sexta-feira, 27 de março de 2009

Devaneio de um futuro incerto I


Éramos quatro naquele carro espaçoso. Percorríamos uma larga e comprida rodovia, de um lado cercada por florestas caducifólias e de outro margeando um lago de proporções oceânicas que prosseguia indefinidamente por nossa trajetória pela estrada, como a lua onipresente nos sobrevoando pela noite independentemente para onde formos. Eu estava perdido em pensamentos nostálgicos à mercê de uma agonia muito intensa, um chamado das profundezas da vaziês de meu ser. Em um lapso de consciência dirigi minha atenção a um bando de pássaros que deslizavam calmamente pelo céu. Não me recordo se eram gaivotas ou pombos, mas lembro nitidamente a cor: branca como as nuvens de um dia brando. Minhas atenções se voltaram para um casal que se separou de seu bando, como que convictos de sua trajetória. Não eram proscritos, perdidos, eram simplesmente livres. Exprimiam isso pela desenvoltura de seu vôo despreocupado. Senti as profundezas de minha alma sacudir meu estômago e uma súbita melancolia alfinetar cada poro de meu ser. Olhei para o lado e avistei aquele sorriso a dez polegadas de mim. Era apenas um sábado. Me pergunto se porventura esses pássaros voltarem para o seu bando...
Eles ainda terão um nome?
I.B.

(pintura de Chen Kong)

Stairway to...


One day three guys were taking a rest on the stairs of a crowded mall... Three shadows among those hollow trees... But if you look closely, bigger things that you are not concerned to know are happening there... Just like a blackened window, awaiting for its turn. When the wind ends its sharpened passage. "I'm so depressive my man". Awaiting for one's call, with no return!
I.B.

Vestes íntimas


Falavam sobre as dores do homem, sobre as mazelas que lhes eram acometidas, sobre as correntes... Cada pedaço de lágrima lhe roubava um pedaço de sua máscara mais íntima. Eram um homem e uma mulher, opacos e reciprocamente transparentes... Chorando pela decadência do espírito humano em progressiva degradação. A cada gota ele lhe roubava um pedaço de suas vestes íntimas, com a boca, com o estômago e ela sorria como se aquele ato lhe fosse uma promessa da união da carne, do espírito... Existe maior comunhão entre dois indivíduos do que compartilhar de suas dores? Ele se apropriava de suas lágrimas como que para poupá-la de tanto sofrimento. Absorvia-as, digeria-as. Ele se envergava, se contorcia, sentia um gosto amargo que subia de suas entranhas e mirava aqueles dentes tão sinceros... Sua boca se abriu extensamente e do cerne de seu ventre proferiu um grito silencioso. Não havia mais nada a se ouvir, ver... Até o último pedaço das vestes íntimas.

"...e o brilho do teu riso
é mais
quente que o sol do meio-dia..."


I.B.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Esta Noite Tive um Sonho

Flutuava, simplesmente, como um balão preenchido por um imenso vazio
Cada vez mais alto, levado pelos ventos rumo aos céus

E, com certeza, lá teria chegado se não fosse por um fio
Um finíssimo e frágil fio preso aos meus calcanhares
Que me mantinha ligado ao mundo

E porque tão fino e tão frágil
Um homem lá embaixo
Não precisou de muito esforço para cortá-lo com uma tesoura cega
Não sei qual o motivo para tê-lo feito
Não sei mesmo se houve um motivo qualquer
Apenas o fez

E com essa mesma tesoura cega e com a essa mesma facilidade, esse mesmo homem perfurou o Eu flutuante
Desesperadoramente fui expulso de mim com uma força irresistível
Deixei-me para trás
Cada vez mais distante daquele monte de trapos rotos com os quais vestia minha alma

Surpreendentemente, porém, como nunca antes, senti-me livre
E, livre, alcancei os céus, e além
E, livremente, me perdi
Perdi a consciência de mim

Os trapos caíram em direção à terra
- Não seria mero vazio talvez o que me sustentava no ar, mas a plenitude -
E vieram repousar sobre os ponteiros de um enorme e antigo relógio
E lá mesmo ficaram, através dos tempos
Até que, como um bandeira gasta e velha
Não suportaram as investidas das estações
E desmancharam-se no ar...

