segunda-feira, 27 de abril de 2009

"Uma vez alguém me disse algo sobre o despertar ser o momento mais perigoso do dia. Essas palavras ficaram inscritas em mim como as escrituras de uma lápide. Foi Kafka quem lhe disse isso. E agora eu digo a vocês."

"Uma vez fui acusado de chorar".

Usavam máscaras carnavalescas semelhantes às máscaras venezianas. Cada um dos três estava trajado em um terno negro de listras brancas. Foi a primeira coisa que vira quando acordei. Murmurei algumas palavras sem sentido decorrentes do meu recente despertar, ainda confundido com o sono e tentei me levantar. Um dos homens me empurrou de volta à cama e sem pronunciar uma só palavra algemou meus pulsos. Fui arrastado escada abaixo do meu minúsculo apartamento enquanto os vizinhos me encaravam surpresos. Ninguém moveu um dedo sequer para me ajudar, eram cúmplices daquilo tudo e nada faziam. Me jogaram na mala de um carro de luxo negro. Breu. A escuridão que sufocava meus olhos, passou a sufocar meus pulmões. O carro estava em movimento e pareceu uma eternidade o tempo que passei lá dentro daquela masmorra comprimida. Estava em posição fetal com as mãos, os olhos e os pulmões atados, aguardando o momento em que meus carcereiros me tirariam dali e me levariam para o próximo círculo do inferno. O carro parou. Segundos depois, uma luz intensa me cegou temporariamente, era o sol da manhã. Estávamos no topo de uma colina e me empurraram direto para a beirada daquele precipício que se lançava sobre o mar. Prenderam minhas pernas à uma pedra que pesava uns 50 quilos e me jogaram sem ao menos uma cerimônia ou algo do tipo. Nunca cheguei a ouvir a voz de meus executores e muito menos a sentença do juiz, mas não poder inspirar e expirar o ar de nossos pulmões é um castigo muito pior do que esse. A água começa a invadir suas narinas e penetrar a sua garganta, obstruindo toda a passagem de oxigênio. A dor é extenuante e parece que nunca cessará. Foram apenas míseros minutos, mas asseguro-lhes que se apresentaram para mim como anos. Porém, sempre me encantei com o oceano, ao menos eles me legaram isso. Que gesto nobre da parte deles.

I.B.

domingo, 19 de abril de 2009

A irreversível condição do ser


"Um dia colhi uma flor..."

I.B.

Rios


Existe um oceano inteiro dentro de mim
Só vejo os rios que me fogem aos olhos
Um dia eles vão desembocar no mar
Quando esse dia chegar
Ainda poderei chorar?

I.B.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Devaneio de uma sala vazia III


"Hoje acordei em um sofá. Não pisei no chão como de costume. Estava exausto. Fiquei por ali mesmo, esperando um evento inesperado me erguer de minhas longas horas na ociosidade. Passei mais de vinte e quatro horas ali, como um sujeito enfermo. Foi quando me dei conta de que não me levantei, por que a sola dos meus pés estavam feridas... de tanto andar."

I.B.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Interlúdio




..."A mente tem mil olhos, o coração apenas um."

