is not awared of the whole scenario that surrounds him. It can just look forward and forward, never beside him, behind him, over him... A photo is a two-dimensional object... The protagonist (main character) is a limited form of life that works over this simple condition of perception. We are functioning like this main character. Blinded by our senses... The essence (to us) is just an accidental stumble on the verge of the primitive way of absorb the reality. A brief insight. Yet, there's a war running between us fluently and unstoppably. Almost forgot... Look for the river flow, crying out inside your head. I don't know why, but I know no matter how, that it can teach us how to swim through the tissue of the essence of something that I'm not sure what it is. Fuck! I'm feeling weird in my stomach!

Some dude

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Surprise, You're dead


Eu morri há algumas horas atrás. Literalmente. Me lembro do último ressoar dos pneus no asfalto da madrugada. E ventava. E o frio... Se você é capaz de ler isso... estamos igualmente mortos. Você e eu. Eu e você. "You can't get away", excuse me Patton, from me.

I.B. and Mark Ryden as well

domingo, 1 de novembro de 2009

individualismo múltiplo (o descontínuo mundo de nog)

andava nog pelas ruas. e muitos nogs via. uma porção deles no ponto de ônibus. outros em mesas de bar, ébrios. e por mais que aquilo pudesse ser bizarro, eles todos estavam confortáveis com aquela situação. centenas de milhares de um mesmo. com os mesmos sentimentos e pensamentos. uma terra de nogs. houvesse quem pensassem que pensando igual se vai pra frente, e talvez fosse verdade. mas com nog era diferente. quando estava com sede, bebia toda a cidade. quando estava com fome, todos os nogs comiam. e quando chegava o sono a única coisa que se ouvia na cidade era o ressonante ronco de nog.

achava aquilo perfeito. a mais plena paz. mas, como a paz que é plena é também efêmera, ela se foi... foi-se em meio aos gritos de nogs que lotavam as praias. foi-se junto com o ecoante ronco dos estômagos famintos de nog. foi-se na música que nog cantarolava e fazia toda a cidade tremer, pois eram centenas de milhares de vozes simultâneas.

e faltou comida. faltou água. faltou lugar de lazer. cada nog achava-se único em meio aos outros, achava-se rei. e com isso cada nog passou a odiar todo e qualquer nog exceto a si mesmo. dava pra sentir na atmosfera, no ar, a eletricidade gerada numa troca de olhar. e o tempo fez-se tenso. muito tenso. nenhum até então havia agido contra outro, não fisicamente, sabia o que os outros pensavam, sabia o que todos pensavam.

mas um dia além de água e comida, além de espaço ou alegria, faltou também paciência. e no exato segundo em que isso ocorreu, cada nog avançou contra o próximo nog. simultaneamente. e no meio daquele pandemônio nog sentiu o golpe, a lâmina curta e fria. "maldito nog! me esfaqueou! MALDITO". mas quando olhou para o próprio ventre era sua própria mão que segurava, com muita força, o cabo da faca. lentamente aqueles milhares de nogs, e suas bocas que cuspiam sangue, iam ao chão. "o que eu fiz?"

Leonardo Nogueira

http://descomunog.blogspot.com/

sábado, 31 de outubro de 2009

Diálogo em Dm


-"There's a reason for the 21st century. Not too sure, but I know that it's meant to be."

-Sei lá... Acho que você está superestimando o universo. Essa coisa de sempre haver uma razão para todas as coisas. Razão é uma invenção do homem, e o homem nunca criou nada que já não houvesse existido.

-Como assim? Você quer dizer que o universo é tão ignorante a ponto de não premeditar as nossas ações e suas consequências? E o que quer dizer com essa tal não-criação?

-É isso mesmo que eu disse. Tudo que acreditamos ter sido criado pela mente humana, na verdade só foi tirado, como posso dizer, de uma cartola. É isso! A cartola cósmica.

-Não consigo compreender nada do que está dizendo. Aonde quer chegar?

-Dentro de cada um de nós existe um porão, sotão, uma passagem para onde estão todas as coisas. É de lá que as tiramos, enfim, resgatamos. Algumas chegam a ficar bastante empoeiradas, relegadas ao tempo. Pobres coitadas. Todas as coisas são parte da mesma matéria, transfiguradas pela não-matéria que recolhemos do outro lado.

-É como música que se cata no vazio no momento do processo criativo. Interessante essa sua colocação.

-Olhe lá do outro lado da vitrine. Por que todos estão olhando para nós, incrédulos?