P.M.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Flores raras


Me abrigue suavemente em seu útero
Te dou esta parte de mim para você
A tempestade de areia vem e me mantenho sentado
Segurando flores raras
Em uma tumba... À murchar

Enterrado num buraco, não sei se posso ser salvo
Veja meu coração decorado como um túmulo
Você não entende quem eles pensavam que eu deveria ser
Olhe para mim agora, um homem
Que não se deixará levar

Enterrado num buraco, me sentindo tão pequeno
Enterrado num buraco, perdendo minha alma
Eu gostaria de voar
Mas minhas asas me foram negadas

Enterrado num buraco e eles puseram todas as pedras em seu devido lugar
Engoli o sol e minha língua foi queimada pela insipidez de sua chama
Eu fui o culpado
De ter-me quebrado os dentes
Agora sou incapaz de falar
De meus sentimentos mais profundos

Enterrado num buraco, me sentindo tão pequeno
Enterrado num buraco, perdendo minha alma
Eu gostaria de voar
Mas minhas asas me foram negadas

Me abrigue suavemente em seu útero
Oh, como gostaria de estar dentro de você
Te dou esta parte de mim para você
Oh, como gostaria de estar dentro de você
A tempestade de areia vem e me mantenho sentado
Segurando flores raras
Em uma tumba em florescência
Oh, como gostaria de estar

Enterrado num buraco, me sentindo tão pequeno
Enterrado num buraco, perdendo minha alma
Enterrado num buraco, me sentindo tão pequeno
Enterrado num buraco, sem controle
Eu gostaria de voar
Mas minhas asas me foram negadas

(Tradução livre de Down In A Hole do Alice In Chains)
I.B.

Amnésia

Eu me lembro de uma grande bola colorida ao lado de uma linda garota. Eu me lembro de pequenas figuras sobre uma festa no céu e uma tartaruga. Eu me lembro de um corredor escuro e estreito que levava a uma porta assustadora. Eu me lembro de um bando de criaturas que brotavam dos meus maiores medos me atormentando sob a cama. Eu me lembro das coisas doces que eu dizia para todas as coisas belas que eu via e ouvia. Eu me lembro do cheiro de urina que brotava de um cavalo de madeira. Eu me lembro de um aquário vazio que despedaçou-se no chão da sala. Eu me lembro do medo que sentia em estar "só" naquele minúsculo pedaço de algum lugar do quarto andar de um prédio triste. Eu me lembro do medo e admiração que sentia pelo mar, das carrancas, de um "marinheiro" que sempre queria que retornasse para mim. Me lembro daquele vulto que entrou pelo meu quarto e deixou ali um presente de natal. Me lembro dos olhares que me perseguiam como se eu tivesse cometido algum crime por ter nascido. Me lembro também de como eu era belo e tão encantador e de como tudo à minha volta me encantava. Me lembro de que acreditava na pureza do espírito humano. Me lembro das perguntas constantes que fazia aos outros e as respostas eram sempre vazias. Me lembro também das perguntas que fazia a mim mesmo. Me lembro através de outrem do sangue que jorrou pelas paredes e atingiu meu rosto como um soco. Me lembro de como eu tinha medo de encarar o lado cruel desse mundo. Me lembro de um menino que percorria pequenos planetas sobre pequenos asteróides e cometas. Me lembro de que eu estava aqui por uma razão que eu desconhecia. Me lembro de ter sido visitado por um ser de outro plano que me levou com segurança para meu abrigo. Um dia qualquer, acordei em um lugar qualquer e não sabia mais quem eu era.