Crepúsculo de inverno. A chuva torrencial disfarçou cada segundo desse dia: em crepúsculo. A janela estava aberta e ele estava deitado em seu leito ouvindo as pesadas gotas caindo sobre o piso do lado de fora, sobre as ruas. E os bueiros a cantar violentamente em resposta à correnteza da água. Há várias horas estava deitado olhando para o teto branco. Deixara a janela aberta e o vento soprava gotículas de chuva que caíam em seu rosto inerte. Nem mesmo os trovões eram capazes de despertarem-lhe surpresa. Parecia que estava em outro lugar, e o que jazia ali era senão um corpo oco. Em um devaneio nos locais mais remotos de sua consciência, nas terras ermas e insólitas de um indivíduo que não pertencia a mais lugar nenhum além dele mesmo. Mas ele mesmo não fora capaz de evitar a sua desgraça, pela primeira vez entregou-se ao destino e não ousou mover um dedo sequer. Não é bem verdade que o que é para ser será. A escolha existe para todos, porém ele se deixou levar por essa apatia quase religiosa. Permitiu essa força coercitiva lhe nocautear com um cruzado de direita. Nem ao menos se deu ao esforço de erguer-se. Sujeito indolente. Agora está afundando em um colchão, desprezando a beleza que é o toque da chuva, a sua melodia suave, o tamboreio dos trovões e o chicotear inflexível dos relâmpagos. Um insulto a sua essência de se admirar com as coisas mais corriqueiras, mundanas de qualquer bocado do tudo e do nada, por mais ínfimo que parecesse, por mais óbvio que se apresentasse para os seus sentidos. Sempre existe um mundo inteiro de percepções até mesmo em um grão de areia. Afastar esse zelo pelas coisas, esse interesse primordial pela vastidão, esvaziava seu empenho em ser, em existir. "A parte de mim que só você conhecia, nunca mais será entendida", ele se levantou e pela primeira vez pisou no chão frio e sórdido, descalço. Era como se aquilo o tivesse tomado, lhe dado uma dose de realidade. Uma realidade há muito infligida por um sono opressivo, uma infecção purulenta que gangrenava aquela carcaça cambaleante, aquele rascunho de indivíduo. "A luz de uma vida inteira se desfaz diante de mim".


"Tudo que somos, são folhas de outono". Caminhava rua afora naquela noite de outono. Não sabia para onde ir e nem de onde viera. Sentou-se junto a um bando de boêmios cantarolantes e irremediavelmente alegres. Simpáticas figuras embebicadas. Pôs-se a beber junto àqueles cães sem dono, dialogando com o silêncio, silenciando consigo mesmo. "Por que choras meu bom homem?", punham mais vinho em uma caneca suja e velha. Cobriu em vão seus olhos tristonhos. Soluçava em pranto. "Todas as lembranças são rastros de lágrimas". Tudo a sua volta perdia a solidez, sentia-se como um viajante desavisado despencando em um pântano com areia movediça, seus esforços equívocos o afundavam cada vez mais naquela lama pegajosa. Embora estivesse acompanhado, sentia-se tremendamente só. Enquanto aquele bando uivava para a lua, em torno de uma fogueira a dançar, a cadência de seus corpos criou-lhe um interesse peculiar. Gole após gole. Não sabia ao certo o que olhava, para que olhava, mas não conseguia lhes tirar os olhos. Não sabia se aquela cena o incomodava ou o transportava para tempos passados, que tipo de delírio o tragava daquele luau alucinado. Como resposta às orações corpóreas, à liturgia da alcatéia desvairada, as nuvens se amontoaram cinzentas sobre aquela terra fustigada, intempérica. "Me digam agora, quem está por trás da chuva."


Os dois se levantaram de seu sono naquela campina esverdeada. O capim estava alto e as gotas de orvalho umedeciam o solo, o ar. Havia uma única árvore naquela planície, frondosa, eles a escolheram para deitar sob sua cabeleira esmeralda, sob o aconchego de seus braços ramificados. Ouvia-se o canto dos pássaros a fazer ninhos em sua copa. Caminharam de mãos dadas até as margens de um riacho não muito distante dali e se despiram. Banharam-se tranqüilamente, sem pressa, sem urgência de se despedir daquela centelha do infinito. As toras de árvore que encontravam no chão, usavam para se aquecer à noite, os frutos maduros que se pronunciavam dos galhos, colhiam em risos insustentavelmente largos, do tamanho de seus espíritos. Encontraram uma clareira de terra úmida e ela começou a pintar o corpo do outro com a areia molhada, presenteando-lhe com sua visão artística do impossível esculpida em carne, em poros, em pele. Ele apalpou o seio desnudo, sincero, e nutriu-se de sua feminilidade exposta. Não cansava de mirar aqueles olhos. Não se incomodava de ser penetrada por aqueles olhos. "Os olhos são espelhos da alma". "Mas será que os espelhos nos mostram o que realmente somos? Os espelhos não podem refletir a alma. Os espelhos são avessos". Mas aqueles olhos penetravam com uma sinceridade distinta, continham muito em tão pouco... Estavam os dois abraçados, desajeitadamente belos e jovens. Era a primeira alvorada da primavera e as nuvens se reuniram naquela manhã ensolarada. Era a primeira chuva da primavera que proferia seus acordes maiores, sem nenhum traço melancólico. Bucólico, idílico. Um sonho possível de uma primavera perdida.