-Deve haver uma razão.

-Sempre há.

"Somos feitos da matéria de nossos sonhos". Shakespeare

I.B.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pós-Moderno


Finalmente saiu daquele ateliê abafado e claustrofóbico. Exposição de arte. Arte proveniente de sua cabeça, de suas mãos, dedos, dedicação e o caralho a quatro. Havia uma moldura em branco na parede. Ninguém entendeu nada. Estavam concentrados e a expressão deles era de pura sabedoria, os entendidos. Uma criança não hesitou em dizer. As mãos de sua mãe não foram mais rápidas que sua boca e inocência. Inocência ou sinceridade? "O senhor se esqueceu de pintar esse quadro aqui." O artista baixou suas calças e cagou em suas próprias mãos. Jogou a merda toda naquela moldura em branco. Fedia.

I.B.

A novela


Se bem me lembro, era o desfecho daquela novela. O desenlace de todos os dramas, onde seria decidido quem iria ficar com o mocinho, enfim, o ápice de todos os relacionamentos amorosos sintetizados em uma infeliz representação do que permeia as verdadeiras mutualidades entre os indivíduos. Todo aquele imaginário do que poderia ser e na verdade não é, seduzia libidinosamente aquele viúvo, pai de uma menina de dois anos.

Engraçado como desde pequeno ele vem construindo sua identidade moldado em simples quimeras. Sempre há o bem e o mal e nada entre eles, descarta a aura cinzenta que cerqueia os homens. A televisão também sempre o avisava sobre o momento em que ele devia sorrir, com as pequenas "deixas", as pausas que são sucedidas de gargalhadas programadas (isso se evidencia nos seriados americanos). Até isso foi pré-concebido para exigir o menor dos esforços daquele cérebro indolente.

Houve o intervalo para a propaganda, já não bastasse a sutilidade da lógica de consumo enlaçando cada discurso inserido nas relações entre os personagens e cenários da novela, as mercadorias enlatadas e sorrisos extraordinariamente brancos se espremiam pelo pouco que restava da massa cefálica do homem. O mais marcante era a ansiedade que ele expelia como gases pelo sofá. Sua ansiedade era merda no esgoto, e fedia tanto quanto.A propaganda surgiu bem no momento em que a mocinha iria revelar o seu grande segredo. O homem sentiu medo, angústia, excitação, prazer!

Do lado de fora só se viam as luzes da tevê. O restante estava apagado, mas não por consciência ambiental ou escassez financeira, era simplesmente para criar um clima de cinema. Afinal, era o episódio final daquilo que se tornara febre nacional. Mas, não quero falar sobre as consequências desse entretenimento sublimador em particular. Vou me ater a esse lar em especial, pois de alguma forma o que ocorreu ali me cativou de uma forma hilariante. Somos sádicos, eu sei disso. Por que nos sentimos fortes com o sofrimento dos outros. É a lógica do vale-tudo. Por acaso você nunca sorriu quando um amigo seu escorregou em uma poça e caiu de costas vigorosamente e ficou ali estatelado no chão? Conheço um cara que não, mas o exemplo infeliz é só para dificultar a relação entre o prazer e a dor alheia. Gosto de brincar com exemplos inúteis. A coisa vai bem além disso, essa tendência à auto-afirmação.

A novela reiniciou. Plástico. Olhos atentos, imóveis, concentrados. Só havia ele e a novela. Só havia novela e manequim. Só havia ele e a televisão. Só havia televisão e controle remoto. De repente, um choro de criança, de fome, de carência, de solidão, de amor. De repente, golpes repetidos de um controle remoto em uma cabeça frágil. Silêncio. A novela reiniciou.

I.B.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009


''As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.''

Liev Tolstoy

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

sábado, 3 de outubro de 2009

Bon Vivant


"Algumas horas depois de ter subido até o topo da montanha, não pude me segurar por muito tempo... Os braços me falharam e eu despenquei do topo do céu ao cerne da terra, rumo ao abismo". (...)

O jovem rapaz olhava concentradamente para os convivas. Todos estavam em um estado de euforia, desligados momentaneamente dos tubos que constituem a máquina social. Ele mantinha o seu olhar fixo no baile que se arrastava por toda aquela terra úmida da chuva que acabara de passar. As narinas estavam entretidas com aquele cheiro de terra molhada, misturado com o suor, com o vinho. Parecia estar a troçar de seus convidados, mas não era zombaria, era como se ele houvesse planejado algo que iria surpreender as pessoas de alguma forma. Sua introspecção não afetava em nada os dançarinos contagiados pela música dos pés na terra, dos corpos em contato muito íntimo, das goladas do mais saboroso manjar etílico, das tragadas nos melancólicos cigarros. Não havia música enfim, haviam vibrações abstratas, coletivas, havia relação humana bruta.