I.B.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

As ondas


Sentou-se sem saber ao certo oque fazer e imediatamente pôs-se a gritar. Palavras ininteligíveis... Gritou a própria dor e fez-se ouvir até nos confins do universo. As lágrimas corriam-lhe a face e ninguém ao menos o disse o porquê. Só sabia que devia chorar. E das poças brotara o próprio oceano. Seu túmulo submerso... E sua lamúria ainda é ouvida pelos mares, empurrada pelos ventos.

I.B.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

À Deriva....


Uma Caravela à deriva
Acometida pela calmaria das águas do oceano
Ainda hoje espera
Pacientemente
Pela Tormenta que irá trazer Novos Ventos
Enfim
Levá-la a Novas Paisagens
O Mundo

P.M.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O telefone


Recebi um telefonema, mudo. Esperei... mudo. Mudo. Adormeci naquela casa só, naquela cama larga de casal, só. Sozinho. Acordei no meio da noite e fui à geladeira, vi algo horripilante dentro dela, "deve ser um pesadelo". Quantas moscas na cozinha... Me deitei no sofá encardido e ouvi o miado dos gatos do lado de fora, provavelmente no cio. A casa toda fedia à carniça. Liguei a tevê com o controle remoto. Pornô, filmes repetidos, talk-shows... Cadê os desenhos? Era tarde... não havia desenhos essa hora. Merda! Cadê os desenhos? O QUE FIZERAM COM OS DESENHOS!? Desliguei a tevê... Abri a janela para ver a rua. Estava frio. Abri a porta e saí de samba-canção. Era florida. Flores vermelhas. Adorava vermelho, vermelho-sangue, vermelho de sangue. Minhas mãos estavam sujas de sangue... Mosquitos também devem gostar, já que sugam ele. Os carrapatos também. O sangue. Me sentia com várias patas, desengonçadas, é difícil andar com tantas patas... Esperei algum farol iluminar aquela pista escura, que frio... frio. Ouvia os grilos e ainda ouvia as moscas, tantas moscas. Eu vi o caminhão se aproximar... estava quase chegando... me joguei na frente. O telefone tocou.

(quadro de Van Gogh)
I.B.

sábado, 17 de janeiro de 2009

O barco

Ele acabara de sair de uma terrível tormenta e aquela ferida que teima a cicatrizar, exposta, viril, cáustica, fora aberta como uma semente que germina, em direção à luz. Há tempos não sentira a noite desabar sobre seus ombros, foi tomado imediatamente pelo cansaço. O corpo refletia seu ébrio, pendendo de um lado para o outro sem encontrar um lugar para despencar, um semblante que arrancava das entranhas a bílis e a expunha descaradamente para todos os malditos. Doía para alguns presenciar aquela mágoa que forçadamente contida saía pelos poros, pelos olhos, pela alma. Foi pego contemplando o mar, e era tão triste ver aquela pobre criatura tão cheia de vida, tão murcha e negra... negra como a noite. Compartilhando com as pedras essa visão solitária, de pés no silte, no sal, no vaivém das ondas, o fluxo das águas, a prova de que a terra é um ser vivo, em comunhão com os espíritos que jorram das artérias mais comprimidas. Já não via mais aquela figura cadavérica, putrefata... sublimou-se, dispersou-se no ar, no vento, no mundo... Mas havia deixado algo ali em sua oscilação melancólica, um resquício de sua breve estadia naquele canto do mundo e eu mudo, naufragado na terra, desgastado pela maresia, pelas inúmeras navegações que me foram atribuídas e por meu fim sombrio... Ele deixara uma flor amarela sob a sombra do meu mastro carcomido.