(fotos por Zilda Onofri)

I.B.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Prelúdio


"Ó demência das palavras falsas. Eu creio no silêncio
Mais forte que a beleza mais forte que tudo
Ó júbilo dos que se compreendem em silêncio."

Frantisek Halas

Eu posso ouvir o grito do teu silêncio.

(O grito de Edvard Munch)
I.B.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ambiente Meio


DESENVOLVIMENTO sustentável é sustentabilidade do DESENVOLVIMENTO.

I.B.

Apenas mais um texto confuso


Trilhos. Tristes. As pessoas são tristes! Por mais que tentem ofuscar-nos com sua graciosidade forçosa, omitir suas ambições que mastigam-nas diariamente durante sua marcha secular... Maldita Lei do Asfalto! Mas a culpa não é inteiramente dessa lei absoluta que fagocita um após outro. É da natureza do próprio indivíduo ser triste. Sempre a procura de algo maior do que eles mesmos, sem se dar conta de onde procurar ou reconhecer esse "elemento de transcendência". Tantas coisas (se não todas) são tão maiores que nós mesmos. Acho que a matemática da coisa é essa mesmo, somos tristes abastecidos por momentos de felicidade, simples assim. Queria tanto estar errado! Devo estar errado. E por estar errado me encanto pelos tristes, calejados, detentores da dor. Mas se não somos todos tristes, o que somos então!? As pessoas dizem que sou feliz, mas não me sinto um feliz. Por isso somos todos tristes essa porra! Pura constatação empírica! Como sou engraçado, confuso. Vertigem. Trilhos. Não me sentia inteiramente confortável perto daqueles trilhos, nem inteiramente desconfortável. Sentia medo de cair ali. Não! Não sentimos medo de cair de um prédio, nem de cair em um trilho de um metrô, sentimos medo de pular! É por causa dessa dualidade, triste, feliz. Mais alguma razão para não cogitarmos suicídio? Essas estrias, esses estigmas que carregamos... Se alguém está a observar esse circo patético do qual faço parte, devem estar fazendo apostas nessa jogatina incansável e eterna. Agora falo de Deus? Talvez uma necessidade de culpar alguém por nossas tripas enroscadas! "A ignorância é uma benção" meus caros. Por isso somos todos abençoados com a humanidade. Condenados a cem anos de melancolia.

I.B.

Devaneio de um futuro incerto II


...Ela jamais voltaria. O amor não era o suficiente para deixá-los juntos. "Não faça isso comigo! Não vá enquanto me ama." Ergueu sua mão e esbofeteou seu rosto tentando lhe ferir a dignidade, tentando afastar o afeto, o respeito. Não conseguiu. Havia muito amor nesse gesto bruto. "Me odeie!" Por favor, me odeie!" Suas pernas trêmulas o forçaram a se ajoelhar e apoiando a sua cabeça em seu colo, pôs-se a chorar. Como um filho desafortunado nos braços maternos, aconchegando-se na carne de sua própria carne, em segurança. Ela não derramou uma lágrima sequer. Havia secado há dias quando tomou essa decisão, sentada sobre rochas, sob a lamúria do mar. "Me odeie" foi a última coisa que ela ouviu ao se dirigir à porta. A coisa mais intensa que ela já ouviu. Ao fechar a porta detrás dela, escorrera uma lágrima... de seu olho esquerdo.

I.B.

Devaneio de uma sala vazia II


Haviam duas piscinas naquele condomínio oras estranho, oras familiar. Uma estava ocupada por crianças e noutra do lado oposto do condomínio, trepávamos. Esquecia momentaneamente de tudo à minha volta. Nem lembro se havia um céu sobre nós, mas tinha certeza de que era noite. E se houvesse realmente um céu, ele não nos fazia falta de forma alguma. Já era infinito o calor do seu corpo, o brilho do seu gozo... Me dei conta de que as crianças que brincavam na outra piscina, estavam ali simplesmente para me dizer que tudo não passava de uma brincadeira de mal gosto, daquelas que minha mente gosta de arquitetar. Acordei. A cama vazia não era o suficiente para suprimir aquele frio. Ela zomba de mim toda noite e eu não posso fazer nada. Impotente, desconfortavelmente nu. Olho para o lado e descubro que minha garrafa de vinho africano ainda está ali... na metade... apenas meia garrafa.