"My soul needs a cigarrette".

Pude perceber um melancólico pano de fundo por trás de tudo isso. Por que estaria o próprio anfitrião afastado da celebração? E o que estaria ele a celebrar? Ninguém teve a menor curiosidade de conhecer essas razões, apenas uma linda garota desajeitada de olhar singelo. A ela, preocupava o fato daquela tão querida criatura estar tão distante espiritualmente das outras pessoas. Pois, fisicamente estava ali sim, fitando cada expressão de cada rosto, de cada corpo, como se estivesse a fotografar, a registrar algo muito importante. Olhos examinadores, semelhantes aos de um estudioso em campo.

O sol estava prestes a se pôr, coloriu aquele lugar de um laranja peculiar, que refletia suavemente nas águas do rio, que passava nas proximidades. A garota foi até o jovem que sem perceber, legava ao vento o seu cigarro, que era tragado obstinadamente. Simplesmente sentou-se ao seu lado e ele lhe retribuiu com um sorriso tímido, acanhado. Levantou-se inesperadamente e segurando as suas delicadas mãos juntaram-se às outras pessoas. O jovem pôs-se a dançar. Algo meio peculiar, bizarro até, uma dança enérgica, de pulos e giros agressivos (como um tufão), que logo chamou a atenção de todos os outros. Imediatamente uma forte chuva atirou-se violentamente contra a terra. Como se aquilo fosse uma dança tribal, uma dança que rogava pela chuva. Ventos fortes empurravam avidamente as folhas dos coqueiros, cajueiros, das mangueiras, das alamandas, dos sombreiros. Os coqueiros se envergavam de tamanha a força que era empregada pela ventania, vinda da direção do mar. O impetuoso punho que a natureza emitia apenas reforçava toda aquela celebração. A relação ancestral homem-meio fora resgatada ferozmente, e havia uma sensualidade inelutável que se alastrava naquele momento singular.

Encarou por minutos a fio aquela garrafa que estava pela metade e despejou todo o seu conteúdo em sua boca, chegou a derramar por sua face e seu peito nu. Sabor de vinho seco molhando sua garganta, odor de vinho seco acariciando seus pulmões, e saiu. Momentos depois, apenas a garota sentiu a sua ausência e após um lapso auspicioso que a incomodava incitantemente, se retirou imediatamente do "olho do furacão" à procura do célebre celebrante. Saiu tão imperceptivelmente quanto o jovem rapaz.

Não durou muito até que o encontrou sentado ao lado de um buraco que se assemelhava a uma cova, cabisbaixo. Ele ergueu os olhos e pareceu surpreendido com o que viu.

-Não esperava que fosse você quem viria até aqui. Promessas...

-O que pretende fazer? - Ela se perguntava como que esperando uma resposta pré-concebida em suas próprias elucubrações - Por quê?

-Falta de perspectiva, curiosidade talvez. Compreendo que o céu é só uma promessa. Lembre-se que não existem coisas nobres, tais como a promessa no plano dos mortais. Se existe algo além desse plano, ignoro as possibilidades. Mas, gastamos tanto tempo existindo... Por que não inexistir? Não tem a curiosidade de simplesmente deixar de ser? Desde menino meu problema sempre foi essa tendência de averiguar as coisas, todas elas. Sempre mais perguntas do que respostas. Se fosse o contrário seria assaz insuficiente, não é mesmo? Decidi deixar de ser, com uma pergunta acompanhada de uma resposta. Por que não podemos dormir para sempre?

-Não vá - ela implorava soluçando, as lágrimas escorrendo de seus olhos encantadores, seu corpo a tremeluzir como uma estrela fraquejando aos poucos.

-Espero que me perdoe pelo que está destinada a fazer nesse momento. Realmente não esperava que fosse você a estar aqui em meu leito, mas você já demonstrava durante a festa, que seria a pessoa a carregar esse fardo. Eu tentei afastá-la das minhas meditações, eu tentei... Mas, existe uma parte sensível de nós mesmos que nos conecta de uma forma que não podemos compreender. Somos algo análogo aos recifes e corais, vários organismos que compõem um só. Mas, estamos irremediavelmente distantes, minha cara estrela.