"As palavras não podem exprimir a cor dos nossos espíritos".
I.B.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Porcelana


Porcelana
Você está perdendo em sua pele?
Você está sentindo falta do amor daquele que brotara de sua própria carne?
Perambulando e flutuando e desaparecendo

Porcelana
Você cheira como uma garota quando sorri?
Ousaria não dividir com sua criança?
Perambulando e flutuando e desaparecendo

Pequena lua crescente
Todo dia
Pequena lua crescente

Porcelana
Você carregou a lua em seu útero?
Alguém disse que você está definhando muito cedo
Perambulando e flutuando e desaparecendo

Porcelana
Você está perdendo em sua pele?
Você está sentindo falta do amor daquele que brotara de sua própria carne?
Adormecendo e derretendo e desaparecendo


(tradução livre de Porcelain do Red Hot Chili Peppers, pintura A MÃE E O FILHO de Picasso)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

*A última canção


Essa matilha sem a qual sou um proscrito, um carcaju
Através de cartas concebidas pelas vibrações
Endereçadas aos espíritos e constelações
Sob uma lua minguante e insana
Que preenche meu sono prematuro
Cantemos o canto da juventude e da danação no ápice da criação
Através dessa marcha fúnebre e póstuma
De espíritos errantes da paixão
Sob o sol onipresente e imparcial
Que toca meu cadáver hesitante
Cantemos a última canção de nossos tempos enquanto ainda fazemos parte destes


Escute o vento
Pois as árvores são sábias
Sinta o asfalto
Reproduzindo a dor da terra
Escute os pássaros
Lamentando seu cárcere
Veja as nuvens
Despejar lágrimas e cobrir os olhos do céu
Pra onde você foi!


*(trecho de Seu Novo Eu da banda Lady Mary)
I.B.

Devaneio urbano II

Ela trepida lustrosa no breu de estrelas ofuscadas pelos postes, janelas e faróis obstinados. Adoro a forma como ela sorri sarcasticamente para mim, mas dessa vez permanecia absolutamente estática e redonda que chegava a duvidar se aquilo que incitava tanta vida, inspiração, era só um retrato pregado no teto de éter. Então, oque eu seria? Me vejo como um Truman sem um horizonte para poder dividir com um transeunte em um outro continente, desconecto e só, embora constantemente sob aquele olhar caolho, belo... Estático.
I.B.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Devaneio urbano I

Olhei para aqueles prédios do alto do viaduto. Um imenso paredão de concreto que ofusca e soterra e cala... Tanto fazem esses gigantescos inanimados... São tão belos prostrados no horizonte, tão tristes à noite e mais vívidos do que nunca... Suas luzes indo e vindo conforme o bailar de seus inquilinos. Os inquilinos! Sempre me esqueço desses indivíduos.
I.B.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dedal-de-dama


Tece esse vestido que me envolve Carolina
Abriga esse coleóptero de pouso desajeitado
Com essa fragrância nostálgica
Essa brisa doce que acalenta a alma
Flor que habita os corredores de trepadeiras
E justifica sua estadia perene naquele pedaço do mundo
Tropical, Marginal
Diferente das breves alamandas de tristes alamedas
Essa esboça um sorriso invisível, inaudível
Que só a parte interessante de sua cabeça poderia contemplar
Pobres daquelas criaturas mundanas, sem amor
A alma transpira
A alma respira
A alma
...
I.B.

A periferia

Ninguém se movia em lugar algum
Mas ele estava lá sozinho e acompanhado
Testemunha da vigília dos olhos do escuro
Ocultos por debaixo de algum véu invisível
Aprisionado por cânticos mudos de desespero

Era frio naquela noite e nada se ouvia
Entre a vida e o sonho
Na periferia

As pernas que fitavam meu rosto imóvel
Separados por um lençol fino e acolhedor
Que me impedia de ver a face do horror que me aguarda
Incubus e Sucubus em sua sede libidinosa
Os gritos que não se pronunciavam naquela breve visita

Inerte no desconhecido, na letargia
Aguardando o uivo da noite
Da periferia

Posso sentir o toque deles perscrutando meus pensamentos
A dama da morte e seu fiel companheiro
Memorandos estão em todo lugar
Eu aguardo essa hora chegar


Fugindo da noite que trás os seus impiedosos filhos selvagens
Produtos dos meus próprios pecados
Anjos negros que zombam e cuidam de mim
Para que a insanidade não me escape...
I.B.