I.B.

Devaneio de uma sala vazia I


"Fiquei numa sala vazia. E parece-me que foi Ludvik que ordenou que eu ficasse sozinho. Pois não são os inimigos, mas sim os amigos que condenam o homem à solidão."

O que buscavam aqueles sorrisos? No outro dia eles não estarão mais ali, serão apenas bocas fechadas e olhos a fugir de você. Bocas fechando e olhos fugindo. O que buscavam aqueles sorrisos? Me sentei na beira da calçada me sentindo bastante confortável e acolhido pelos sorrisos, mas vi de relance os dentes denunciando sua motivação. Eram tantos ali, amontoados, sem querer dizer nada ou sem ter o que dizer. O que buscavam aqueles sorrisos? Amanhã eles não estarão mais ali e levantarei meu sorriso sincero sem resposta, em vão. Desperdiçando minha alma. Mas não só os sorrisos condenam os "sorridentes". Os olhos fogem, evitam, me machucam tanto. E eu sempre a sorrir, como um palhaço, forçado a sorrir, condenado a sorrir, desgastando meu riso. O que buscavam aqueles sorrisos? Muito provavelmente estão afoitos para tomar de mim o meu próprio riso, torná-lo rijo. Arrancar de meus olhos a seiva que os nutre e bebê-la para se alimentar de sua vitalidade a definhar. Eu que sempre fui um risonho, desconheço o que é o riso, dos olhos, da boca, da gente.

Mas eu me mantenho de pé, vacilando, aquela figura está ali do outro lado da mesa, seus olhos a perscrutar minha feição angustiante, e seu sorriso com o canto da boca é uma sentença. Falta pouco para me oferecer aqueles papéis de letras confusas. Falta pouco para eu firmar aquele nome que me foi dado, em garranchos, naqueles papéis. Em garranchos. E tudo se acabará em gargalhadas. Em garranchos!

I.B.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Devaneio de um futuro incerto I


Éramos quatro naquele carro espaçoso. Percorríamos uma larga e comprida rodovia, de um lado cercada por florestas caducifólias e de outro margeando um lago de proporções oceânicas que prosseguia indefinidamente por nossa trajetória pela estrada, como a lua onipresente nos sobrevoando pela noite independentemente para onde formos. Eu estava perdido em pensamentos nostálgicos à mercê de uma agonia muito intensa, um chamado das profundezas da vaziês de meu ser. Em um lapso de consciência dirigi minha atenção a um bando de pássaros que deslizavam calmamente pelo céu. Não me recordo se eram gaivotas ou pombos, mas lembro nitidamente a cor: branca como as nuvens de um dia brando. Minhas atenções se voltaram para um casal que se separou de seu bando, como que convictos de sua trajetória. Não eram proscritos, perdidos, eram simplesmente livres. Exprimiam isso pela desenvoltura de seu vôo despreocupado. Senti as profundezas de minha alma sacudir meu estômago e uma súbita melancolia alfinetar cada poro de meu ser. Olhei para o lado e avistei aquele sorriso a dez polegadas de mim. Era apenas um sábado. Me pergunto se porventura esses pássaros voltarem para o seu bando...
Eles ainda terão um nome?
I.B.

(pintura de Chen Kong)

Stairway to...


One day three guys were taking a rest on the stairs of a crowded mall... Three shadows among those hollow trees... But if you look closely, bigger things that you are not concerned to know are happening there... Just like a blackened window, awaiting for its turn. When the wind ends its sharpened passage. "I'm so depressive my man". Awaiting for one's call, with no return!
I.B.