-Isso que você vai fazer é errado. Há muito mais a ser vivido, a ser compreendido. Pare com isso! Não acredito que isso esteja acontecendo. Tem algo errado aqui- e olhando para o céu pôs-se a gritar - Faça parar!

-Sempre me perguntei sobre o que falaria quando chegasse esse momento. Temia que não pudesse ter a oportunidade de falar algo e depois de pensar muito eu me decidi o que deveria ser dito nesse desenlace trágico.

Havia uma xícara de chá vazia ao seu lado, a garota a fitou e pressagiou o pior. Havia um conteúdo anteriormente ali, naquele objeto, se não estava mais lá... Estava decidido. Ele havia ingerido daquela substância supostamente letal. Como que percebendo a expressão apavorada de sua última companhia, ele levantou-se entregando-lhe uma pá.

-Era cicuta. Já é hora.

A jovem queria sair imediatamente dali, chamar socorro, mas não conseguia mover as pernas.

-Quais são as suas últimas palavras?

O jovem rapaz depositou-se solenemente no buraco que havia cavado algumas horas antes e descansou seus olhos no céu. Até que enfim, se fecharam. A garota chorava baixo, mas tão vorazmente que fez com que as próprias árvores que ali se encontravam, choramingassem a própria seiva. Não havia notado esse absurdo, as árvores em prantos. Há tantas coisas ao nosso redor que deixamos de notar. Talvez aí nessas brechas da surdez do absurdo, esteja a música a tocar. O absurdo não é só o que não se espera, mas o que não se nota. Quase que inconscientemente, apanhou a pá que havia derrubado e despejou aquele monte de terra sobre o corpo. Me pergunto se o corpo seria a casa ou seria a prisão da alma. Onde estão os filósofos numa hora como essas? Casa, prisão. Prisão, casa.

-Quais são as suas últimas palavras?

Depois de ter feito o que lhe havia sido designado, seus músculos frágeis e exaustos a forçaram a deitar-se sobre aquela terra úmida, bem ao lado do túmulo de areia. Tudo o que ela queria naquele momento era dormir, simplesmente dormir. Mas não de cansaço. Não era sono, exaustão. Ela esperava que quando acordasse, o rapaz estivesse ali de volta. Queria acreditar que tudo não passava de um sonho. Para isso, ela achava necessário dormir. Seu corpo não tardou a aceitar essa proposta da sua mente irrequieta. O convite do vazio é sempre mais tentador. Dizem que quando recebemos uma pancada muito forte na cabeça, não devemos dormir. Será que acontece o mesmo para pancadas na alma?

Quando ela acordou, a cova ainda estava lá. Era cedo, a umidade do orvalho impregnava toda a manhã. Não pôde controlar o choro. E mais ninguém estava ali para dividir aquela dor. De alguma forma, ela se sentiu imensamente culpada de ter feito parte daquele velório excêntrico. Estimava tanto aquele rapaz... "Não esperava que fosse você quem viria até aqui", a questão que se desprendia de suas entranhas, quem era essa tal pessoa? O que signifcou toda essa celebração? Para quem? Essa pessoa estaria lá? Quem seria essa pessoa? A cova ainda estava lá e sono nenhum a fez dissipar-se. A cova ainda estava lá.


Pinturas de Mark Ryden

I.B.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Love Story


“Você já viu um coração de verdade? Ele parece um punho fechado coberto de sangue!”

Havia esse homem que passava todos os dias de semana pela mesma rua à noite, quase no mesmo horário. Era do tipo brutamontes, daqueles que o rosto revela uma debilidade intrigante. Um verdadeiro homem das cavernas em pleno século XXI. Seus olhos eram do tipo que nos incita medo, olhos de um homem violento. Provavelmente era aquele brigão do ginásio que se fudeu na maioridade. Um inculto! Quase todos os dias que passava por ali e alguém o encarava de alguma forma, era um pretexto para que ele surrasse as pessoas. Não poupava ninguém. Um dia os olhos daquela vizinhança aprenderam a se dirigir para diversas localidades que não fossem aquele corpo troncudo e aqueles olhos que expunham uma intrigante sede de causar terror. Um típico macho primata, nada mais e nada menos do que isso. "O macho demoníaco"( apenas uma menção do estudo de Richard Wrangham e Dale Peterson).