Versos quadros verde-cinzentos

Entre o céu e as folhas secas
Cala-se a floresta em metal
Onde as mentes repousam dinâmicas
E o Sol dispara lágrimas em seus enteados
Onde a Lua é um devaneio poético
E a maré sufoca os braços debatendo-se

Mercúrio desfila por leitos espumantes
Sopra a chuva o vermelho cáustico
Olhos queimam em paisagens nostálgicas
Cartões postais jogam-se de grades distantes
E não passam de rabiscos cinzentos
"Mudas", surdas, "cegas", "telepáticas"
...
I.B.

Sem tapinhas nas costas ou algo do tipo

Havíamos cortado uns 700 km rumo ao sul em uma tentativa de redescobrirmos a nós mesmos... Ás vezes quando acordávamos em motéis de beira de estrada, esquecíamos de quem nós éramos. Optamos por vivenciar os fatos presentes sem nenhum calculismo ou remorso. Uma verdadeira cruzada jazzística por entre trastes desconhecidos e timbres melodicamente misteriosos. Toda vez que a via olhar para as estrelas sob qualquer céu de qualquer lugar dessas estradas esburacadas, lembrava que não estava tão distante de casa quanto pensava... Embora estivéssemos jogados à sorte, estávamos mais felizes do que nunca. As pessoas não se dão conta do quanto são infelizes até que provem da liberdade. E nós tínhamos o nosso gole secular! Nós havíamos pegado carona com um daqueles sulistas simpáticos e conversadores até uma cidadezinha que não me recordo o nome e paramos em um posto de gasolina. O odor nostálgico de óleo diesel e graxa e o som de motores rufando já foi mais que o suficiente para nos despertar fome. A fatídica última refeição! Após termos rapidamente comido aquele típico jantar caipira, fomos tomar banho e prosseguir viagem com nosso carona sulista, eu me dirigi ao banheiro dos homens e ela ao feminino. Eu saí e esperei, geralmente as mulheres demoram mais a sair, o caroneiro avisou que sairia dentro de 15 minutos e infelizmente não pôde esperar as horas que eu fiquei por lá. Nenhum sinal dela, já havia checado o banheiro feminino centenas de vezes, ninguém sabia de seu paradeiro. Passei exatos três dias imaginando todo tipo de coisas que poderiam ter acontecido... É uma dor muito grande quando você em uma hora tem tudo e na outra perde tudo. É como se um vazio muito grande tomasse conta de seus pensamentos e seu estômago responde de uma forma inebriante e sem aviso, lembrando-o do quanto é miserável. A princípio pensei que ela tivesse sido vítima da perversidade humana alheia, mas quando derrubei a última lágrima, foi o suficiente para congelar um vulcão. Passei então a duvidar de sua fidelidade a mim. A dúvida... Esse monstro que nos mordisca até que não reste nada...
I.B.

... Trecho tirado de uma campanha de D&D... Chamarei de "Os tristes recifes"

Habitantes da luz e dos céus
Abraçaram os filhos da terra
Feras sem rumo e sem propósito
Os mostrou o caminho dos justos
Entregou-lhes o elixir da sabedoria
E deles cobraram nada além do amor
Mas as feras queriam mais
Eram incapazes de percorrer as nuvens
E a admiração se tornou inveja
Do fogo vieram as ruínas e delas
Marcas de uma traição
E a própria terra de que eram filhos
Chorou sangue e os excomungou
As feras foram abandonadas por seus pais
As rochas vivas subiram das águas
Para presenciar o último suspiro das feras
E eles se foram como uma rajada celeste

I.B.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Aos cem...