Vestes íntimas


Falavam sobre as dores do homem, sobre as mazelas que lhes eram acometidas, sobre as correntes... Cada pedaço de lágrima lhe roubava um pedaço de sua máscara mais íntima. Eram um homem e uma mulher, opacos e reciprocamente transparentes... Chorando pela decadência do espírito humano em progressiva degradação. A cada gota ele lhe roubava um pedaço de suas vestes íntimas, com a boca, com o estômago e ela sorria como se aquele ato lhe fosse uma promessa da união da carne, do espírito... Existe maior comunhão entre dois indivíduos do que compartilhar de suas dores? Ele se apropriava de suas lágrimas como que para poupá-la de tanto sofrimento. Absorvia-as, digeria-as. Ele se envergava, se contorcia, sentia um gosto amargo que subia de suas entranhas e mirava aqueles dentes tão sinceros... Sua boca se abriu extensamente e do cerne de seu ventre proferiu um grito silencioso. Não havia mais nada a se ouvir, ver... Até o último pedaço das vestes íntimas.

"...e o brilho do teu riso
é mais
quente que o sol do meio-dia..."


I.B.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Esta Noite Tive um Sonho

Flutuava, simplesmente, como um balão preenchido por um imenso vazio
Cada vez mais alto, levado pelos ventos rumo aos céus

E, com certeza, lá teria chegado se não fosse por um fio
Um finíssimo e frágil fio preso aos meus calcanhares
Que me mantinha ligado ao mundo

E porque tão fino e tão frágil
Um homem lá embaixo
Não precisou de muito esforço para cortá-lo com uma tesoura cega
Não sei qual o motivo para tê-lo feito
Não sei mesmo se houve um motivo qualquer
Apenas o fez

E com essa mesma tesoura cega e com a essa mesma facilidade, esse mesmo homem perfurou o Eu flutuante
Desesperadoramente fui expulso de mim com uma força irresistível
Deixei-me para trás
Cada vez mais distante daquele monte de trapos rotos com os quais vestia minha alma

Surpreendentemente, porém, como nunca antes, senti-me livre
E, livre, alcancei os céus, e além
E, livremente, me perdi
Perdi a consciência de mim

Os trapos caíram em direção à terra
- Não seria mero vazio talvez o que me sustentava no ar, mas a plenitude -
E vieram repousar sobre os ponteiros de um enorme e antigo relógio
E lá mesmo ficaram, através dos tempos
Até que, como um bandeira gasta e velha
Não suportaram as investidas das estações
E desmancharam-se no ar...

P.M.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Flores raras


Me abrigue suavemente em seu útero
Te dou esta parte de mim para você
A tempestade de areia vem e me mantenho sentado
Segurando flores raras
Em uma tumba... À murchar

Enterrado num buraco, não sei se posso ser salvo
Veja meu coração decorado como um túmulo
Você não entende quem eles pensavam que eu deveria ser
Olhe para mim agora, um homem
Que não se deixará levar

Enterrado num buraco, me sentindo tão pequeno
Enterrado num buraco, perdendo minha alma
Eu gostaria de voar
Mas minhas asas me foram negadas

Enterrado num buraco e eles puseram todas as pedras em seu devido lugar
Engoli o sol e minha língua foi queimada pela insipidez de sua chama
Eu fui o culpado
De ter-me quebrado os dentes
Agora sou incapaz de falar
De meus sentimentos mais profundos

Enterrado num buraco, me sentindo tão pequeno
Enterrado num buraco, perdendo minha alma
Eu gostaria de voar
Mas minhas asas me foram negadas

Me abrigue suavemente em seu útero
Oh, como gostaria de estar dentro de você
Te dou esta parte de mim para você
Oh, como gostaria de estar dentro de você
A tempestade de areia vem e me mantenho sentado
Segurando flores raras
Em uma tumba em florescência
Oh, como gostaria de estar

Enterrado num buraco, me sentindo tão pequeno
Enterrado num buraco, perdendo minha alma
Enterrado num buraco, me sentindo tão pequeno
Enterrado num buraco, sem controle
Eu gostaria de voar
Mas minhas asas me foram negadas

(Tradução livre de Down In A Hole do Alice In Chains)
I.B.