Porém, havia essa mulher que não deixava de encará-lo. Dia após dia, surra após surra. Ela aguardava ansiosa a hora que aquele homenzarrão estaria ali naquele mesmo lugar, prestes a enfiar-lhe as mãos em seu corpo frágil e repleto de hematomas. Ninguém compreendia o por que de ela se sujeitar a isso. Não faziam nada para impedí-la. Imediatamente começaram a considerá-la louca. Nada menos natural do que isso. Um dia ela mal conseguiu se levantar para aguardá-lo naquela mesma rua. Mas foi mesmo assim. As pernas bambas, os olhos inchados, escoriações por todo o corpo. Nunca deixava de esboçar aquele lindo e contagiante sorriso. Por incrível que pareça, não havia nada de triste naquela boca aberta expondo aqueles lindos dentes. Era uma mulher linda e graciosa. Não devia ter deixado de mencionar isso. Nesse dia, ele não estava lá.

Ela aguardou, aflita, desesperada, vazia como uma xícara de café tragada por um viciado em cafeína. Nervosamente esvaziada. Esperou, e esperou, e esperou... Até que um dia seu corpo não podia mais se mover, só lhe restara os olhos da mente, de uma debilidade intrigante. Não perdurou muito tempo naquele drama inane. Na última espiada de seus olhos para o mundo que estaria a abandonar, viu aquele macho corpulento se dirigir a ela e sentiu um pisão em sua cabeça, não sem esticar aquela linda boca afetuosamente. Ele calçava um coturno preto.

I.B.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Diário de Nog (páginas perdidas II)


Houve um tempo em que olhar para o céu noturno me trazia a visão de estrelas e preenchimento. Um espetáculo de luzes cintilantes de uma beleza indescritível. Hoje é apenas o espaço. Repleto de vazios e vazios. Infinitas léguas de uma estrela para outra. Apenas um silêncio enjoativo e breu. Breu.

A boca de lobo - Quarto fragmento

Rolávamos violentamente de um lado para o outro. Parecia um combate, a batalha que enfim definiria o resultado daquela guerra. O bafo azedo exalava por todos os cantos daquele quarto escuro, os rugidos inebriados se desenrolavam longe daquela timidez usual. Pouco importava o que pensariam daquilo que se procedia, pouco importava o que não dizia respeito àquele quarto azedo e úmido. A umidade que era proveniente do intenso esforço físico, dos poros. As mãos mais se assemelhavam a garras, as pernas se contraíam progressivamente conforme os dois se projetavam um contra o outro. Era tudo de uma ternura varonil, típica dos famintos e insaciáveis. E tudo acabou em sangue e fezes.

I.B.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A boca de lobo - Terceiro fragmento

-Fico indignado quando um cara vem nos roubar... Porra! A gente rala pra caralho pra comprar as nossas coisas e vem um filho da puta e nos toma o pouco que conquistamos com o nosso suor! E pra piorar, ás vezes nos enche de porrada ou até nos mete bala até estourar nossos miolos proletários!
-Hum...
-Respeito aqueles que roubam bancos. Ali sim! Estão tomando aquilo que não afetará o homem cotidiano. Eu, você, sua velha... Esses não deveriam ser chamados de ladrões!
-Seria o que então? Revolucionário?

Éramos amigos. Amigos que despercebidamente passeiam em suas próprias mentes sem ao menos perceber, conectos que são. Dividir um pedaço de minha existência com ele, era como agregar para mim um pedaço maior daquilo que chamo de existência. Não dividíamos em suma, multiplicávamos. Mas o resultado era sempre indivisível. Éramos um. Não havia pudor em uma relação tão intensa quanto essa, apenas nudez. Nudez entre duas crianças. Um dia desses enquanto estávamos deitados sobre uma caixa d'água abandonada olhando para as estrelas e tomando uns tragos, ele meteu um cigarro direto no meu olho direito. Aquele calor era infernal, a dor indescritível, nem tive condições de fitar seu rosto silencioso que me encarava com uma indiferença perturbadora. Era como se uma rocha estivesse a me encarar. Não. Não tive a capacidade de fazer qualquer consideração acerca do que me rodeava. Era tudo eu, era tudo dor. Nessas ocasiões, primeiro vem o sofrimento físico, depois o sofrimento da alma. E agora, há tanto veneno em minha alma que as pessoas me confundem com um animal peçonhento. Tenho tanto veneno em minha alma que me tornei uma cobra.

I.B.