No exato momento em que nasci, completei meu centésimo ano de vida.
Ao deitar os olhos sobre o mundo, não me surpreendi com o que vi. Conhecia tudo, conhecia a todos. Conhecia a mim...
Conhecia, enfim, o que jamais havia visto, o que nunca vi.
Os longos anos da minha breve existência, agora sei, vieram e se foram numa fração de segundo divinal.
Hoje, cem anos após, sinto que desaprendi tudo o quanto conhecia ao nascer.
As velhas lições, as esqueci.
A sabedoria de outrora já não me pertence.
Morro imerso na escuridão, que a antiga luz de há muito já se apagou.
Vago, lentamente, embora sem dificuldades, rumo ao ventre aconchegante da minha amada Mãe.
O Velho que nasci, morreu Criança...
P.M.

sábado, 29 de novembro de 2008

Toy Horses


Behind the red dragon
I saw culture rips their face off
Can seekers too young to face them
Looking to the ground as street dogs
Share your nutritious poison
Like you share this hurricane
A cold sad grateful fuck sllaped on your vision
On your ears, Spitted by his mouth
Behind that red dragon
Away in the middle of dying throats
Tempted by that yellow disgusting...
He is the comrade of the soldiers
Pedestrians and I like apple’s taste
Cautiously not being infected
I’m not a good guesser
But the old sweet bottle has moved me so far
No doubt!...victims...war... racing cars that you are
Someday tires will be spent
And fuel won’t last until the sun is rising
Somebody has to face a cleaver in the chest
To pay all this years of suicidal blindness
Boiling right behind that red dragon
Dancing meats laughing for the butcher
Loud enough to wake up all the stillbirthing creatures
Silent enough to keep newborns where they are
Behind the red dragon
Where the culture lies

I.B.

domingo, 16 de novembro de 2008

Freezing Fires

For so long i have missed you.
Where have you been?
Better, where have i been...?
Lost in the dark woods of my mind for a change
And dark thoughts have overcome my entire being.
I wonder what's become of me.
I'm alone, you know.
I feel so lonely.
Desparation starts taking control.
She's left me for good.
I have no one
And no one will ever have me again.
No purpose, meaningless
When things start looking like this you're in great danger of life.
And the danger doesn't come from the outside
But from within.
That's desperation, man.
That's desperation...
God help me!
The darkness around me is as bright as the dawn
And as cold as the freezing fires.
I'd rather never go to hell...

P.M.

sábado, 1 de novembro de 2008

Quando a Vida é Tão Longa Quanto a Brevidade de uma Tarde

No emaranhado sombrio de uma tarde cinzenta,
Num quarto repleto de vazio,
Eu te devo confessar de uma só vez:
Estava perdido nas páginas de um livro cheio de morte,
Lendo como um dia morreremos sós
E como, se formos bons em vida, descansaremos em paz
Onde quer que desejemos.

Pacientemente, vagando de quarto em quarto, me demoro na sua casa.
Estarei lá, esperando por você
Como uma estátua de mármore, dura e fria, lá estarei esperando por você.
Sozinho...

No meu leito de morte,
rezarei para os deuses e para os anjos.
Como um pagão, para qualquer um que possa me levar aos céus,
Para o lugar por que minha memória me leva a viajar.
Tanto tempo se passou desde que lá estive,
O céu estava manchado pelo vinho derramado,
E foi exatamente para lá que você me levou.

E continuei a ler
Até que o dia estivesse findo.
Naquela tarde sombria, sentado, me arrependi de tudo o que fiz.
Me arrependi por tudo aquilo que me é sagrado
E por tudo o quanto errei.
Nos sonhos, até que a morte venha me recolher, estarei a vagar...

(traduçao livre de Like a Stone)

P.M.

Palavras do Único Homem Bom de Toda a Terra

"Ne craignons jamais les voleurs ni les meurtriers. Ce sont là les dangers du dehors, les petits dangers. Craignons-nous nous-mêmes. Les préjugés, voilà les voleurs; les vices, voilà les meurtriers. Les grands dangers sont au-dedans de nous. Qu'importe ce qui menace notre tête ou notre bourse. Ne songeons qu'à ce qui menace notre âme."

(M. Myriel, Monseigneur de Digne - Les Misérables)
P.M.