Amnésia

Eu me lembro de uma grande bola colorida ao lado de uma linda garota. Eu me lembro de pequenas figuras sobre uma festa no céu e uma tartaruga. Eu me lembro de um corredor escuro e estreito que levava a uma porta assustadora. Eu me lembro de um bando de criaturas que brotavam dos meus maiores medos me atormentando sob a cama. Eu me lembro das coisas doces que eu dizia para todas as coisas belas que eu via e ouvia. Eu me lembro do cheiro de urina que brotava de um cavalo de madeira. Eu me lembro de um aquário vazio que despedaçou-se no chão da sala. Eu me lembro do medo que sentia em estar "só" naquele minúsculo pedaço de algum lugar do quarto andar de um prédio triste. Eu me lembro do medo e admiração que sentia pelo mar, das carrancas, de um "marinheiro" que sempre queria que retornasse para mim. Me lembro daquele vulto que entrou pelo meu quarto e deixou ali um presente de natal. Me lembro dos olhares que me perseguiam como se eu tivesse cometido algum crime por ter nascido. Me lembro também de como eu era belo e tão encantador e de como tudo à minha volta me encantava. Me lembro de que acreditava na pureza do espírito humano. Me lembro das perguntas constantes que fazia aos outros e as respostas eram sempre vazias. Me lembro também das perguntas que fazia a mim mesmo. Me lembro através de outrem do sangue que jorrou pelas paredes e atingiu meu rosto como um soco. Me lembro de como eu tinha medo de encarar o lado cruel desse mundo. Me lembro de um menino que percorria pequenos planetas sobre pequenos asteróides e cometas. Me lembro de que eu estava aqui por uma razão que eu desconhecia. Me lembro de ter sido visitado por um ser de outro plano que me levou com segurança para meu abrigo. Um dia qualquer, acordei em um lugar qualquer e não sabia mais quem eu era.

I.B.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

As ondas


Sentou-se sem saber ao certo oque fazer e imediatamente pôs-se a gritar. Palavras ininteligíveis... Gritou a própria dor e fez-se ouvir até nos confins do universo. As lágrimas corriam-lhe a face e ninguém ao menos o disse o porquê. Só sabia que devia chorar. E das poças brotara o próprio oceano. Seu túmulo submerso... E sua lamúria ainda é ouvida pelos mares, empurrada pelos ventos.

I.B.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

À Deriva....


Uma Caravela à deriva
Acometida pela calmaria das águas do oceano
Ainda hoje espera
Pacientemente
Pela Tormenta que irá trazer Novos Ventos
Enfim
Levá-la a Novas Paisagens
O Mundo

P.M.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O telefone


Recebi um telefonema, mudo. Esperei... mudo. Mudo. Adormeci naquela casa só, naquela cama larga de casal, só. Sozinho. Acordei no meio da noite e fui à geladeira, vi algo horripilante dentro dela, "deve ser um pesadelo". Quantas moscas na cozinha... Me deitei no sofá encardido e ouvi o miado dos gatos do lado de fora, provavelmente no cio. A casa toda fedia à carniça. Liguei a tevê com o controle remoto. Pornô, filmes repetidos, talk-shows... Cadê os desenhos? Era tarde... não havia desenhos essa hora. Merda! Cadê os desenhos? O QUE FIZERAM COM OS DESENHOS!? Desliguei a tevê... Abri a janela para ver a rua. Estava frio. Abri a porta e saí de samba-canção. Era florida. Flores vermelhas. Adorava vermelho, vermelho-sangue, vermelho de sangue. Minhas mãos estavam sujas de sangue... Mosquitos também devem gostar, já que sugam ele. Os carrapatos também. O sangue. Me sentia com várias patas, desengonçadas, é difícil andar com tantas patas... Esperei algum farol iluminar aquela pista escura, que frio... frio. Ouvia os grilos e ainda ouvia as moscas, tantas moscas. Eu vi o caminhão se aproximar... estava quase chegando... me joguei na frente. O telefone tocou.