Dreams


Once I had a dream
A dog became a child
My love became a slut
Please fill my cup with wine
There’s a long way talking
And you my friend
Are a warm pillow anesthetizing me

We are always running
And the smiles, oh the smiles
They never seem to be okay
May I have another cup of wine?
So my sweet “not alone” liar
That fog is just a sign of my insanity
But it’s too heavy to carry on

Here I’m a fallen god
I can’t bleed but I taste blood
I can’t die but I’m on desperate fear
There’s any wine left?
You give my shame like throwing keys
What do you expect from me?
We are always running
I.B.

O viajante de pés descalços


Lembranças
Memórias
Esvaindo
O calor
Aqueles olhos que já não vejo aqui
O passeio de risadas e pedaladas
Empatia secreta que nos foi roubada
As chuvas que me esperavam do lado de fora
O sol que nos castigava e teimava a adormecer
Companheiro Sol que testemunhou tantas coisas belas
E a Lua que as viu amadurecer
Tanto receio, Tanta solidão, Tanta companhia
Aqueles olhos, Aquele rubro intenso que proferia palavras de um doce canto exótico
Árvores que me acolhiam os pensamentos
Acalmavam meu corpo
O presente que deixei timidamente para me ligar às memórias póstumas de um quem que vagueou pelas selvas urbanas de uma Amazônia ferida
Pelas matas verdes e densas de mistérios estuprados pela vontade de falsos deuses mortais
Mas eu vi aqueles olhos
Por vezes tristes
Mas a vida que havia neles incitava a felicidade nas regiões mais remotas
Até mesmo num perdido solitário, No âmago de suas incertezas
Carrego a dor dos errantes
Dessa efemeridade que nos alfineta como a mais pesada das lâminas de um carrasco
A primeira memória a emergir
E a última coisa que hei de lembrar
Aquela boca
Aqueles...
Olhos
I.B.

O disparo

Como se uma mão apertasse minhas entranhas, eu gemia de dor, de frio. Podia sentir o convite da morte se apresentar como um vazio que me abraçava para apaziguar o sofrimento. Meus pensamentos se mesclavam ao corpo desfalecido. Eu já não estava lá. Uma névoa misteriosa brotou do meu último suspiro. Eu me perguntava se havia morrido finalmente, mas era algo contraditório de se pensar tendo em vista que eu ainda estava consciente, ou quase. Se não fossem os olhos, eu perderia a capacidade de perceber o mundo à minha volta. Pois eu era incapaz de sentir, ouvir... Estava em um estado letárgico, vegetal, sentia que algo aconteceria em instantes e ainda assim não podia prever se seria a morte. Àquela altura já havia perdido a noção do tempo e não poderia dizer se aqueles meses como um cárcere do monte Cáucaso se passaram em um segundo. Asseguro-lhes que a pior sensação que nos pode ser acometida, é a da impotência. É a única ocasião em que forças alheias são incumbidas de nos guiar. No meu caso, arrastado pelos dedos austeros do destino, incapaz de caminhar com minhas próprias pernas. Esse castigo é pior do que a morte. Esta carícia agônica e tão íntima... Que esboçava um sorriso epiléptico e doentio em minha face moribunda. Eu estava vivo...

I.B.