(quadro de Van Gogh)
I.B.

sábado, 17 de janeiro de 2009

O barco

Ele acabara de sair de uma terrível tormenta e aquela ferida que teima a cicatrizar, exposta, viril, cáustica, fora aberta como uma semente que germina, em direção à luz. Há tempos não sentira a noite desabar sobre seus ombros, foi tomado imediatamente pelo cansaço. O corpo refletia seu ébrio, pendendo de um lado para o outro sem encontrar um lugar para despencar, um semblante que arrancava das entranhas a bílis e a expunha descaradamente para todos os malditos. Doía para alguns presenciar aquela mágoa que forçadamente contida saía pelos poros, pelos olhos, pela alma. Foi pego contemplando o mar, e era tão triste ver aquela pobre criatura tão cheia de vida, tão murcha e negra... negra como a noite. Compartilhando com as pedras essa visão solitária, de pés no silte, no sal, no vaivém das ondas, o fluxo das águas, a prova de que a terra é um ser vivo, em comunhão com os espíritos que jorram das artérias mais comprimidas. Já não via mais aquela figura cadavérica, putrefata... sublimou-se, dispersou-se no ar, no vento, no mundo... Mas havia deixado algo ali em sua oscilação melancólica, um resquício de sua breve estadia naquele canto do mundo e eu mudo, naufragado na terra, desgastado pela maresia, pelas inúmeras navegações que me foram atribuídas e por meu fim sombrio... Ele deixara uma flor amarela sob a sombra do meu mastro carcomido.

"As palavras não podem exprimir a cor dos nossos espíritos".
I.B.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Porcelana


Porcelana
Você está perdendo em sua pele?
Você está sentindo falta do amor daquele que brotara de sua própria carne?
Perambulando e flutuando e desaparecendo

Porcelana
Você cheira como uma garota quando sorri?
Ousaria não dividir com sua criança?
Perambulando e flutuando e desaparecendo

Pequena lua crescente
Todo dia
Pequena lua crescente

Porcelana
Você carregou a lua em seu útero?
Alguém disse que você está definhando muito cedo
Perambulando e flutuando e desaparecendo

Porcelana
Você está perdendo em sua pele?
Você está sentindo falta do amor daquele que brotara de sua própria carne?
Adormecendo e derretendo e desaparecendo


(tradução livre de Porcelain do Red Hot Chili Peppers, pintura A MÃE E O FILHO de Picasso)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

*A última canção


Essa matilha sem a qual sou um proscrito, um carcaju
Através de cartas concebidas pelas vibrações
Endereçadas aos espíritos e constelações
Sob uma lua minguante e insana
Que preenche meu sono prematuro
Cantemos o canto da juventude e da danação no ápice da criação
Através dessa marcha fúnebre e póstuma
De espíritos errantes da paixão
Sob o sol onipresente e imparcial
Que toca meu cadáver hesitante
Cantemos a última canção de nossos tempos enquanto ainda fazemos parte destes


Escute o vento
Pois as árvores são sábias
Sinta o asfalto
Reproduzindo a dor da terra
Escute os pássaros
Lamentando seu cárcere
Veja as nuvens
Despejar lágrimas e cobrir os olhos do céu
Pra onde você foi!


*(trecho de Seu Novo Eu da banda Lady Mary)
I.B.

Devaneio urbano II

Ela trepida lustrosa no breu de estrelas ofuscadas pelos postes, janelas e faróis obstinados. Adoro a forma como ela sorri sarcasticamente para mim, mas dessa vez permanecia absolutamente estática e redonda que chegava a duvidar se aquilo que incitava tanta vida, inspiração, era só um retrato pregado no teto de éter. Então, oque eu seria? Me vejo como um Truman sem um horizonte para poder dividir com um transeunte em um outro continente, desconecto e só, embora constantemente sob aquele olhar caolho, belo... Estático.
I.B.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Devaneio urbano I

Olhei para aqueles prédios do alto do viaduto. Um imenso paredão de concreto que ofusca e soterra e cala... Tanto fazem esses gigantescos inanimados... São tão belos prostrados no horizonte, tão tristes à noite e mais vívidos do que nunca... Suas luzes indo e vindo conforme o bailar de seus inquilinos. Os inquilinos! Sempre me esqueço desses indivíduos.
I.B.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dedal-de-dama


Tece esse vestido que me envolve Carolina
Abriga esse coleóptero de pouso desajeitado
Com essa fragrância nostálgica
Essa brisa doce que acalenta a alma
Flor que habita os corredores de trepadeiras
E justifica sua estadia perene naquele pedaço do mundo
Tropical, Marginal
Diferente das breves alamandas de tristes alamedas
Essa esboça um sorriso invisível, inaudível
Que só a parte interessante de sua cabeça poderia contemplar
Pobres daquelas criaturas mundanas, sem amor
A alma transpira
A alma respira
A alma
...
I.B.

A periferia

Ninguém se movia em lugar algum
Mas ele estava lá sozinho e acompanhado
Testemunha da vigília dos olhos do escuro
Ocultos por debaixo de algum véu invisível
Aprisionado por cânticos mudos de desespero

Era frio naquela noite e nada se ouvia
Entre a vida e o sonho
Na periferia

As pernas que fitavam meu rosto imóvel
Separados por um lençol fino e acolhedor
Que me impedia de ver a face do horror que me aguarda
Incubus e Sucubus em sua sede libidinosa
Os gritos que não se pronunciavam naquela breve visita

Inerte no desconhecido, na letargia
Aguardando o uivo da noite
Da periferia

Posso sentir o toque deles perscrutando meus pensamentos
A dama da morte e seu fiel companheiro
Memorandos estão em todo lugar
Eu aguardo essa hora chegar


Fugindo da noite que trás os seus impiedosos filhos selvagens
Produtos dos meus próprios pecados
Anjos negros que zombam e cuidam de mim
Para que a insanidade não me escape...
I.B.

Versos quadros verde-cinzentos

Entre o céu e as folhas secas
Cala-se a floresta em metal
Onde as mentes repousam dinâmicas
E o Sol dispara lágrimas em seus enteados
Onde a Lua é um devaneio poético
E a maré sufoca os braços debatendo-se

Mercúrio desfila por leitos espumantes
Sopra a chuva o vermelho cáustico
Olhos queimam em paisagens nostálgicas
Cartões postais jogam-se de grades distantes
E não passam de rabiscos cinzentos
"Mudas", surdas, "cegas", "telepáticas"
...
I.B.

Sem tapinhas nas costas ou algo do tipo

Havíamos cortado uns 700 km rumo ao sul em uma tentativa de redescobrirmos a nós mesmos... Ás vezes quando acordávamos em motéis de beira de estrada, esquecíamos de quem nós éramos. Optamos por vivenciar os fatos presentes sem nenhum calculismo ou remorso. Uma verdadeira cruzada jazzística por entre trastes desconhecidos e timbres melodicamente misteriosos. Toda vez que a via olhar para as estrelas sob qualquer céu de qualquer lugar dessas estradas esburacadas, lembrava que não estava tão distante de casa quanto pensava... Embora estivéssemos jogados à sorte, estávamos mais felizes do que nunca. As pessoas não se dão conta do quanto são infelizes até que provem da liberdade. E nós tínhamos o nosso gole secular! Nós havíamos pegado carona com um daqueles sulistas simpáticos e conversadores até uma cidadezinha que não me recordo o nome e paramos em um posto de gasolina. O odor nostálgico de óleo diesel e graxa e o som de motores rufando já foi mais que o suficiente para nos despertar fome. A fatídica última refeição! Após termos rapidamente comido aquele típico jantar caipira, fomos tomar banho e prosseguir viagem com nosso carona sulista, eu me dirigi ao banheiro dos homens e ela ao feminino. Eu saí e esperei, geralmente as mulheres demoram mais a sair, o caroneiro avisou que sairia dentro de 15 minutos e infelizmente não pôde esperar as horas que eu fiquei por lá. Nenhum sinal dela, já havia checado o banheiro feminino centenas de vezes, ninguém sabia de seu paradeiro. Passei exatos três dias imaginando todo tipo de coisas que poderiam ter acontecido... É uma dor muito grande quando você em uma hora tem tudo e na outra perde tudo. É como se um vazio muito grande tomasse conta de seus pensamentos e seu estômago responde de uma forma inebriante e sem aviso, lembrando-o do quanto é miserável. A princípio pensei que ela tivesse sido vítima da perversidade humana alheia, mas quando derrubei a última lágrima, foi o suficiente para congelar um vulcão. Passei então a duvidar de sua fidelidade a mim. A dúvida... Esse monstro que nos mordisca até que não reste nada...
I.B.