A fresta

Era úmido. Frio e úmido. O ar escapava-me os pulmões, deixando um gosto acre e nostálgico em minhas narinas. Estava envolto a uma poça decrépita e fétida, num beco qualquer de uma cidade de homens fracos. Podia ouvir os televisores sintonizados em um mesmo canal. Seriam notícias vazias ou intrigas hollywoodianas que nos mostravam uma realidade fajuta e anestesiante? Não podia sentir o meu corpo, era como se o peso do mundo estivesse sobre meu peito. Não podia me levantar e o menor dos esforços causava-me uma dor aguda e prolongada. Podia sentir o gosto do sangue. Rubro, tóxico... Não era meu. A lua jazia estática, bela e irritante naquele paredão negro. Como se zombasse de seus filhos menos afortunados. Podia ouvir a lamúria acompanhada de uma melodia tenebrosa em crescendo. Era a noite que atingia o seu ápice. Aquele sussurro que nos toca os ouvidos, a sensação estranha de deslocação de ar que sentimos quando alguém vem vindo e não há nada mais do que você prostrado em seus medos mais obscuros. São os gritos inaudíveis do abismo. Os cochichos e as gargalhadas de algo que nos escapa à compreensão. Pense em quantas vezes você pensava estar só em seu leito, enquanto as sombras o guardavam para elas, para satisfazer sua existência, penúria. Sugestões nefastas e paisagens surrealistas em seu inconsciente. Todo santo-dia eu posso ver, ouvir e sentir o que vocês não podem. Em cada canto de sala ou ruas inóspitas, me sinto nu e frágil. Em cada fresta e em cada janela escura, eles estão ali me observando, calculando, ávidos por um pedaço de qualquer fraquejo meu. Podia sentir um fogo arder em minha cabeça, milhares de imagens horripilantes percorrerem minhas pupilas semi-abertas. Podia sentir o gosto de sangue, o sangue nunca mente. Rubro, selvagem...


I.B.

Humanidade Divina

Ela tinha os olhos negros e profundos, como um lago de águas frias e escuras, que escondem segredos inominados e inimagináveis lá onde a vista, nem a luz, nem ninguém jamais conseguiria chegar. Segredos que restavam adormecidos no fundo do lago, sem a menor pretensão de acordarem e revelarem-se. Segredos que nunca seriam descobertos, por quem quer que fosse.

A frieza daqueles olhos negros perfurava o coração dos fracos, massacrando-os, fazendo-os desviar o olhar, sem suportar o medo que lhes dominava o coração. Mirá-los era ato de bravura, para poucos. Era, porém, compensador. A negritude e a frieza daqueles olhos escondiam uma ternura guardada a sete chaves no fundo do seu coração, uma vontade, quase desespero, de amar e ser amada, de proteção, de braços fortes que, envolvendo-a e apertando-a junto ao corpo, fizessem sucumbir a fortaleza de gelo com a qual se envolvera e se guardara. Aqueles olhos austeros escondiam uma vulnerabilidade que ela preferia não revelar.

Sobre os ombros, negros cabelos lhe escorriam, ondulando como as ondas de um mar noturno a refletir a claridade pálida da Lua. Cabelos que cheiravam ao doce perfume das rosas do jardim celestial, que enfeitiçavam qualquer um que deles pudesse vir a ter notícia. Cabelos que brilhavam um brilho indefinido, como indefinido é o brilho dos deuses.

Bem aventurados aqueles que de sua voz suave puderam, ao menos uma vez na vida, ouvir a melodia, a qual nos transporta para um mundo outro, atemporal, onde nada passa, tudo continua, estático, sempre, a não ser a sua voz que vai e vem num ritmo doce e hipnotizante. Sua fala é a fala dos deuses. É música o que emite, não palavras. É o mais puro amor, contido, porém, ansiando por explodir e, ao mesmo tempo, sem coragem de fazê-lo.

Sua pele, branca e lisa, possui o mais delicioso aroma. Quente, arde uma chama ali dentro que não se deixa apagar. Mas também não se deixa mostrar completamente.

É humana, porém, não me resta dúvida. Apesar de tudo é humana, ela guarda dentro de si o calor da vida, que se renova a cada novo gole de ar que toma emprestado dos céus. Como humana, ela sabe sofrer, ela sabe chorar por amor. Em sendo deusa não o faria. E é essa humanidade em corpo e nobreza dignos de deuses que apaixona a todos que deitam os olhos sobre ela. Foi essa humanidade divina que me apaixonou e me apaixona todos os dias. É essa mulher, mais próxima dos deuses que qualquer outra pessoa nesse mundo, que eu amo perdidamente e sempre vou amar. Mesmo quando não houver mais vida nesse corpo, meu pensamento irá amá-la.


P.M.